02 junho 2026

Abraham Sicsu opina

Ingerência inaceitável: o que pode nos afetar
Abraham B. Sicsu  

Como Nação autônoma, um princípio basilar para a nossa dignidade, é a defesa da Soberania. Temos que poder dizer o que queremos e não admitir interferências indébitas em nosso território ou que afetem nossa sociedade.

Duas medidas, dois mecanismos de intervenções possíveis, dos Estados Unidos da América, que muito podem nos afetar: facções como terrorismo e ataque ao PIX como sistema monetário.

Em 28 de maio de 2026 os Estados Unidos da América classificou o Primeiro Comando da Capital-PCC e o Comando Vermelho-CV, facções criminosas brasileiras, como organizações terroristas estrangeiras. Entra em vigor agora em início de junho.

Para o leitor desavisado pode parecer uma mera medida interna dos americanos, ou, apenas a intervenção de um grupo político tresloucado que procura um fato para apagar as luzes de suas ações criminosas junto ao maior escândalo financeiro do país. Quer que sejam ofuscados seus desvios de conduta e morais. Não serão, a cada dia surgem novos fatos. Mas, as medidas aqui em discussão não são uma mera ação irrelevante, podem ter impactos muito mais nocivos para a sociedade brasileira.

Classificando como terroristas globais as organizações criminosas, é permitida uma intervenção nos seus membros, mas não só, também em qualquer instituição que porventura possa lhes dar suporte.

Evidentemente que se sabe que tais movimentos “mafiosos” têm e tiveram ligações, mesmo sem serem sabidas, com muitas instituições financeiras que operam no Brasil. Além de processos criminais e suas consequências, as operações em dólares e as transações comerciais a elas atreladas podem ser bloqueadas, gerando prejuízos enormes para o sistema financeiro e para as empresas que têm sua base comercial alicerçada por esse sistema, principalmente aquelas que nada têm a ver com as quadrilhas criminosas.

As instituições que forem punidas podem ser impedidas de receber ou enviar dinheiro a outros bancos. Tal punição traria anarquia para o sistema financeiro e para o cidadão comum. Seus clientes não teriam, por exemplo, PIX funcionando. Criar-se-iam enormes lacunas daqueles que estão no sistema e daqueles que seriam expurgados. Um verdadeiro caos.

Sob a alegação de possível lavagem de dinheiro, que deve e é fortemente combatida pela legislação brasileira, criam-se barreiras que ameaçam constantemente o comercio internacional brasileiro, transações em dólares proibidas, e a cidadania nacional privada de mecanismo eficiente.

Um aspecto relevante. A medida americana, na prática, leva a que o combate às facções seja transferido para as instituições financeiras que deveriam, então, sem disporem de mecanismos de combate criminal, detectar as transações suspeitas e bloquear qualquer movimentação a fim de asfixiar financeiramente as organizações criminosas. Caso não detectem, correm o risco de serem fortemente punidas por desvios que nada tem de afinidade com suas áreas de atuação.

A interferência na soberania nacional não foi previamente negociada com as autoridades competentes do País. Segundo especialistas no assunto, a medida dá ao governo americano instrumento eficaz para operações das agências de inteligência, como a CIA em nosso território e mesmo para intervenções militares sob a alegação de combate a cartéis e narcotráfico.

Cabe dizer que é importante notar que as facções brasileiras, volto a dizer que devem ser fortemente combatidas, não podem ser confundidas com movimentos terroristas, as facções se fundamentam na busca de posses, poder e riquezas, não podem ser confundidas com movimentos que têm caráter ideológico ou político como propulsor.

Vamos ao PIX. Esta semana deve sair uma resolução de condenação. Muito perigoso.

Os americanos têm expressado fortes críticas ao sistema que tanto facilitou a vida dos brasileiros. Dizem que é uma barreira comercial que prejudica as grandes empresas estadunidenses proprietárias dos mais usados cartões de crédito na praça.

O Escritório do USTR, representante comercial dos EUA, tem afirmado que o PIX é uma proteção excessiva do mercado nacional que prejudica empresas que tiveram fortes investimentos em tecnologias. Acusam até o PIX de facilitar o financiamento de organizações criminosas como o PCC e o CV.

O governo brasileiro tem se manifestado, principalmente o Ministério da Fazenda. Alerta que o sistema é hoje utilizado por mais de 150 milhões de usuários, sistema que facilitou as transações comerciais e financeiras no País enormemente.  O dia a dia do brasileiro foi modificado com este modelo transacional. Uma infraestrutura segura que legitima a soberania nacional. O ataque ao mesmo pode fortemente impactar a economia nacional. Destaque-se que, atualmente, não é usado para transações internacionais com os Estados Unidos o que não justificaria qualquer intervenção.

Cabe aqui fazer uma reflexão.

As tensões subiram com a classificação das facções como terroristas. Especialistas têm alertado que o designar como terroristas pode levar o Brasil a novas sanções internacionais. Sanções que podem afetar efetivamente o sistema financeiro nacional e mesmo nossa inserção comercial e organizacional nas diferentes estruturas internacionais.

Bloquear instituições por não detectar sistemas de lavagem de dinheiro faz com que seus clientes sejam fortemente afetados. Inclusive saindo do sistema do PIX e com isso gerando problemas sérios para as transações comerciais internas.

Também, o bloqueio seletivo a instituições e indivíduos dos mecanismos nacionais de funcionamento de nossa economia é uma ingerência inaceitável nos assuntos internos e na soberania nacional.

É se arvorar no direito de definir nossas normas de conduta e de ignorar nosso modelo de justiça ou definidor das leis, plenamente capaz de evitar, punir qualquer desvio inconsequente e estabelecer controles eficientes.

Não pode ser aceito. Exige-se respeito à Nação que somos, evitando interferências que afrontam nosso País, nossa população.

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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