08 julho 2017

À frente do seu tempo

A vida política de Frida Kahlo
Suas convicções políticas e quebras de padrões foram manifestadas através de uma linguagem irônica e de uma estética de cores e formas presentes nas suas pinturas e no seu vestuário. Expressões de contestação marcadas pela criatividade, subjetividade, irreverência e autenticidade.

Por Paula Cervelin Grassi, no Vermelho

Ultimamente tenho escutado o alerta do quanto “Frida está pop”. Afirmação que ao ressoar em meu corpo, remete a associações e indagações. Uma das minhas primeiras reações é a lembrança do também “pop” Che Guevara. Surge assim a primeira questão: Frida Kahlo já se tornou um mito de consumo? Segundo Claúdio Carvalhaes[1], está há anos em curso (assim como em Che) o processo de esvaziar as referências políticas, culturais e revolucionárias de Frida para ficar palatável ao consumo regrado de beleza norte americano.

Pergunto assim, a quem interessa que a memória de Kahlo não seja associada às suas opções políticas ou, quando exposta, de forma muito rasa. É comum citar que a artista tinha aspirações revolucionárias sem titulá-las ou, quando definidas, ligadas aos seus relacionamentos afetivos. Como se seu interesse político partisse ou fosse compreendido através da sua vida amorosa. Mas então, quais foram as referências políticas de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon Rivera? Quais os registros do seu interesse político e social?

Uma primeira evidência das suas ideias políticas é sua opção pelo ano de nascimento. A artista nasceu em 6 de julho de 1907 em Coyoacán, Cidade do México, porém em seu diário afirma ter nascido em 1910, ano em que a Revolução Mexicana eclode. Para a pintora também: “La emoción clara y precisa que yo guardo de la Revolución mexicana fue la base para que a los 13 años de edad ingresara em La juventud comunista”[2] - [a emoção clara e precisa que eu guardo da Revolução Mexicana foi a base para que aos 13 anos de idade ingressou na Juventude Comunista].

Na Escola Nacional Preparatória, ao entrar em 1922, fará parte do Los Cachuchas, um coletivo político de afeição socialista. Em 1925 se afasta da Escola após o acidente com o bonde que comprometeu sua saúde pelo resto da sua vida. Quando recuperada passa a frequentar reuniões e festas semanais do meio artístico e político e em 1928 filia-se ao Partido Comunista.

Casa-se em seguida com o também filiado, o muralista mexicano Diego Rivera. O pintor, no entanto, não foi seu único amor. A artista ao longo da vida teve diversos relacionamentos, como com o então colega da Preparatória e líder estudantil Alejandro Gómez Arias, o líder comunista russo Leon Trotski, a cantora mexicana Chavela Vargas e o fotógrafo Nickolas Muray.

Na década de 30, ao acompanhar o trabalho artístico de Diego nos EUA, Frida expressou em cartas seu desgosto pelos “gringos”, certamente por conta do seu sentimento anti-imperialista. Em 1931 escreve para seu médico, o Dr. Eloesser:

A alta sociedade daqui me deixa muito desanimada, e sinto um pouco de raiva desses ricos daqui, já que vi milhares de pessoas na mais terrível miséria sem nada pra comer e sem lugar pra dormir, que é o que mais me impressionou aqui, é horrível ver esses ricos dando festas dia e noite enquanto milhares e milhares de pessoas morrem de fome. (…) os norte-americanos não tem um pingo de sensibilidade.[3]

Outro aspecto a ser destacado foram suas percepções do movimento surrealista. Apesar da aproximação, Frida fará diversas críticas ao movimento. Ao final de sua vida em 1952, a artista esclareceu que:

Alguns críticos tentaram me classificar como surrealista; mas eu não me considero surrealista. (…) Eu detesto o surrealismo. Pra mim, parece uma manifestação decadente de arte burguesa. (…) Eu quero que minha obra seja uma contribuição para a luta das pessoas em seu esforço pela paz e a liberdade.[4]

Possivelmente “a obra mais surrealista de Frida seja o diário que ela manteve de meados de 1944 até sua morte”[5], através de seus desenhos, montagens de objetos, cores e palavras espalhadas. Nas páginas é perceptível a crença ao marxismo. Em 1947, escreve:

A revolução é a harmonia da forma e da cor e tudo está, e se move, sob uma só lei = a vida =
Ninguém está a parte de ninguém
Ninguém luta por si mesmo
Tudo é tudo e um

Suas referências políticas aparecem escritas junto do símbolo comunista – a foice e o martelo – desenhado por volta de 1953:

Dias antes de falecer, Frida Kahlo, já tomada pela pneumonia, participou de um ato contra a deposição, patrocinada pela CIA, do presidente da Guatemala.

Todos esses fatos e expressões são apenas alguns dos aspectos da vida da pintora regada da dimensão política. Há uma infinidade de tantas outras questões que necessitam ser conhecidas e aprofundadas. Seu apego às raízes indígenas, ao povo mexicano e a cultura pré-colombiana; sua dedicação ao marxismo expressa em suas pinturas; sua quebra no padrão burguês estético da época através de suas obras, seu corpo e seu vestido tehuana; sua ajuda às vítimas da guerra civil espanhola; sua caminhada docente ao acreditar numa educação baseada no conhecimento dos saberes das pessoas e na justiça social.

Suas convicções políticas e quebras de padrões foram manifestadas através de uma linguagem irônica e de uma estética de cores e formas presentes nas suas pinturas e no seu vestuário. Expressões de contestação marcadas pela criatividade, subjetividade, irreverência e autenticidade.
O conjunto de todos esses aspectos somado as suas outras manifestações, especialmente artísticas, tornaram Kahlo uma mulher e artista singular. Uma experiência de incômodo e ruptura frente aos modelos tradicionais de feminilidade e ao sistema econômico hegemônico. Que sua memória de libertação a todas/os nós cesse as narrativas da sua vida construídas pelos interesses patriarcais–capitalistas. Por uma Frida Kahlo protagonista, criativa, política, autêntica e desobediente!
Notas

[1] Autor de (Re)leituras de Frida Kahlo: por uma ética estética da diversidade machucada, University of Sta Cruz do Sul and Ensino Superior de Teologia, Brasil, 2008.
[2] KAHLO, 1995, p. 282.
[3] HERRERA, Hayden. Frida: a biografia. São Paulo: Globo, 2011, p. 164.
[4] HERRERA, 2011, p. 320.
[5] HERRERA, 2011, p. 320.
[6] KAHLO, 1995, p. 245.
 
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