03 maio 2015

Ponha na agenda


Descontrole

Leio agora que quase todos os clubes que disputam as finais dos principais campeonatos estaduais aumentaram suas dívidas este ano. Botafogo e Vasco, que decidem hoje o certame carioca ocupam o primeiro e o terceiro lugar no pódio. Por que será? 

02 maio 2015

Boa noite, Olga Savary

E assim vou
com a fremente mão do mar em minhas coxas.
Minha paixão? Uma armadilha de água,
rápida como peixes,
lenta como medusas,
muda como ostras.



Arte: Pancetti

Denúncia consistente

Memórias do racismo na 'Folha' e na 'Veja'

Por Igor Fuser*, no Observatório da Imprennsa
A tragédia dos refugiados africanos que morrem afogados na tentativa de desembarcar clandestinamente na Europa, tantas vezes repetida, expõe em cada ocasião a mal-disfarçada indiferença da mídia brasileira e "ocidental” perante as vidas de pessoas negras e pobres, em comparação com as dos brancos, dos ricos, dos europeus. Ou alguém acha que se os náufragos fossem franceses ou espanhóis o tratamento jornalístico seria o mesmo?
Os recentes episódios me trazem à lembrança o início da minha carreira como jornalista, na editoria de Exterior da Folha de S.Paulo, na década de 1980. Certo dia, perguntei ao meu chefe, Caio Blinder, por que um acidente de trem nos Estados Unidos, com cinco mortos, merecia mais destaque nas nossas páginas do que uma enchente em Bangladesh, com dezenas de milhares de mortos.
A resposta poderia ser incluída no Manual de Redação do jornal, de tão didática. Em tom de brincadeira, Blinder me explicou que vigorava na Folha a seguinte regra: 1 americano morto = 10 mil indianos mortos.
II
Nas revistas semanais (assim como nas edições domingueiras dos jornais), as reportagens de "comportamento” são, por excelência, o espaço que a imprensa concede às pessoas comuns, ou seja, os simples mortais que passam pela vida sem fazer ou se envolver em algo digno de se tornar notícia.
Esses indivíduos são procurados, em certos casos, como personagens para ilustrar, a título de exemplo, pautas da vida cotidiana, como os preparativos dos jovens para o vestibular, um novo método de ginástica nas academias ou as dificuldades para preencher a declaração do Imposto de Renda. Como regra geral, esses depoimentos são acompanhados de fotos.
Na Veja, onde trabalhei de 1988 a 1997, assim como no suplemento regional da revista em São Paulo, a Vejinha, era proibida a inclusão de personagens negros ou mulatos nesse tipo de matéria. O veto – que jamais apareceu por escrito, mas era do conhecimento de todos, e aplicado com rigor – tinha como base um julgamento "estético”.
Quando algum editor, por descuido, incluía a foto de um homem ou mulher de ascendência africana, a página era rejeitada pelo seu superior, com uma ordem inapelável: "Vamos trocar esse personagem. Não queremos gente feia”.
Se essa norma racista foi revogada depois, não sei, pois nunca mais li a revista, desde que saí de lá. Uma questão de higiene mental. Mas fica aqui a sugestão para que algum(a) estudante de Jornalismo em busca de uma tema para o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) faça a pesquisa, comprovando ou desmentindo o que eu afirmei. As edições estão disponíveis a todos.
III
No período em que trabalhei na Veja, como editor de Internacional, uma das minhas tarefas era participar das reuniões de pauta, que aconteciam nas segundas-feiras, às 11 horas. Nesses encontros, com a presença de todos os editores e do grupo de comando de revista (diretor, diretor-adjunto, redator-chefe), não se tomavam decisões. O objetivo era dar elementos para que a direção montasse o primeiro projeto ("espelho”) da edição que começava a se preparar.
As conversas fluíam em clima de grande informalidade, e era comum ver os participantes se esmerando em fazer piadas e observações engraçadas diante dos temas expostos pelos editores. O fato de ser uma reunião a portas fechadas, em um grupo restrito, favorecia a expressão de preconceitos e de ideias que, em outros ambientes, seriam censuradas como "politicamente incorretas”.
Muitas vezes me cabia a ingrata tarefa de batalhar por espaço para assuntos internacionais que tinham como foco lugares periféricos, desconhecidos do grande público e também dos colegas, como Ruanda, Cachemira ou o Sri Lanka. Esses rincões "exóticos” eram motivo de galhofa nas reuniões de pauta da Veja. Nas primeiras vezes em que eu mencionei o nome da Chechênia, conflagrada região no sul da Rússia, tive de ouvir em seguida uma rajada de comentários maliciosos.
Em uma dessas ocasiões, nos idos de 1990, apresentei como principal pauta da minha editoria um conflito relacionado com a crise terminal da União Soviética, um dos grandes temas do período. O imbroglio era complicado. Duas repúblicas soviéticas, a Armênia e o Azerbaijão, travavam um guerra pelo controle de Nagorno-Karabakh, um território de população armênia encravado no Azerbaijão.
Em meio às gozações de praxe, alguém perguntou qual dos dois lados em conflito a Veja iria apoiar: os armênios ou os azerbaijanos?
Um dos editores, Eurípedes Alcântara, atual diretor da revista, matou a charada com outra pergunta, seguida de uma gargalhada geral: "Quem é o mais branco?”
*doutor em Ciência Política pela USP e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).
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01 maio 2015

Uma questão candente

A condição geográfica da pessoa idosa: qual lugar?

Maêlda Lacerda[1]
De onde partir para analisar a condição de uma realidade temporal do envelhescente, quando sabemos que os lugares mudam? A categoria Lugar, que os geógrafos estudam, tem histórias e espaços variados. Esses espaços são os lugares vividos, percebidos e concebidos que guardam a diversidade das sensibilidades humanas, a atenção para as expressões individuais e a consciência dos constrangimentos ligados à existência de normas e valores. Quem mais internaliza o valor dos signos pertencentes ao lugar geográfico é a pessoa idosa, porque carregada de farta memória, porque acompanhada de recorrentes lembranças. As pessoas idosas identificam-se com o lugar onde moram desde crianças. Simone de Beauvoir diz, em um grande clássico sobre a velhice, que “há na lembrança uma espécie de magia à qual somos sensíveis em qualquer idade. Mas são, sobretudo, os velhos que a evocam com complacência”. É possível afirmar, grosso modo, que as pessoas idosas vivem mais da lembrança do que da esperança. Porque passeiam por certas ruas, reconhecem as paisagens históricas das cidades, mas não reencontram os mesmos projetos, os mesmos desejos: não se reencontram. No entanto, paradoxalmente, é a pessoa idosa que reconstrói a memória social e localiza os fatos passados, e narra com riqueza de detalhes a nossa história. Por isso, as representações não aparecem fundamentalmente apenas como realidades individuais, elas são também de natureza social. Este ponto aparece como algo importante para que seja repensado o lugar que o envelhescente ocupa no âmbito social, pois o tempo e os espaços vividos só se semiotizam quando são expressados como experiência humana. Externar, para a pessoa idosa, significa enunciar a convivência, a vida das interrelações sociais ocorridas em determinado lugar. Esse entendimento, se colocado como atributo para formulação de políticas públicas para a pessoa idosa, revelará atores sociais que registram e projetam os fenômenos de suas próprias culturas. E, se concebidos assim, se reconhecerão nos seus lugares e serão reconhecidos.
[1] Maêlda Lacerda é doutora em Geografia e professora do Instituto Federal de Educação de Pernambuco, atuou como Membro do Conselho Estadual dos Direitos do Idoso.
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Decadência e desigualdade

Crise humanitária

Eduardo Bomfim, no portal Vermelho

O processo de acumulação, em escala sem precedentes, da concentração, centralização do capitalismo, cujas consequências surgem diante dos extraordinários movimentos financeiros, monetários, em nível planetário, tem em conta primordialmente o capital volátil, em um Mercado caracterizadamente parasitário, rentista.
Mesmo com o risco de uma observação empírica é possível assinalar que o processo estrutural da crise capitalista internacional atingiu uma nova e mais dramática etapa, onde vários fatores, políticos, econômicos, militares e sociais estão se somando de maneira muito perigosa.
A economia norte-americana, carro chefe de todo esse processo, esperava um balanço atual que indicasse crescimento em um mínimo de 1,0% mas apresenta índice pífio de 0,2% provocando fenômeno depressivo nos analistas do sistema.
A decadência da outrora poderosa economia dos Estados Unidos revelou-se durante a década de 1980 quando os sintomas de desindustrialização já eram evidentes.
Segundo o jornalista norte-americano George Packer em seu recente livro “Desagregação, por dentro de uma nova América”, o vale do Mahoning, região produtora de aço, sofreu uma brutal crise irreversível que também estendeu-se por outras regiões como Cleveland, Toledo, Akron, Syracuse, Pittsburgh, Bethlehem, Detroit, Flint, Milwaukee, Chicago, Gary, St. Louis etc.
Daí o apelido de “Cinturão da Ferrugem”, a “praga de centenas de milhares de desempregados do setor produtivo industrial”. A debacle financeira de 2008 acrescentou à decadência da economia dos EUA um novo, mais grave fator.
A atual sublevação popular em Baltimore, EUA, vista pela mídia de todo mundo noticiada como rebelião contra o racismo, que também é, trata-se de fenômeno social em virtude do desemprego massivo na América do Norte.
E, com a crise capitalista global surge o trágico êxodo, em virtude das agressões imperialistas na África, das incríveis, sucessivas ondas de refugiados e imigrantes que cruzam o Mediterrâneo rumo à Sicília, Itália, com a morte de milhares de pessoas pelo naufrágio na busca de trabalho numa Europa devastada pelo desemprego, a falência econômica, desorientação social no velho continente.
Assim a crise da Nova Ordem mundial neoliberal acrescenta ao seu legado danoso uma catástrofe humanitária sem precedentes.
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Bom dia, Vinícius de Moraes

Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria. 
O operário via as casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não!

Arte: Candido Portinari