A Terceira Via Como Escada
E como esta se tornou linha auxiliar da
extrema-direita
Cláudio Carraly*
Há um incômodo silencioso que percorre os eventos da centro-direita
brasileira quando um nome da extrema-direita surge nas conversas de bastidor.
Não é repulsa, é apenas um leve constrangimento. No dia a dia, esse doce
constrangimento se dissolve em abraços, palcos compartilhados e uma sintonia de
alvos que torna irrelevante qualquer diferença programática alegada. A terceira
via, esse projeto político que em tese se apresentaria como alternativa tanto à
esquerda quanto à direita irascível, tornou-se na prática linha auxiliar da
extrema-direita.
O fenômeno não é brasileiro, mas aqui adquiriu contornos bem
particulares. Na Europa, a dinâmica se deu principalmente por absorção
programática; aqui, a terceira via optou por uma estratégia de fragmentação
aparente: muitas candidaturas, os mesmos palcos, um único adversário real. O
que está em curso não é uma disputa entre projetos de país. É uma divisão
tática de trabalho político cujo efeito principal é deslocar, gradual e
inexoravelmente, os limites do aceitável.
Esta análise examina os mecanismos pelos quais a terceira via opera como
dispositivo de normalização da extrema-direita. Não se trata de negar a
existência de liberais democratas sinceros. Trata-se de observar que seu
comportamento político concreto, independentemente das intenções declaradas,
produz efeitos objetivos de legitimação do radicalismo autoritário.
O Caso Brasileiro: A
Fragmentação Como Método
Desde 2018, a terceira via brasileira encontrou sua vocação: ser tudo
aquilo que a extrema-direita não pode dizer em público. Enquanto o radicalismo
vocaliza o que há de mais brutal no inconsciente das massas, a terceira via
traduz esses impulsos para a linguagem dos editoriais, dos congressos
empresariais, dos debates televisionados. Um mesmo conteúdo, a deslegitimação
do adversário, a rejeição a qualquer projeto redistributivo, a hostilidade ao
Estado como arena de disputa democrática, transita entre o grito e a análise
técnica sem que a substância se altere.
No noticiário brasileiro, "terceira via" virou rótulo frouxo,
aplicado a qualquer candidatura de partido de centrão, da mais tímida à mais
próxima do bolsonarismo declarado. Esta análise usa o termo em sentido mais estrito.
Não como etiqueta de imprensa, mas como categoria funcional: o papel que uma
candidatura efetivamente desempenha na normalização do radicalismo,
independentemente do nome que carrega. Uma candidatura pode ostentar o rótulo
sem cumprir função alguma de escada; outra pode recusá-lo e cumpri-la à risca.
O que importa, para os fins deste texto, não é o rótulo. É a função.
O que torna o caso brasileiro especialmente revelador é a desenvoltura
com que essa chamada terceira via administra suas contradições. Quando
questionada sobre a companhia que mantém, a resposta é sempre coreografada:
minimizar o aliado incômodo como exagero retórico, relativizar a ameaça citando
exemplos descontextualizados da esquerda, ou justificar a aliança como
pragmatismo político, ou a abjeta defesa do chamado “mal menor”. A objeção mais
sofisticada que essa coreografia produz merece ser enfrentada de frente, não
descartada de passagem. Dizem seus arautos que é preciso opor à esquerda um
projeto de poder capaz de vencer eleições, e que pureza ideológica não vence
pleitos. O argumento seria respeitável se a história não tivesse já respondido
a ele. Cada vez que a moderação apostou nessa coalizão ampla para vencer com o
que se tem, ela não venceu a extrema-direita; foi vencida por ela. Realismo que
sistematicamente perde não é realismo, é uma simples rendição com sotaque
técnico.
A estratégia da fragmentação opera em frentes simultâneas e ganha
nitidez quando se olha para nomes concretos da corrida presidencial de 2026 em
vez de categorias abstratas. Romeu Zema ocupa o nicho do liberalismo econômico,
construído sobre dois mandatos em Minas Gerais e um discurso anticorrupção
dirigido quase inteiramente contra o PT. O mesmo Zema, porém, já anunciou que
concederia indulto a Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de
janeiro, já defendeu o impeachment de ministros do STF e evita, com cuidado
calculado, qualquer crítica a Flávio Bolsonaro, seu concorrente à direita.
Ronaldo Caiado ocupa o nicho do conservadorismo de gestão, o discurso do
agronegócio pragmático e de uma segurança pública forte, com a ambiguidade
necessária para não afastar o eleitor urbano nem o rural já radicalizado e
logicamente sem críticas relevantes ao candidato do PL. Augusto Cury testa o
rótulo mais explícito de terceira via, a promessa de despolarização. Ela foi
lançada com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas. Ele mesmo é
lançado com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas, ele mesmo
um nome que cresceu na onda do bolsonarismo, do agronegócio e do empresariado
liberal, sem jamais precisar escolher um campo. Renan Santos, fundador do
Movimento Brasil Livre e um dos arquitetos do impeachment de Dilma Rousseff,
testa a narrativa mais agressiva, aquela que embaralha de vez as fronteiras
entre terceira via e radicalismo. Nenhum desses nomes precisa vencer a eleição
para cumprir a função da escada. Sua utilidade está em ocupar espaço,
normalizar vocabulário, fazer a manutenção do ambiente discursivo até que a
extrema-direita retome o protagonismo e, lógico, atingir um único alvo: a
candidatura do PT.
O efeito acumulado deste arranjo é um deslocamento imperceptível, mas
constante. A cada nova etapa, o discurso da terceira via se parece mais com o
da extrema-direita do ciclo anterior, enquanto a extrema-direita avança para
territórios antes impensáveis e mais abjetos. O “centro” não se mantém; ele
persegue a extrema-direita, ajudando-a a escalar e expandir seus próprios
limites.
O Padrão Global: da
Moderação à Absorção
O fenômeno não é invenção tropical. Na França, os Republicanos passaram
anos convencidos de que poderiam conter Marine Le Pen mantendo-a à distância
enquanto incorporavam seus temas: imigração como ameaça civilizacional,
identidade nacional como trincheira, o Estado de direito como obstáculo. O
resultado não foi a contenção do radicalismo, mas sua legitimação. Quando um
ex-presidente de centro-direita repete os mesmos diagnósticos da
extrema-direita, apenas com vocabulário mais polido, ele valida as premissas
dela. A presença de Le Pen no segundo turno em 2017 e em 2022 era, depois
disso, previsível.
Na Alemanha, o tabu do pós-guerra, jamais cooperar com a
extrema-direita, vem sendo corroído não por confronto direto, mas por
contaminação gradual. A CDU incorporou, em alguns estados, o vocabulário da AFD
sobre imigração e segurança, acreditando que poderia recuperar eleitores
oferecendo uma versão "responsável" do mesmo produto. O eleitor,
confrontado com a cópia e o original, tende a preferir o original. A AfD cresceu.
A CDU se fragmentou e diminuiu.
O caso americano é o mais didático por sua brutalidade. O Partido
Republicano tentou usar Trump como veículo em 2016 e terminou completamente
remodelado por ele. Paul Ryan e Mitch McConnell imaginaram que poderiam
domesticar o radicalismo oferecendo-lhe institucionalidade em troca de votos.
Em menos de uma década, foram devorados. Quem resistiu, como Romney, Cheney e
Kinzinger, acabou expulso. À direita dos EUA, descobriu tarde demais que não
estava usando a fera; era a escada dela.
A lição destes casos é brutal em sua simplicidade: a moderação que se
propõe a conter o radicalismo, incorporando suas pautas, não o enfraquece. Ela
constrói a estrada pela qual o extremismo de direita avança. Cada concessão
discursiva, cada aliança pragmática, cada silêncio cúmplice diante do
inaceitável não são gestos táticos. São degraus da escada.
A Mecânica da Escada
O processo pelo qual essa terceira via se torna linha auxiliar da
extrema-direita segue uma sequência que, uma vez identificada, torna-se
impossível de ignorar.
Começa pelo compartilhamento de ambientes. A direita tradicional aparece
nos mesmos eventos, divide os mesmos palcos, frequenta os mesmos circuitos de
financiamento que a extrema-direita. A simples presença conjunta envia um
sinal: as diferenças são de grau, não de natureza. Não é preciso declarar
aliança; basta estar junto. No Brasil, anos de aparições conjuntas em fóruns
empresariais, manifestações e eventos conservadores construíram, por mera
exposição repetida, a percepção de um campo político contínuo, e em pouco tempo
deixou de ser apenas uma percepção para virar um fato.
Uma vez normalizados, os temas da extrema-direita passam a definir os
termos do debate. A terceira via, que entrou no jogo acreditando que definiria
a pauta, descobre-se reagindo a ela. Já não propõe; responde. Já não lidera;
segue. O centro de gravidade do debate deslocou-se, e quem acreditava empurrar
a extrema-direita para o centro descobre que foi puxado para a margem. No fim,
resta apenas a irrelevância ou a canibalização. A terceira via enfrenta um
dilema final: ou se torna irrelevante, superada pela "autenticidade"
do radical que diz sem filtros o que ela apenas insinua, ou se funde
completamente a ele, abandonando qualquer pretensão de diferença. Em ambos os
casos, a escada cumpriu sua função. E agora já pode ser recolhida.
Então por que essa terceira via insiste em ser escada? Três fatores,
nenhum deles acidental, explicam a recorrência deste padrão.
Há, antes de tudo, a convergência de interesses materiais. Terceira via
e extrema-direita defendem, no essencial, a mesma estrutura de propriedade, a
mesma hierarquia social, a mesma recusa à redistribuição. Suas diferenças são
estéticas e retóricas. Quando confrontadas com uma ameaça real a esses
fundamentos, como um governo de esquerda com projeto redistributivo, a estética
torna-se detalhe descartável.
Há também o que se poderia chamar de síndrome do domesticador: a
convicção, recorrente e sempre frustrada, de que a moderação pode domesticar o
radicalismo, oferecendo-lhe respeitabilidade em troca de contenção. A história
está pontuada de figuras que acreditaram nisso, de Hindenburg a Paul Ryan, e
terminaram engolidas. A extrema-direita não busca respeitabilidade como fim;
busca-a como meio. Uma vez obtida, avança.
E há, por fim, o fator mais profundo e menos confessável: o medo do
popular. Para amplos setores dessa “terceira via”, a possibilidade de governos
de esquerda com base popular, mesmo moderados e democráticos, é uma ameaça
existencial que justifica qualquer aliança. Melhor o radicalismo autoritário
que controla a multidão do que o socialismo que a organiza. Esta equação,
raramente explicitada, é o verdadeiro programa político da terceira via
contemporânea.
O Ecossistema Digital Como
Acelerador
A transformação do ambiente comunicacional nas últimas duas décadas
criou condições para que este processo se acelerasse dramaticamente. As
plataformas digitais operam com algoritmos que recompensam o engajamento
emocional sobre a precisão factual, arquitetura sob medida para o discurso
radical. A extrema-direita, com seu talento para controvérsia e simplificação,
domina este ambiente com naturalidade.
O que merece exame mais detido é o papel específico que a terceira via
desempenha neste ecossistema. Não se trata apenas de desvantagem competitiva.
Trata-se de uma divisão de trabalho na qual a moderação funciona como ponte
entre o submundo digital e o debate público respeitável.
Observe-se o ciclo de vida de uma narrativa típica. Ela nasce em grupos
fechados de mensageria, onde circula sem qualquer filtro. Dali migra para
canais de extrema-direita em plataformas abertas, ganhando vocabulário
político. O passo seguinte é o crucial: algum veículo ou influenciador da
terceira via a recolhe, retira-lhe as arestas mais grotescas e a publica sob o
formato de "análise preocupada" ou "debate necessário". Foi
o que ocorreu com a tese do "ativismo judicial" como ameaça à
democracia, gestada em grupos bolsonaristas durante os inquéritos do STF, que
migrou para editoriais de veículos liberais até se tornar posição respeitável
em seminários de direito constitucional. A mesma trajetória pode ser traçada
nas narrativas sobre fraude eleitoral: o que em 2018 era delírio de grupos
radicalizados, em 2022 já frequentava colunas de análise política sob o
guarda-chuva do "aperfeiçoamento do sistema eleitoral".
As investigações sobre milícias digitais no Brasil, conduzidas pela
Polícia Federal e examinadas pelo Supremo Tribunal Federal ao longo dos últimos
anos, expuseram algo que deveria constranger a terceira via. A separação nítida
entre "direita moderada" e "direita radical", que o debate
público insiste em preservar, não resiste ao exame de quem financia o quê.
Círculos empresariais que patrocinam candidaturas de centro-direita reaparecem,
com frequência incômoda, entre os apoiadores de estruturas de desinformação
bolsonaristas. Não há dois projetos com fronteiras claras. Há um ecossistema de
poder com divisão de tarefas.
O resultado desta arquitetura é uma contaminação assimétrica. A
extrema-direita fornece o conteúdo bruto; a terceira via fornece o selo de
respeitabilidade. Ambas ganham: a primeira, acesso a públicos que jamais
consumiriam seu conteúdo diretamente; a segunda, relevância algorítmica e
conexão com bases mobilizadas. Quem perde é a possibilidade de um debate
público assentado em premissas compartilhadas de realidade.
O Que a Terceira Via Torna
Possível
As consequências desta dinâmica vão muito além do xadrez eleitoral de
curto prazo.
Primeiro, o estreitamento do debate público. Quando a terceira via e a
extrema-direita competem entre si para ver quem ocupa o território mais à
direita, temas que afetam a vida concreta da maioria, salários, moradia,
transporte, saúde, desaparecem da agenda. O debate político torna-se uma
sucessão de pânicos morais e controvérsias identitárias que mobilizam afetos,
mas não oferecem soluções.
Depois, a erosão institucional. A retórica antiinstitucional, quando
repetida por figuras "respeitáveis" em versão moderada, prepara o
terreno para ataques mais frontais. Questionar a confiabilidade das urnas em
linguagem técnica é a versão palatável do que a extrema-direita fará em
linguagem de motim. Uma vez rompido o consenso de que instituições são o
terreno comum do jogo democrático, a escalada é questão de tempo.
E, ao final da cadeia, a normalização da violência política. Há uma
linha que conecta a retórica de “combate ao inimigo”, mesmo proferida em
ambientes elegantes, à violência política que eventualmente irrompe nas ruas. A
terceira via acredita que pode acender o fósforo retórico sem se
responsabilizar pelo incêndio. A crença é conveniente. A realidade é
implacável.
Como Seria Uma Terceira Via
Verdadeira?
Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Mas é preciso ir além e
perguntar que condições permitiriam à terceira via existir como força
democrática autônoma, e não como linha auxiliar do radicalismo.
O requisito mínimo são cordões sanitários efetivos. A experiência belga
e francesa demonstra que o compromisso de jamais formar coalizões com a
extrema-direita, mantido com consistência ao longo de décadas, impede a
normalização. Não se trata de sectarismo, mas de estabelecer que há linhas que,
uma vez cruzadas, excluem o transgressor do jogo democrático. A terceira via,
que não estabelece esta linha, está, na prática, negociando os termos de sua
própria irrelevância.
O segundo requisito é a autonomia programática real. Uma terceira via
que se define primariamente pelo que combate, e não pelo que propõe, já é linha
auxiliar. É preciso construir agenda própria, que vá além da gestão competente
do status quo e ofereça respostas às ansiedades que alimentam o radicalismo,
insegurança econômica, desamparo social, crise de pertencimento, sem recorrer a
bodes expiatórios.
O terceiro é a honestidade sobre os próprios aliados. A terceira via
precisa decidir se está disposta a perder eleitores e financiadores que flertam
com o autoritarismo. Enquanto a defesa da democracia estiver condicionada à
conveniência eleitoral, ela não é defesa. É marketing. Defender a democracia
custa caro; é da natureza dela que seus defensores paguem esse preço.
A terceira via brasileira, e, de modo mais amplo, a centro-direita
liberal que se apresenta como alternativa civilizada, enfrenta uma escolha que
definirá seu lugar na história. Pode persistir no papel de escada, oferecendo
respeitabilidade a um projeto que despreza as regras do jogo democrático, ou
pode romper com a cumplicidade tácita e construir-se como força autônoma.
A aposta atual, usar a extrema-direita como instrumento para derrotar a
esquerda e depois contê-la, fracassou em todos os lugares onde foi tentada,
inclusive aqui no Brasil. A extrema-direita não é instrumento de ninguém; ela
que instrumentaliza. É um projeto de poder que usa seus aliados táticos com o
mesmo desprezo que reserva a seus inimigos declarados. Cada degrau da escada
acredita-se estratégico. Ao final, todos servem à mesma ascensão.
A história não pede juramentos. Pede que, na hora exata em que a fera
pedir carona, alguém tenha a coragem de fechar a porta. Portanto, votar nessa
chamada terceira via é a mesmíssima coisa que votar na extrema-direita, e quem
o faz sabe exatamente o que está fazendo e, sem dúvidas, todos sabem com quem
estarão no segundo turno das eleições.
Ilustração: George Saru
*Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário
executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.
Celso Pinto de Melo: "Quando a vida ganhou um terceiro domínio" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/celso-pinto-de-melo-evolucao-da-ciencia.html

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