15 fevereiro 2026

Renato, presente!

Renato Rabelo deixa importante legado ao Brasil e ao PCdoB
www.pcdob.org.br  

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) comunica, com imensa dor, o falecimento aos 83 anos de idade de Renato Rabelo, um dos mais importantes dirigentes de sua história centenária, do qual foi presidente de 2001 a 2015. Nos últimos três anos, Renato dedicou-se a cuidar da saúde, sem deixar de contribuir com o PCdoB. No período mais recente, lutou de modo tenaz contra a evolução de um câncer. O seu coração parou de bater na manhã deste domingo, 15 de fevereiro de 2026.

Ao mesmo tempo, o PCdoB manifesta condolências à esposa, Conceição Leiro Vilan, a estimada camarada Conchita, a seus filhos, André e Nina, aos demais familiares e aos amigos/as. Expressa o sentimento de consternação de toda a militância comunista que, em homenagem a Renato, inclina a bandeira verde e amarela da pátria, entrelaçada com os estandartes vermelhos da revolução e do socialismo. E acolhe no peito os sentimentos, os pêsames que chegam do país e do exterior e pulsam nas redes sociais.

Foram mais de sessenta anos de militância revolucionária. Renato foi vice-presidente nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE), enfrentando a feroz repressão dos primeiros anos da ditadura militar de 1964. Já era militante da Ação Popular (AP) e integrou o núcleo dirigente que conduziu a integração daquela organização ao PCdoB, em 1973.

Soma, desde então, mais de meio século como liderança destacada do núcleo nacional de direção do PCdoB, personalidade respeitada do campo político democrático, patriótico e popular e do conjunto da esquerda. Nesta longa jornada, teve participação de proa nas lutas e confrontos travados pela nação e pela classe trabalhadora.

Exilado na França, na conjuntura da Chacina da Lapa, em 1976, quando dirigentes do PCdoB foram assassinados, presos e torturados, retornou ao Brasil com a anistia de 1979. Nesse período, conviveu com João Amazonas, histórico ideólogo e construtor do PCdoB, e outros dirigentes comunistas. Iniciou, então, a trajetória de formulador teórico, organizador e dirigente do Partido.

Sua respeitabilidade se firmou também no cenário internacional. Participou ativamente de debates e elaborações, visitou organizações comunistas, revolucionárias e patrióticas de vários países, e recebeu, no Brasil, diversas lideranças, fortalecendo laços de amizade e cooperação, tendo como fio condutor a luta anti-imperialista. Dedicou-se, em especial, ao fortalecimento das relações do PCdoB com os países socialistas, notadamente, China, Vietnã e Cuba.

Sua maior obra é o aporte de ideias e formulações ao acervo teórico, político e ideológico do Partido, importantes contribuições teóricas e políticas que enriqueceram o seu pensamento tático, estratégico e programático, como também a práxis de sua edificação e atuação na arena da luta de classes. A isso se soma um elenco de quadros comunistas em relação aos quais o papel de Renato foi destacado para formá-los, seja na Escola Nacional João Amazonas, seja na estrutura do Partido, seja nas frentes de atuação, notadamente no movimento estudantil.

Renato, destacou-se na luta política – foi um dos articuladores, pelo PCdoB, junto com João Amazonas, da Frente Brasil Popular (PT, PSB, PCdoB) que lançou, em 1989, a primeira e marcante candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República, jornada que seria vitoriosa com a eleição de Lula em 2002.

Já à frente do PCdoB, sucedendo João Amazonas, Renato elaborou as diretrizes da participação dos comunistas em governos de coalização no capitalismo, tendo em vista o convite para participar, pela primeira vez, do Ministério do governo da República.

Aquele cenário que se abria representou um imenso desafio, tarefa que assumiu com a dedicação de sempre, com sabedoria política, capacidade de dialogar e agregar, convicção democrática e progressista. Foi um dos artífices das táticas políticas dos governos Lula e Dilma Rousseff, qualidade reconhecida por lideranças das forças políticas que compuseram as alianças amplas daquele período. 

Na conclusão de seu último mandato na presidência do Partido, quando propôs, em 2013, o nome de Luciana Santos para sucedê-lo, diante da escalada golpista da direita neoliberal saiu a campo para construir uma frente ampla democrática.

Em 1º de abril de 2016, Renato assumiu a presidência da Fundação Maurício Grabois, na qual liderou e participou de importantes iniciativas no estudo e enfrentamento dos fenômenos que surgiram naquele conturbado período do país. Sempre com a prática da amplitude e da agregação de amplas forças em torno da resistência democrática, deixou também na Fundação preciosas contribuições teóricas e programáticas. Em 2025, foi laureado presidente de honra da Fundação, em enaltecimento às suas realizações.

O presidente Lula, na apresentação da biografia de Renato, Vida, ideias e rumos, escreveu que ele era um homem notável, “uma das figuras mais relevantes da história política do Brasil”. “Um homem que dedicou sua vida à luta por justiça social, igualdade e soberania nacional, princípios que são caros a todos nós que acreditamos em um país mais inclusivo e democrático.”

A ex-presidente Dilma Roussef afirmou, também nesse mesmo livro, que Renato era “um baiano doce de alma revolucionária, que segue o melhor da tradição comunista, combinando ação e pensamento, teoria e combate, comprometido com o desenvolvimento nacional, a emancipação do povo brasileiro e a construção do socialismo”.

Renato deixa uma rica produção política, teórica e ideológica, um magnífico exemplo de vida e de militância política, um acervo responsável pelo engrandecimento do PCdoB, pela sua respeitabilidade e pela sua força como organização protagonista na luta política nacional e internacional.

Nesse momento de dor profunda, o PCdoB reafirma que seu legado fortalece a essência do Programa dos comunistas, a luta por um Brasil soberano, democrático e socialista, para a qual contribuiu enormemente.

Quanta realização de uma vida profícua, que seguirá impulsionando a jornada revolucionária e inspirando as novas gerações de comunistas!

Revigorar, fortalecer o PCdoB com o legado de Renato Rabelo!

São Paulo, 15 de fevereiro de 2026

Nádia Campeão – presidente em exercício do PCdoB

Luciana Santos – presidente licenciada do PCdoB

Comissão Executiva Nacional do PCdoB

Rede Glogo tem partido

Por que o Jornal Nacional não mostrou Lula no Galo da Madrugada?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Recordo-me da campanha das diretas já, nos anos 70, quando a Rede Globo simplesmente silenciou sobre as manifestações de rua, até quando mais de 40 mil pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú e não foi possível esconder o fato.

É que a mídia corporativa privada tem partido – embora repita à exaustação ser “independente”.

Gramsci, ao seu tempo, já demonstrava que a "imprensa burguesa" era muito mais do que um meio de transmissão de notícias; funcionava, como funciona, como instrumento de imposição da hegemonia cultural da burguesia dominante. Atualizava, por assim dizer, o que Marx e Engels já denunciavam em “A ideologia alemã” de que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”.

Ora, a presença do presidente da República no camarote oficial do bloco carnavalesco considerado o maior do mundo (sic) numa capital importante como o Recife por si mesma é uma notícia relevante. Mas a Globo a relegou a noticiário local. Por razões obviamente políticas.

A “vênus platinada” agiu, mais uma vez e com o sempre, como partido político. No caso específico, como integrante de todo um complexo midiático dominante no país que se põe a serviço do capital financeiro e rejeita a possibilidade de reeleição de Lula.

Leia também: A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

Humor de resistência

 

Enio

Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html 

Agatha Christie, presente!

'Nada como o tédio para escrever': a misteriosa Agatha Christie em rara entrevista à BBC
Greg McKevit/BBC   

Agatha Christie sabia como poucos se esconder à vista de todos.

Ela se apresentava como uma senhora mais velha e afável, com casaco de pele, amante da jardinagem, da boa comida, da família e dos cães. Por trás dessa aparência gentil, divertia-se tramando histórias de envenenamentos, traições e sangue — sucessos de venda.

E oferecia poucas pistas sobre o funcionamento interno de sua mente engenhosa.

Christie era cronicamente tímida, mas, em 1955, foi convencida a conceder uma entrevista incomum em seu apartamento em Londres para uma reportagem de rádio da BBC.

Nela, a autora revelou como uma infância pouco convencional despertou sua imaginação, por que escrever peças de teatro era mais fácil do que escrever romances e como conseguia terminar um livro em três meses.

Nascida em 1890, em uma família próspera, Agatha Miller teve sobretudo educação domiciliar.

Quando perguntada sobre por que se dedicou à escrita, Christie respondeu: "Atribuo isso ao fato de nunca ter tido uma educação formal".

"Talvez seja melhor esclarecer admitindo que acabei indo à escola em Paris quando tinha cerca de 16 anos."

"Mas, até então, fora o fato de terem me ensinado um pouco de aritmética, eu não havia recebido nenhuma aula digna de nota."

Christie descreveu a infância como "gloriosamente ociosa", mas acrescentou que tinha um apetite voraz pela leitura.

"Comecei a inventar histórias e a interpretar diferentes papéis. Não há nada como o tédio para escrever. Assim, quando eu tinha 16 ou 17 anos, já havia escrito muitos contos e um romance longo e deprimente."

Ela contou que concluiu sua primeira novela publicada aos 21 anos. Após várias rejeições, O Misterioso Caso de Styles foi publicado em 1920, apresentando sua criação mais famosa, o detetive belga Hercule Poirot. 

O método de envenenamento escolhido para essa história surgiu diretamente de sua experiência pessoal durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Enquanto o seu primeiro marido, Archie Christie, estava destacado na França, ela trabalhou no front interno como enfermeira voluntária em um hospital para soldados feridos.

Depois, se tornou auxiliar de farmácia do hospital, o que lhe permitiu compreender melhor medicamentos e toxinas.

Em suas histórias, o veneno é usado em 41 casos, entre assassinatos, tentativas de assassinato e suicídios.

O mistério de Christie
 

A fórmula típica de Christie começa com um círculo fechado de suspeitos pertencentes ao mesmo meio social e um assassinato que gera pistas até culminar em um confronto decisivo.

No centro da trama está um detetive particular, como Hercule Poirot ou Miss Marple (Jane Marple, uma detetive amadora e idosa), que desvenda o enigma e revela a verdade ao grupo em uma cena final dramática.

Essa estrutura, familiar e ao mesmo tempo infinitamente adaptável, é parte do que torna a obra de Christie tão duradoura.

Em 1926, ela publicou O Assassinato de Roger Ackroyd, livro que consolidou sua reputação profissional; naquele mesmo ano, sua vida pessoal desmoronou.

Sua querida mãe morreu, e seu marido Archie confessou estar apaixonado por outra mulher e pediu o divórcio.

Enfrentando o luto e um bloqueio criativo, Christie se tornou protagonista de um mistério.

Numa noite fria de dezembro, seu carro acidentado foi encontrado em um local isolado de Surrey (sudeste da Inglaterra), mal equilibrado à beira de uma pedreira.

A polícia encontrou no veículo seu casaco de pele e sua carteira de motorista, mas não havia nenhum sinal dela. 

Iniciou-se uma das maiores buscas por pessoas desaparecidas da história do Reino Unido.

A história reunia todos os elementos de um sucesso sensacionalista: a célebre romancista policial havia desaparecido deixando um rastro de pistas tentadoras, a filha de 7 anos abandonada e o marido atraente envolvido com uma amante mais jovem.

Até o autor de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, interveio, contratando uma vidente para tentar se conectar com Agatha Christie por meio de uma de suas luvas.

Viagem pelo Oriente Médio

Dez dias depois, ela foi encontrada a 370 quilômetros do local do acidente, em um hotel de Harrogate, em North Yorkshire (norte da Inglaterra).

Proliferavam as teorias: o desaparecimento teria sido causado por perda de memória, por uma tentativa calculada de constranger o marido ou até por uma manobra publicitária?

Christie decidiu não esclarecer o mistério em sua autobiografia e se limitou a escrever: "Assim, após a doença, vieram a tristeza, o desespero e o desamor. Não há necessidade de ficar voltando ao assunto".

Ela era igualmente prática ao falar dos segredos de seu método de trabalho. Em 1955, disse à BBC: "A verdade decepcionante é que não tenho muito método".

"Escrevo os meus próprios rascunhos em uma máquina antiga e fiel que tenho há anos, e considero útil um gravador de voz para contos ou para reformular um ato de uma peça de teatro, mas não para a tarefa mais complexa de escrever um romance." 

Em 1930, Christie se casou com Max Mallowan, um arqueólogo 14 anos mais jovem, seis meses depois de conhecê-lo durante uma viagem ao Iraque.

Unidos pela paixão por culturas antigas, as viagens do casal pelo Oriente Médio inspiraram histórias como Morte no Nilo, publicada pela primeira vez em 1937.

A felicidade recém-descoberta pareceu ter um impacto profundo em sua obra: nos nove anos seguintes, ela escreveria 17 romances.

Para Christie, o maior prazer da escrita estava em conceber tramas engenhosas. "Acho que o verdadeiro trabalho consiste em planejar o desenvolvimento da história e se preocupar até que tudo esteja bem polido. Isso pode levar muito tempo."

"Depois, quando se tem todo o material, por assim dizer, resta apenas tentar encontrar tempo para escrevê-lo", acrescenta.

"Três meses me parecem um prazo bastante razoável para concluir um livro, se a pessoa puder se dedicar a isso."

Em um programa de rádio de 1955, o empresário teatral Peter Saunders, produtor da bem-sucedida peça A Ratoeira, disse que Christie tinha um dom extraordinário para criar cenas e histórias completamente formadas em sua mente.

"Uma vez lhe perguntei: 'Como vai a nova peça?'. 'Está pronta', ela me disse. Mas, quando lhe perguntei se poderia lê-la, ela respondeu com charme: 'Ah, eu não a escrevi'. Do ponto de vista dela, a peça, do começo ao fim, já estava elaborada até o último detalhe. Escrevê-la foi apenas um trabalho físico."

Essa avaliação foi corroborada por Allan Lane, fundador da Penguin Books, que afirmou que, em 25 anos de estreita amizade, jamais havia "ouvido o clique de sua máquina de escrever, apesar da quantidade e da qualidade impressionante que ela produzia constantemente".

Ele acrescentou que, "enquanto Agatha Christie fazia várias coisas" — fosse organizar as tarefas diárias de um acampamento em uma expedição ao deserto da Mesopotâmia ou bordar à tarde —, "alguma nova peça ou romance estava sendo gestado em sua mente".

Embora Christie acreditasse que um livro pudesse ser concluído em três meses, dizia que as peças de teatro "eram melhor escritas rapidamente".

A obra mais longeva

Quando a BBC transmitiu a entrevista com Christie, em 1955, três de suas peças estavam em cartaz no West End londrino, principal circuito teatral da cidade.

A Ratoeira (The Mousetrap, em inglês) já quebrava recordes de bilheteria apenas três anos após a estreia. A peça teve origem em um radiodrama da BBC intitulado Três Ratinhos Cegos, exibido em 1947 como parte de uma noite de programação em homenagem ao 80º aniversário da rainha Maria, bisavó do rei Charles 3º.

Segundo Christie, escrever peças de teatro era "muito mais divertido do que escrever livros".

"Você não precisa se preocupar com longas descrições de lugares e pessoas, nem com a forma de distribuir o material. E é preciso escrever muito rápido para manter o tom e fazer com que o diálogo flua com naturalidade."

Em 1973, Christie compareceu à comemoração dos 21 anos de A Ratoeira no Hotel Savoy, em Londres.

Também esteve presente o protagonista original da peça, Richard Attenborough, que previu que o espetáculo "poderia permanecer em cartaz por mais 21 anos".

Acrescentou: "Não a compararia à Catedral de São Paulo (St. Paul's Cathedral), mas os americanos certamente acham que a melhor coisa a fazer, se vierem a Londres, é assistir a A Ratoeira".

A peça se tornou a mais longeva em cartaz no Reino Unido já em 1957, e só foi interrompida pela pandemia de covid-19, em 2020. Em março de 2025, alcançou a marca de 30 mil apresentações e segue em cartaz.

Attenborough também foi entrevistado no programa da BBC de 1955 e afirmou que Christie era "praticamente a última pessoa do mundo que alguém associaria ao crime, à violência ou a qualquer coisa assustadora ou dramática".

"Não conseguíamos conciliar o fato de que uma mulher tão tranquila, precisa e digna pudesse nos arrepiar e fascinar pessoas do mundo inteiro com seu domínio do suspense e seu talento para criar, no palco e na tela, uma atmosfera de terror tão intensa."

Embora a entrevista de Christie à BBC ofereça uma visão fascinante de seus métodos de escrita — a ausência de uma técnica rígida, a confiança na imaginação, o prazer em arquitetar tramas —, o enigma da mulher por trás da obra permanece vivo.

Millôr Fernandes: Uma fábula fabulosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/millor-fabulas-fabulosas.html

Sinal de quê?

Marcas que prefiro não ver 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Influencer morre de infarto fulminante e se percebe uma marca característica na orelha: o sinal de Frank. 

Agora, além deste outros sinais entram no noticiário como indicadores que a gente pode morrer a qualquer momento por diversas causas. 

Arre égua!, como dizem e cearenses. Eu é que não estou a fim de ler sobre o assunto por uma razão muito simples: pode ser que eu traga em meu corpo alguns desses sinais. 

Medo de morrer? Não. Apenas o incômodo de ter que me explicar porque não morri ainda, agora que estou na reta final da sétima década de vida. 

Porque hoje tudo funciona assim: informações científicas são vulgarizadas pela grande mídia ou mesmo pelos sites de consulta, feito o Google, e não apenas podemos afirmar que "todos somos médicos", como se torna comum o temor da morte pelo autodiagnostico precipitado.

Pois prefiro seguir vivendo sem temores e muita disposição para tudo, sobretudo a luta política militante. Sem procurar marcas mórbidas na própria pele.

Leia também: "Talvez um ano meio morno e cinza. Só isso" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_94.html

Humor de resistência

 

Aroeira

Empresas privadas lucram com repressão de Trump aos migrantes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-repressao-lucro.html

Luís Fernando Veríssimo vê o carnaval

Bandeira branca
Luis Fernando Verissimo     



Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um mantinha de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o mantinha, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
— Como é teu nome?
— Janice. E o teu? — Píndaro.
— O quê?!
— Píndaro.
— Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
— Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
— Me dá alguma coisa.
— O quê?
— Qualquer coisa.
— O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
***
No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
— Você vomitou a alma — disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
— Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
— E aquela bailarina espanhola?
— Nem me fala. E o toureiro?
— Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro.
Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem, no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara…
— O que você ia me dizer, no outro Carnaval? — perguntou ela. — Esqueci — mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil… E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu…

Palavra de poeta

Poema sobre a recusa
Maria Theresa Horta   

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

[Ilustração: Roberto Ploeg]

Leia também: "Porque hoje é sábado" "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html

14 fevereiro 2026

Minha opinião

O espetáculo e o fato 

Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65

Carnaval e eleição têm algo a ver? Tudo e ao mesmo tempo quase nada. 

É que em ano de eleição, pré-candidatos e pré-candidatas sentem-se no dever de compartilhar com o povo momentos marcantes do carnaval. 

No Recife, a abertura no Marco Zero e, mais ainda, o camarote oficial do Galo da Madrugada. 

Em Olinda, a concentração do Homem da Meia-Noite.

Importa aparecer diante das câmeras e, na medida do possível, ser identificado pelos eleitores. Mas: registros na mídia convencional e na digital. 

Quem está próximo de quem pode significar muito ou nada. 

Assim como a figuras de menor visibilidade importa fotos e vídeos para circulação nas redes sociais, desde que ao lado de lideranças de maior dimensão. 

Hoje, no camarote do Galo, pré-candidatos os mais diversos — a começar do prefeito João Campos cidade governadora Raquel Lyra — tudo fizeram não apenas para registros ao lado de Lula, como para sugerir alguma intimidade com o presidente.

A cobertura de imprensa, carente de notícias quentes, trata de aumentar as lentes sobre cada gesto — abraço, sorriso, aperto de mão. 

Posso assegurar, com a experiência de quem participou ativamente da luta na esfera institucional por mais de 40 anos, que há uma distância enorme entre as aparências e a realidade em muitos desses registros.

A partir da quarta-feira ingrata, os fatos pesarão muito mais do que a aparência.

Leia também: Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html 

Enio Lins opina

E chegou o Carnaval, em seu período oficial
Enio Lins      

ESTAMOS NO CARNAVAL oficialmente dito. Começam amanhã os quatro dias, formalmente três, mas na folhinha é tão-somente um. Feriado mesmo, de papel passado, só o assinalado na terça-feira. E ponto. Marca o derradeiro dia antes da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, pretendidos 40 dias de sacrifícios para os cristãos, tempo programado para reflexão, penitência e oração que deveria se estender até a Páscoa. O dia pascal exato varia anualmente, pois a referência eclesiástica ainda é baseada nos antigos sistemas pagãos de observações astronômicas, identificando o primeiro domingo depois da primeira lua cheia durante o equinócio de outono. Entendeu? Não importa. A cristandade, a rigor, não pratica nada dessas determinações ascéticas, e estica as delícias pecaminosas do que deveria ser um único dia de “despedida da carne”.

SÁBADO DE ZÉ PEREIRA é a porta de acesso ao desmantelo. Termo importado de Portugal. Registrado por aqui desde o século XIX. A versão adaptada aos trópicos alimenta o mito de que teria nascido da abnegação de um folião de origem portuguesa, chamado José Pereira, que saía pelas ruas do Rio de Janeiro, batendo um bumbo, para anunciar a hora de começar as imoderações do Entrudo. Zé Pereira fazia isso, reza a lenda, no sábado anterior ao início das restrições quaresmais, antecipando – e acrescentando – três dias ao que deveria ser um dia só. Pelo sim, pelo não, essa esbórnia é muito antiga, e vem do além-mar.

EM ALAGOAS, como sabemos, o bumbo toca desde o final de janeiro. São as prévias. Esfuziantes. No Carnaval oficial, a fuzarca arrefece nas ruas, parcialmente esvaziadas das tropas foliãs, que migram temporariamente para as mecas da devoção carnavalesca, ao Norte (Recife/Olinda) ou ao Sul (Salvador ou Rio). Mas, como se diz, resistir é necessário. E aqui vão algumas linhas em defesa de alguma programação mais consubstanciada para os dias carnavalescos. Fiquemos, por ora, no caso da capital alagoana.

ME PERGUNTO se a prefeitura de Maceió não poderia investir mais, em criatividade e recursos, entre o Sábado de Zé Pereira e a Terça-feira Gorda. Por exemplo, não seria o caso de uma restauração (e multiplicação) do antigo conceito da Praça Moleque Namorador? Foi algo único em seu tempo, no Brasil. Concebido na gestão Sandoval Caju (1961/1964), o logradouro se destinava a reunir quem, de fato, fazia o passo. O formato original era circular, para atender ao girar da massa. Como bem lembra o folião e pesquisador Cleonilson Alves, ali formavam-se círculos hierárquicos no frevar, girando: quanto mais perto do epicentro – a estátua do Moleque Namorador – mais “lóca” era o/a passista, e pernadas eram lei, às vezes sem brigas. “Lóca” (acentuo para aproximar mais do som do vocábulo) era/&eac ute; o diminutivo para maloqueiro e maloqueira, com o sentido de craque ou de bamba, mestre. No derradeiro círculo, destaca Cléo, imperavam os maiorais, chamados “do contra”, girando no sentido contrário a todos os demais. São raízes que podem, talvez, ser revividas, aflorarem, e se transformarem em polos culturais de grande valor.

VERA ROMARIZ, poetisa e carnavalesca, divulgou, em janeiro deste ano, um poema intitulado Devasso Carnaval. Repasso-o ao leitorado como brinde para a folia 2026: “Preciso tecer a memória travessa de um carnaval imaginado. Namorados e namoradas oficiais proibidas dores de amor interrompidas durante três intensos dias. Alianças jogadas no infinito sem bilhete de volta. Suspensas todas as normas que afrontem a seriedade cansativa dos dias comuns. Um carnaval sem pierrôs chorando e colombinas levemente bêbadas mergulhadas no prazer de terem provisoriamente asas e vozes alegremente desafinadas cantando o prazer de não serem de ninguém. Depois ao som do frevo Vassourinha a alegria menina da infração deliciosamente louca rouca com direito a uma escrachada revolução. Um carnaval sem santos na alegria doidinha de um frevo rasgado alagoano para sempre um moleque namorador”.

Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html

O carnaval segundo Clarice Lispector

Restos de carnaval
Clarice Lispector 

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu c obrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma e spécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça — eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável — e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no fi gurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga — talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja , ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel — resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usa ríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas — à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha — mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge — minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa — mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil — fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fa das que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim signifi cava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Leia: Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html 

Uma crônica de Urariano Mota

Astronauta Gagárin, o primeiro a pousar no carnaval do Recife
Yuri Gagárin fez história no espaço e no Recife, eternizado no frevo-canção “A Lua Disse”, que celebrou sua conquista e o trouxe simbolicamente ao Carnaval de 1962.
Urariano Mota/Vermelho     


Nesse 9 de março, o mundo comemora o nascimento de Yuri Gagárin, o primeiro homem a voar ao redor da Terra. E rende glórias permanentes a ele, o russo, o nosso primeiro astronauta – ou cosmonauta, como era chamado na União Soviética. Em 1961, ele assim contou a sua volta à Terra:

“Quando um fazendeiro e filha me viram no meu traje espacial e com o paraquedas ao lado enquanto eu andava, eles começaram a se afastar de medo. Eu disse a eles, ‘não tenham medo, sou um cidadão soviético como vocês, que desceu do espaço e precisa encontrar um telefone para ligar para Moscou!’ “

No entanto, o que nesse aniversário do primeiro homem em órbita está oculto é que o seu feito heroico foi um acontecimento de repercussão mundial. E popular até o ponto de se tornar sucesso do carnaval do Recife em 1962. No Dicionário Amoroso do Recife, que entra em órbita de nova edição, publiquei:

“Quando pesquisamos, em todos os lugares nos informam que Yuri Gagárin foi o primeiro homem a completar uma volta em torno da Terra, lá fora no espaço, em 12 de abril de 1961. Nesse dia de 61, Yuri Gagárin deu um grande salto para a humanidade. Um feito heroico, histórico, é o que lemos nas fontes mais universais. Dizem até que a pequena estatura de Gagárin contribuiu para o seu grande feito, uma vez que ele circulou em uma nave apertada. Mas a gente consulta, pesquisa nos mais diversos arquivos, e ninguém fala que o astronauta Yuri Gagárin passou uma vez no Recife.

Entendam. Não quero dizer que a nave soviética tenha passado acima do Brasil em 1961, e numa pontinha do litoral sobre o Recife, quem sabe lá em cima de Água Fria, do espaço Gagárin nos tenha enviado um oi em russo, algo como um “pri-vet”. Eu quero dizer é que o magnífico Yuri Gagárin, depois de 1961, mais precisamente no carnaval de 1962, passou em disco de vinil e terrestre em todas as rádios de Pernambuco. Em selo Mocambo, da fábrica de discos Rozenblit, o seu nome foi sucesso absoluto nas emissoras do Recife e na boca do povo já um mês antes do carnaval. E mais ainda, do sábado de zé-pereira em diante.

Para os muito jovens ou os mais velhos de fora do Recife, esclareço que Yuri Gagárin foi homenageado com um frevo-canção de se cantar até o enjoo, que não chegava nunca. Sabem aquela música que a gente repete, canta, cantarola até quando não se dá conta, feito anúncio de coca-cola? Assim foi com o frevo-canção “A lua disse”, de Gildo Branco. Como o livro em papel não tem a voz do frevo no rádio, copio a letra aqui: 

“Gagárin subiu, subiu, subiu
Foi até ao espaço sideral
Chegou perto da lua e sorriu
‘Vou embora pro Brasil
Que o negócio é carnaval’

A lua disse
‘Não vá, demore mais
Já ouvi que lá na Terra
Querem me passar pra trás’
Mas o Gagá nada ligou e deu no pé}
‘Vou mesmo pro Brasil
Eu quero é conhecer Pelé’”…

Vocês entendem agora como Gagárin passou pelo Recife. Eu deveria mesmo dizer que o astronauta não passou uma vez só no Recife. Continua a passar até hoje, enquanto carnaval houver na terra para escutar “Gagárin subiu, subiu, subiu, foi até ao espaço sideral”. Os jornais, os arquivos informam sempre que Gagárin, ao ver o mundo lá do alto, foi poético ao falar “a Terra é azul”. É verdade. Mas a ciência erra ao insinuar que a lua teria ficado muda e imóvel diante do astronauta. Segundo Gildo Branco, naquele momento máximo a lua disse: “Não vá, demore mais, já ouvi que lá na Terra querem me passar pra trás”. Ao que Gagárin respondeu: ‘Vou embora pro Brasil, que o negócio é carnaval’”.

Ninguém se lembra de falar que Gagárin pousou no carnaval do Recife, mas a Lua disse...

Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva 

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html 

É carnaval!

Carnaval, carnavais
Luciano Siqueira     

Antigamente o carnaval se iniciava aos sábados. Era o sábado de Zé Pereira. Hoje, em muitos lugares, como no Recife e em Olinda, desde o início de janeiro a folia ocupa as ruas e invade os salões, em prévias animadas e concorridas. De modo que hoje é quinta feira de carnaval — a primeira, porque a outra quinta, pós-quarta-feira de cinzas, também será de carnaval, já que, cá na província, a festança irá mesmo até o domingo subseqüente.

Não há, no Brasil, um carnaval único, homogêneo, uniforme. Há carnavais. Distintos na duração, na intensidade com que arrebata multidões, na variedade de ritmos e cores, no caráter mais ou menos democrático.

O carnaval de Pernambuco é ímpar. A começar pela tradição, palmilhada por uma história guerreira. Pois foi com muita luta que os pernambucanos, recifenses em particular, conquistaram o direito de ganhar as ruas e fazer a folia - conforme nos ensina, dentre outros, a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco Rita de Cássia Barbosa de Araújo, autora do belíssimo artigo “Carnaval do Recife: a alegria guerreira” (revista Estudos Avançados – USP, abril de 1997).

No final do século XIX e início do século XX, só às elites era reservado esse direito — que desfilava suas alegorias e clubes de máscaras, cabendo à ralé apenas o papel de expectadora. E foi enfrentando proibição legal e muita repressão policial que os trabalhadores, a gente pobre da cidade, literalmente abriram alas e puderam brincar. Daí a natural associação entre diversas agremiações carnavalescas e a categoria profissional dos seus integrantes, revelando traços de união entre a luta por direitos corporativos e a pugna pela liberdade de participar dos folguedos. Vassourinhas, Pás Douradas, Lavadeiras, Lenhadores e tantos outros surgiram dessa simbiose lúdico-combativa.

Provavelmente aí se encontram as raízes do caráter absolutamente democrático do carnaval que aqui se realiza. No Recife, em Olinda, nas demais cidades litorâneas e interioranas, o pernambucano cai no frevo ou se deixa envolver pelo batuque eletrizante do maracatu, livre e espontaneamente, nas praças e nas ruas. Não precisa pagar.

Aqui certamente não vingaria um carnaval argentário como o do Rio de Janeiro, realizado no Sambódromo, do qual o povo foi afastado (como se queixou certz vez Oscar Niemeyer em entrevista ao Jornal do Brasil) pela discriminação econômica. Nem se poderia imaginar o Elefante de Olinda ou Pitombeira dos Quatro Cantos protegidos por cordões de isolamento e impondo a compra daquela espécie de bata que se vê em Salvador. A massa "freveria" de novo e iria à guerra pelo sagrado direito de viver suas fantasias, dores, sonhos, amores, tristezas, esperanças e alegrias no ambiente de liberdade conquistado há um século.

[Ilustração: Chico Buarque desfilando na Mangueira. Rio de janeiro, 1989. Foto de Evandro Teixeira]

Uma crônica de fevereiro de 2010

Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html 

Palavra de poeta

Foi um momento
Fernando Pessoa     

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

[Ilustração: Pablo Picasso]          

Leia também: "Manhã", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_29.html    

Interferência abjeta

Lei do Streaming: Congresso cede à pressão dos EUA
Reportagem revela: Embaixada norte-americana interferiu diretamente em assunto do país, reunindo-se com parlamentares e cobrando posicionamento. Um dia depois, eles postergaram votação que tributaria big techs e financiaria setor audiovisual brasileiro
Natalia Viana, na Pública/Outras Palavras    

A regulação do streaming (PL 2331/2002) já estava envolta em uma série de confusões em dezembro do ano passado. Uma reclamação pública do ator Wagner Moura, seguido de uma carta aberta assinada por entidades do setor audiovisual reclamando da previsão de dedução da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) para produções brasileiras licenciadas direto pelas plataformas, e depois do vazamento de mensagens trocadas entre Paula Lavigne e o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, tumultuaram a negociação para votar o PL antes do fim do ano.

“Nós temos um Congresso desfavorável”, afirmou Randolfe na mensagem. “Desculpa a revolta, mas eu não sei que mundo o pessoal está. Tem lobbies aqui. A gente conseguiu o melhor possível do texto”. 

Mesmo assim, integrantes do governo Lula foram pegos de surpresa ao serem avisados, durante uma reunião no dia 16 de dezembro com o relator Eduardo Gomes (PL-TO), que Matthew Lowe, conselheiro para Assuntos Econômicos da embaixada dos Estados Unidos, estaria esperando do lado de fora para discutir o PL do streaming. O encontro fora arquitetado por Nelsinho Trad (PSD-MS), autor do PL e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado.

Ao saírem do gabinete, Lowe chegou a ter um diálogo bastante direto com um membro do Ministério da Fazenda, afirmando que o PL não deveria ser votado no fim do ano porque poderia contaminar a conversa entre os dois países. Era preciso “atenuar as tensões” e evitar “retrocessos” no relacionamento bilateral.

Lowe estava acompanhado da associada econômica Flora M. Lindsay e do assessor econômico sênior Francisco Sadeck, segundo a equipe do senador.

Esta é a primeira vez que o corpo diplomático dos EUA atua ativamente para interferir em um debate regulatório envolvendo as Big Techs. Desde que o projeto de Lei das Fake News foi proposto, em 2020, diversas legislações já foram debatidas – e aprovadas – no Congresso sem nenhuma participação da embaixada.

Agora a postura parece ter mudado.

A Pública apurou que a atuação da embaixada ocorreu depois de reuniões com lobistas das Big Techs naquela mesma semana, que pediram para que o governo norte-americano interviesse a seu favor.

A principal reclamação das tecnológicas era a equiparação entre serviços de rede social como Facebook, Instagram, Tiktok e YouTube, aos streamings, o que consideram injusto por serem modelos de negócio diferentes. Enquanto serviços de streaming como Netflix, Disney +, Globoplay e HBO, além de TVs por aplicativo, teriam que pagar 4% do faturamento do streaming para o Condecine, plataformas teriam que pagar 0,8% do faturamento total. 

Uma reportagem do portal Jota relatou que a reunião com Gomes, organizada a pedido de Nelsinho Trad, ocorreu num tom “diplomático”. Os membros da embaixada teriam dito ter preocupações sobre o momento da votação, afirmando que isso poderia afetar empresas americanas, em um momento em que as tensões por conta das tarifas impostas por Trump estavam em negociação e a relação entre os dois países estavam em um estágio positivo.

Procurada pela Pública, a assessoria do senador Eduardo Gomes afirmou apenas que a visita foi “protocolar”, feita para “para o fortalecimento das relações institucionais da embaixada dos EUA com o Senado da República”. Disse ainda que não houve novos contatos depois da reunião.

Um novo interlocutor “batendo na porta” de Nelsinho Trad

Segundo a assessora de Nelsinho Trad, Samyra Galvão, a entrada de Matthew Lowe na interlocução com o Senado foi uma novidade.

O senador tem mantido interlocução com a embaixada desde o início da crise com os EUA, e chegou a liderar uma visita de senadores e ministros aos EUA para reuniões com parlamentares americanos sobre as tarifas. “A embaixada sempre foi ouvida, sempre teve uma boa relação”.

A viagem ocorreu no final de julho de 2025 e o tema das Big Techs pouco apareceu naquela ocasião. Em 25 de setembro, quando uma comitiva de representantes da comissão de relações exteriores do Senado americano realizou uma visita ao Brasil, a tentativa de regular as plataformas foi questionada.

Já o tema da regulação de streaming apareceu na última semana de trabalho do Congresso, durante uma reunião naquele mesmo dia, 16 de dezembro, agendada para apresentar o relatório da Comissão Temporária Externa para Interlocução sobre as Relações Econômicas Bilaterais Brasil–EUA (CTEUA), também liderada por Nelsinho Trad.

A reunião foi pedida pela embaixada dos EUA, e Lowe estava acompanhado de John Jacobs, que é chefe de assuntos políticos, e da conselheira Daniela Motta, especialista em meio ambiente e saneamento, segundo a assessoria.

“Eles perguntaram a respeito da tramitação da regulamentação dos projetos dos streamings. Eles queriam saber se havia chance de votação, quando seria. Então eles externaram uma preocupação em relação a mais tarifas para empresas americanas. Falaram que não querem que as empresas americanas sejam tarifadas”.

Segundo ela, Nelsinho Trad explicou que ele estava ouvindo as empresas e nada estava sendo feito “a toque de caixa”. O gabinete fora procurado tanto pelas Big Techs quanto pelos serviços de streaming.

“Foi interpretado como preocupação que isso interferiria nas outras tratativas”, diz Samyra. Segundo ela, ainda há outros setores cujas tarifas estão em negociação, como o setor madeireiro, além de itens industrializados.

Outra grande preocupação de Nelsinho Trad é com o setor de agro, um dos mais fortes do Congresso.

Para Samyra Galvão, entretanto, não se trata de uma interferência indevida. Para ela, foi fundamental para a negociação das tarifas a comitiva brasileira ter ido “bater na porta” dos congressistas americanos. “Eles também têm a prerrogativa de vir e bater na porta. Você tem total direito de tentar influenciar”, diz.

A não votação do PL 2331 em dezembro do ano passado foi uma grande vitória para o lobby das Big Techs, uma vez que a estratégia dos lobistas é sempre postergar regulações que trazem custos mais altos às empresas, conforme detalhado no especial A Mão Invisível das Big Techs. Pessoas envolvidas nas negociações ouvidas pela coluna afirmam que será difícil realizar a votação este ano, uma vez que a pauta deve ser tomada pela crise do Banco Master, com uma possível CPI, além da CPMI do INSS. A Pública entrou em contato com a embaixada dos Estados Unidos, que respondeu que “por questão de privacidade, não comentamos conversas diplomáticas privadas”.

O poder oculto do orçamento secreto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estado-disfuncional.html