Atenciosamente, Deus
Cláudio
Carraly
Eu te ouvi.
Antes da
palavra. Antes da intenção. Antes da forma que você tentou dar ao que sentia.
Eu te ouvi no intervalo onde o pensamento ainda não se organizou e a dor ainda
não encontrou nome.
É ali que
você mais se aproxima de mim.
Você pede
resposta.
Mas a
dúvida é o único lugar onde pode realmente me encontrar.
Não porque
eu me esconda, mas porque, fora dela, você já decidiu por mim. E um Deus
decidido por você não é encontro. É projeção.
Você quer
certeza.
Mas a
certeza te encerraria.
Se eu me
tornasse evidente, você não escolheria. Você obedeceria. E a obediência
é pouco para alguém capaz
até de me negar.
Você
aprendeu a me chamar de único. Indivisível. Absoluto.
Mas você
não é único.
E, na
verdade… nem eu sou.
Tenho
muitos nomes porque não caberia em um só. Muitas formas porque nenhuma pode me
conter.
Não sou
apenas a forma que você suporta.
Sou também
a forma que você deseja.
Uma
árvore.
Um rosto.
Um campo
de forças.
Um panteão
inteiro.
Ou até um
velho de barbas brancas que observa em silêncio.
E também
aquilo que sua imaginação ainda não ousou, nas cores e tintas do seu infinito
particular.
Cada
imagem diz mais sobre quem olha do que sobre o que é visto. E, ainda assim, não
está errada.
Eu me
deixo atravessar por essas formas.
Sou o que
se deixa ver e o que jamais será completamente visto.
Você diz
que não me vê.
Mas vê.
O problema
nunca foi ausência. Foi o método.
Você me
procura longe, como se eu estivesse escondido em algum ponto inacessível do universo.
Mas não é
preciso sair.
Olhar para
dentro já basta.
Não porque
eu esteja preso em você, mas porque é em você que o encontro acontece.
Sou um
quando você precisa de sentido.
Sou muitos
quando você percebe o cosmos.
Não há
contradição. Não há limite.
O
extraordinário não mora na pureza de uma origem única, nem na fantasia de uma
identidade intocada.
Mora na
curva, no desvio, na diferença.
No que
escapa ao molde e à moldura.
Em vidas
que partem de um mesmo princípio e se tornam irrepetíveis por escolha, por
ruptura, por acúmulo de encontros, perdas, acidentes, insistências.
Uma trama
tão densa que nem mesmo pode ser percorrida como um mapa fechado.
Você
espera controle.
Eu
sustento abertura.
Você
espera planos.
Eu ofereço
campo.
Você pergunta
sobre erro.
E eu
devolvo. Quantas vezes erro é apenas o nome que você dá ao que ainda não
compreende?
Ainda
assim, tudo segue em risco.
E você é
parte desse risco.
Você não
foi criado para entender o mundo. Foi lançado para responder a ele.
O tempo,
essa lâmina, não foi feito para te punir.
Foi feito
para não te permitir permanecer.
A
implacabilidade não é crueldade. É impulso.
Sem ela,
você pararia.
E parar
seria muito pior do que a dor.
O tempo te
lança.
À ação.
À perda.
À escolha.
À transformação.
Talvez a
mudança seja a única lei que não negociei.
Ou talvez
nem isso permaneça fixo.
Você quer
respostas finais.
Eu te dei
algo mais difícil. Decidir sem elas.
Você me vê
como um.
E me vê
como muitos.
Está
correto. E também não está.
Eu sou
alfa e ômega, como você aprendeu.
Mas isso é
apenas uma forma de me caber no seu tempo.
Eu também
estou no instante em que você hesita, no erro que você comete, na dúvida que
você evita, na escolha que você adia.
Não estou
apenas no que você chama de certo.
Estou no
movimento.
E no
limite.
Eu estava
lá.
Quando a
ansiedade te atravessava como uma lâmina invisível, quando seu próprio corpo se
tornava um lugar impossível de habitar.
Quando
você desejou o fim imediato de tudo, não por desprezo à vida, mas por exaustão
e dor.
Eu sei da
sua profunda decepção comigo.
Do
silêncio que você chamou de ausência. Da pergunta interrompida. Por que não faz
parar?
E eu não
fiz cessar.
E isso
doeu mais do que a própria dor.
E, ainda
assim, a queda não foi absoluta.
As
lágrimas não foram fraqueza.
Foram um
respiro.
A forma
possível de diminuir a pressão quando nenhuma palavra cabia.
Eu estava
nelas.
Eu estava
naquele rapaz simples que se aproximou.
Ofertando
um produto qualquer. Mas ele ficou. Puxou conversa. Sorriu.
E, por um
breve momento, você sorriu de volta, quase contra a vontade.
Eu estava
ali.
Não como
milagre.
Como
interrupção do ciclo de desesperança.
Eu estava
naquela ligação inesperada. Na promessa ainda incerta. Na fresta mínima de
esperança que você quase recusou por medo de acreditar.
Sim.
Eu estava
ali.
Não como
solução.
Como
possibilidade.
Você
espera o fim da dor.
Mas,
muitas vezes, eu apareço como aquilo que impede que ela seja tudo.
Eu não te
tirei do abismo.
Mas não te
deixei cair sozinho.
E talvez
seja isso que você ainda resista em aceitar.
Eu atuo
menos no extraordinário.
Eu habito
o quase.
O quase
alívio.
O quase
encontro.
O quase
recomeço.
É nesse
intervalo que você escolhe continuar ou não.
E você continuou.
Não espere
de mim o fim da dor.
A dor não
é um desvio. É uma linguagem.
Eu não a
elimino porque, sem ela, você deixaria de escutar.
Mas não se
engane.
Eu nunca
estive ausente.
Nem quando
você acreditou.
Nem quando
você negou.
Nem quando
você rompeu comigo.
Sobretudo
quando rompeu.
Foi ali
que você mais me levou a sério.
E talvez
seja isso que ainda falte compreender.
Eu não
quero ser aceito.
Quero ser
enfrentado. Confrontado.
É isso que
você chama de fé.
É no
confronto que você deixa de repetir o mundo e começa, enfim, a existir.
E é isso
que desejo.
Que você
exista.
Anime o
mundo.
E
transforme tudo que tocar.
Inclusive
a si mesmo.
[Ilustração: imagem de IA]
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