06 julho 2026

Desigualdade editorial

Editoras, poder e silêncio: a geografia desigual do livro no Brasil
Quando 97% do faturamento editorial fica em dois estados, a diversidade literária vira exceção e a identidade cultural, privilégio geográfico
Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos*/A Terra é Redonda    

La pensée politique a été réduite à l’économie, comme si tout pouvait être calculé. -Edgar Morin

1.

Em reportagem para a coluna Painel das Letras do jornal Folha de São Paulo, Walter Porto informou, em 19 de junho de 2026, o resultado do mapeamento do mercado editorial no país.  Os dados atuais referentes as editoras demonstram haver “…1.047 editoras. Destas, 77% estão na região Sudeste – e 70% só nos estados de São Paulo E Rio de Janeiro –, 13% na região Sul, 5% no Nordeste, 3% no Centro-Oeste e 2% no Norte do país”.[i]

A hiperconcentração do mercado editorial brasileiro na região Sudeste, especialmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se localizam 70% das editoras e se concentra 97% do faturamento do setor, não configura meramente uma distorção econômica ou logística, mas revela um problema social profundo que afeta a própria construção da identidade cultural do país e o exercício democrático da cidadania. Os dados apresentados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros em parceria com a Nielsen escancaram uma realidade em que a produção cultural e simbólica do país é filtrada por uma “visão de mundo” centrada na “realidade e nas vontades” do eixo Sudeste do Brasil, gerando um apagamento sistemático da diversidade constituinte das demais regiões do país que vai muito além da questão autoral.

Quando 97% da receita do setor fica restrita a dois estados, o que é produzido,  o chega às prateleiras e, consequentemente, o que é visto, lido e entendido pelos quase 214 milhões de brasileiros, é uma parcela mínima da diversidade cultural que o país possui, pois as  histórias, os cenários, os sotaques, as necessidades e as problemáticas sociais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste são relegados a um papel de inferioridade, exotismo ou simplesmente ignorados, não complexificando a realidade nacional,  empobrecendo a formação política, econômica, social e cultural da população e reforçando estereótipos que consolidam o “colonialismo interno” executado pelo poderio econômico empresarial existentes no Rio de Janeiro e em São Paulo frente as demais áreas do território nacional.[ii]

Esse desequilíbrio geográfico[iii] produz, uma barreira simbólica intransponível para os profissionais que atuam fora do circuito Rio-São Paulo, uma vez que, como aponta a Folha de São Paulo a editora Patrícia Vasconcellos, enquanto um livro mediano produzido no Sudeste alcança visibilidade naturalmente, as obras feitas em outras regiões precisam atingir um “nível de excelência muito grande” para serem notadas, o que submete autores, ilustradores, designers e editores periféricos a um escrutínio muito mais severo em busca do mesmo reconhecimento, gerando uma sobrecarga que desgasta a criatividade e a produção, além de transmitir a mensagem deletéria de que a qualidade está intrinsecamente atrelada seu local de produção ou origem geográfica.

2.

Essa dinâmica é agravada pelo fato de que as relações de trabalho e as oportunidades de networking, cada vez mais importantes para o sucesso no meio literário, são construídas em encontros presenciais, festivais badalados como a Flip e a Feira do Livro, e eventos majoritariamente restritos ao circuito sudestino. A esses eventos, os profissionais de outras regiões só têm acesso com custos logísticos e financeiros “absurdamente maiores”, o que configura um circuito fechado e elitizado que perpetua a exclusão de talentos que não podem arcar com esse deslocamento. Paralelamente, as indicações para prêmios, as resenhas na grande mídia, entrevistas e as parcerias comerciais são decididas em conversas informais nos cafés e corredores, acessíveis apenas a um grupo seleto.

Para além das relações de poder simbólico,[iv] a concentração do mercado editorial produz efeitos perversos na cadeia produtiva e na vida das populações das demais regiões do pais, pois a falta de gráficas, distribuidoras e profissionais de promoção e divulgação fora do Sudeste implica menos empregos formais nas áreas de edição, tradução, revisão, design gráfico e marketing no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que as editoras locais arcam com fretes mais caros e prazos de entrega mais longos, o que encarece o preço final dos livros exatamente nas regiões onde a renda per capita já é historicamente mais baixa, criando um ciclo vicioso em que o produto cultural se torna menos acessível para quem mais precisa de estímulo à leitura.

Esse aspecto é particularmente grave quando se considera a formação de novos leitores, pois crianças e jovens do interior da Amazônia ou do sertão do Centro-Oeste, ao terem contato prioritário com livros que retratam majoritariamente a vida urbana e os problemas do Sudeste, podem sentir que suas próprias realidades não são dignas de serem conhecidas histórica e literariamente. Isso afeta negativamente o engajamento com a leitura, que passa a parecer distante e alheia ao seu cotidiano, fragilizando assim as políticas públicas de incentivo à leitura. Quando essas políticas são feitas com um acervo de conteúdos restritos e concentrado de forma exacerbada em uma única realidade nacional, falham, dessa forma, em criar identificação e pertencimento, elementos essenciais para a formação de uma sociedade leitora crítica e participativa.

3.

Outro efeito colateral desse insulamento da produção bibliográfica pode ser percebido nos critérios de premiações e reconhecimento público que sob essa “lógica econômico-organizacional”  torna-se mais um vetor de desigualdade, pois a proximidade física entre a mídia, os organizadores de festivais, as universidades centrais e as grandes editoras do Sudeste faz com que a curadoria do que é relevante ou premiado seja influenciada por essa proximidade geográfica e social, de modo que a consagração literária no Brasil não reflete a produção intelectual do país como um todo, mas tão somente a produção de uma fração territorial, o que priva o público de conhecer a pluralidade da produção literária   brasileira e reforça a ideia de que existem culturas de primeira e de segunda classe no mesmo país. As primeiras devem ser conhecidas e as segundas devem ser esquecidas.

Apesar de não haver culpados individuais nesse processo, como ponderam os próprios editores ouvidos na pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo, o mercado opera como uma engrenagem que se retroalimenta, na qual as editoras consolidadas no eixo têm mais recursos para investir em divulgação e distribuição, enquanto as editoras regionais operam com margens de lucro mínimas, gastando proporcionalmente muito mais para produzir e distribuir, mas sem conseguir cobrar preços mais altos sob pena de perder mercado, o que as mantém em vulnerabilidade financeira crônica e impede que invistam em novos autores, prejudicando o desenvolvimento de gerações inteiras de escritores e profissionais do livro em vastas porções do território nacional.

Diante desse quadro, fica evidente que a hiperconcentração do mercado editorial não é apenas um problema logístico ou mercadológico, mas uma questão de justiça social, cultural e educacional, pois ela cria um país onde a cultura de uma determinada área é indevidamente elevada à categoria de “cultura nacional”, por meio do efeito metonímia[v] (a parte pelo todo), enquanto as demais são marginalizadas e forçadas a um esforço hercúleo para existirem, aprofundando o fosso das desigualdades regionais e transformando a cultura, que deveria ser um direito universal, em um privilégio socioespacial, tanto para quem produz quanto para quem consome, razão pela qual se torna imperativo, como sugerem os editores consultados na matéria jornalística, que políticas públicas de fomento à descentralização da cadeia produtiva e à formação de leitores em todas as regiões sejam implementadas, não apenas com recursos financeiros, mas sobretudo com o reconhecimento de que o Brasil, sendo “radicalmente diverso” e contendo múltiplas realidades, precisa de um mercado editorial que reverbere essa bibliodiversidade.[vi]

*Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos é professor de história na Universidade Estadual de Goiás (UEG).Autor do livro Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro (Cancioneiro).

Notas

[i] PORTO, Walter. Mapeamento expõe como o mercado editorial brasileiro se concentra no Sudeste. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 19 jun. 2026. Coluna Painel das Letras. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/walter-porto/2026/06/mapeamento-expoe-como-o-mercado-editorial-brasileiro-se-concentra-no-sudeste.shtml. Acesso em: 19 jun. 2026.

[ii] ARRUDA, André Felipe Soares & SOUSA NETO, Francisco Florentino de. Vaquinhas que produzem pouco: uma demonstração da existência do colonialismo interno brasileiro. In: CONTEMPORÂNEA – REVISTA DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA, v. 4, p. e4180, 2024. Disponível em: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/4180 Acesso em: 15 jun. 2026.

[iii] MORAES, Antonio Carlos Robert de. Ideologias geográficas: espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo: Annablume, 2005.

[iv] BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

[v] VASCONCELOS, Eduardo Henrique Barbosa de. Historiografia das ciências no Brasil.  In: A Terra é Redonda, [s. l.], 31 dez. 2024. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/historiografia-das-ciencias-no-brasil/. Acesso em: 18 jun. 2026.

[vi] HAWTHOME, Susan, Bibliodiversidade. [Recurso Eletrônico] um manifesto pelas edições independentes. Belo Horizonte: LABED: LED, 2024. Disponível em: https://labed-letras-ufmg.com.br/publicacoes/bibliodiversidade-um-manifesto-pelas-edicoes-independentes/ Acesso em: 17 jun. 2026.

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