02 junho 2019

Engodo bolsonarista


Uma grande mentira
Janio de Freitas, Folha de S Paulo

A aquietação silenciosa em que a trupe mergulhou, por toda a semana, obedeceu à reação, demorada mas enérgica, dos ministros militares à tolerância explícita de Jair Bolsonaro aos insultos de Olavo de Carvalho ao general Villas Bôas.
O "basta", calado diante de ataques a outros generais, como Santos Cruz, e mesmo aos militares em geral, representa a primeira dissensão verdadeira, apesar das várias noticiadas, entre os generais reformados do governo e Bolsonaro.
O ataque ao ex-comandante do Exército foi agravado por dirigir-se também ao estado físico do general, condicionado à cadeira de rodas e ao auxílio respiratório. Pior do que indiferente, a atitude de Bolsonaro desconsiderou a contribuição de Villas Bôas à sua eleição, como patrocinador da candidatura nas Forças Armadas e entre os conservadores civis.
Não podendo ser um dos limitados à comunicação privada, Bolsonaro refluiu as suas provocações e a falta de senso, também como efeito das cobranças e conversas afinal mais responsáveis no Planalto.
Passou a semana buscando eventos em que se mostrasse simpático, quis entrevistas, culminando com o espetáculo do enlace a que atraiu dois incautos. Dias Toffoli e Rodrigo Maia capitularam a papéis deploráveis.
O primeiro não tem como comprometer por sua conta, em pactos ou no que seja, os demais magistrados do Supremo Tribunal Federal. Até os desvalorizou no tal pacto político com Bolsonaro em nome do tribunal. O outro, sonhando sempre com a Presidência, pensou subjugar às pretensões do Executivo a independência do Legislativo ditada pela Constituição. Ambos demonstraram mais presunção pessoal do que noção dos limites de suas funções.
O silêncio da trupe e a contenção de Bolsonaro falsificaram a índole do governo. Só Abraham Weintraub, da Educação (sic), com seu desempenho tanto pior que o de Ricardo Vélez quanto, por isso, melhor para o saldo de democracia ainda existente.
A construção ou, no nosso caso, a salvação do regime medianamente democrático precisa de quem o defenda. À falta de oposição organizada e incisiva, estudantes coadjuvados por professores entregam-se com altivez a esse papel. Weintraub é quem os incita.
Flagrante significativo: os meios de comunicação clamam sem cessar por melhor sistema de ensino, sua única ou maior bandeira de benefício com amplitude absoluta —e recorrem a métodos conhecidos para depreciar as manifestações contra o corte de 30% dos recursos do ensino superior público. É o famoso tiro no pé. Há informações sobre esforços de organização para manifestações várias, já em junho, de outros segmentos prejudicados.
É o esperável de um país que degringola. Ao se completar apenas o quinto mês de governo, os 3% de crescimento neste ano, previstos antes da posse pelo novo ministro da Economia, já estão reduzidos à faixa do zero vírgula. Afinal divulgados, os resultados econômicos do primeiro trimestre foram desastrosos. Os do atual não prometem coisa melhor.
A figuração das mudanças na Previdência como chave para uma grande virada é engodo. E seus propagadores sabem que aí não há milagre algum.
Estamos vivendo dentro de uma grande mentira. Não há sinal de que os militares do governo se inquietem além das bagunças da trupe bolsonara.
Mas os bolsonaristas do poder econômico (sim, é redundância) começam a assustar-se, ainda mais com as perspectivas do que com a má atualidade. Por ora, pacificam-se na sua catedral, a Bolsa. Não falta muito, porém, para que se sintam premidos a liberar as palavras ainda retidas em ambientes restritos, como fizeram em ocasiões passadas. Sem que isso permita, necessariamente, vislumbrar uma saída saudável de dentro da grande mentira.
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Desconfiança

Analistas conservadores lamentam o pessimismo que toma conta do empresariado - dos grandes aos médios e pequenos. E não enxergam nenhuma luz no fim do túnel ultraliberal.

Uma crônica para descontrair


Medo de avião
Luciano Siqueira

Numa dessas conversas rápidas e ocasionais, ouvi o comentário:

- Aqui não tenho medo, mas de avião tenho muito!

Era um cidadão de trajes formais, provavelmente visitante, ali no canto do elevador da Prefeitura.

- Pois me sinto absolutamente tranquilo num voo aéreo, retruquei. Confio nas estatísticas.

Como se eu tivesse dito uma asneira, todos se voltaram pra mim com ar de estranheza.
Não sei se pela referência às estatísticas ou pela percepção geral de que não se deva confiar num aparelho que voa a cinco quilômetros de altura.

Ariano Suassuna dizia preferir os buracos das estradas mal cuidadas ao único buraco visto lá de cima...

O cidadão bem vestido desceu no sétimo andar, onde fica meu gabinete. E se dirigiu ao lado oposto, provavelmente com audiência marcada na Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer.

Antes de pedir um cappuccino a Marly, como de hábito, permiti-me o devaneio. Como pode alguém bem informado ainda temer viagens aéreas em pleno Século 21?

Claro que pode. Tem gente que por natureza teme tudo, até a própria sombra. E sempre se inclina aos tais maus pensamentos, envolto em pessimismo.

Evidente que ninguém controla o rumo dos acontecimentos. Este desejo que nos persegue desde o início da Civilização certamente jamais será alcançado. Mesmo com a incessante inovação tecnológica, aparelhos dotados de sensores os mais diversos que, por exemplo, lêem a saúde da gente com tamanha precisão que ao médico cumpre um papel secundário, acompanhando os resultados dos exames feitos pela máquina.

Não devia ser assim, claro. Olhar nos olhos, perscrutar o estado de espírito do paciente, ouvir suas queixas atentamente, enfim, a boa relação médico-paciente será sempre indispensável. As máquinas não esclarecem tudo.

Voltando ao medo de avião, talvez eu é que esteja confiante em demasia – na evolução técnica das aeronaves e nas estatísticas, que demonstram uma incidência muitíssimo maior de acidentes nas estradas do que nas nuvens.

Melhor pedir o cappuccino, conferir a agenda e iniciar a labuta do dia – com o preciso auxilio do meu lap top e do smartphone.

Com otimismo e confiança nas novas tecnologias.

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Pode a força bruta vencer a violência criminal?


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01 junho 2019

O olhar de Pedro Caldas sobre a cidade (20)

Foto: Pedro Caldas

Bola mucha


Pífio. Esse é o resultado das promessas de Paulo Guedes, anunciado por Jair Bolsonaro como o verdadeiro messias do seu governo. Ele assumiu o controle do que seria a nave capitânia do bolsonarismo, ainda na campanha eleitoral, prometendo um mar de rosas assim que o novo presidente tomasse posse. Sua aposta era de um crescimento de até 3,5% este ano, baseado no que seria a “potência da plataforma liberal”. O combustível viria com a “reforma” da Previdência Social, as privatizações e mais algumas medidas administrativas, como a simplificação de impostos e a redução cosmética dos juros.leia mais https://bit.ly/2W3eRed

No buraco


Para o Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica do Instituto de Economia (Cecon do IE-Unicamp), a retração da economia se deve à queda da demanda, desaceleração do crédito e elevação dos spreads bancários. A previsão do mercado financeiro de crescimento de 3% em 2019 não se confirma, apesar do aumento da confiança empresarial em 2018 com a eleição de Bolsonaro. O risco de uma recessão em 2019 é evidente. A queda do PIB no primeiro trimestre exige uma recuperação muito significativa nos trimestres seguintes apenas para que a variação do PIB em 2019 seja igual às expectativas do mercado. Como ocorre há muitos anos, de novo é pouco provável que a atual previsão do governo ou do mercado financeiro para o PIB se verifique. Leia mais https://bit.ly/2wxeQEY