Como brisa de mar calmo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
No cais nada parecia se mover. Um ou outro ruído
distante acentuava o silêncio na tarde modorrenta. Quedou-se em reminiscências.
Olhos semicerrados, imagens se superpondo, ora embaralhadas, ora sequenciadas –
tempos alternados, tempo presente. Como se estivesse diante de um espelho,
redescobrindo-se, revisitando a própria vida. Como se reencontrasse e se
reconhecesse em cada traço do rosto, no olhar, no leve sorriso.
Lembrou que ela um dia chegou sem dizer que vinha.
Entrou sem bater à porta. Sentou-se. Sorriu um sorriso breve, tímido e
silencioso. Olhou em torno como que buscando situar-se no ambiente, identificar
sinais e motivos. Logo percorreu cada cômodo da casa, visitou o jardim, colheu
flores. Foi ao porão e ao sótão com surpreendente intimidade.
Ao primeiro diálogo, cumplicidade, inquietações,
perguntas, descobertas: a vida tem sentido quando vivida através dos tortuosos
caminhos da busca. Na dor e no prazer, no desengano e na esperança, no fracasso
e na conquista – a reinvenção cotidiana da existência.
Outros encontros: ideias e fazeres
compartilhados. A vida é complexa, sim, mas é possível compreende-la pela
linguagem do gesto, da palavra pronunciada, seca ou emocionada, certeira – uma
aprendizagem constante, solidária.
Bandeiras erguidas, convergentes. Que o
sentimento flua livre, a salvo de regras, preconceitos, tabus. Impossível
enquadrar o afeto, o desejo, a paixão. Que tudo aconteça tão natural quanto o
sol que se abre todos os dias anunciando a alvorada, e de modo tão sereno
quanto o arrebol. E que se traduza na rosa vermelha que todas as manhãs
desabrocha revelando o encanto da vida. Nas coisinhas bobas do cotidiano: a
melancia do café da manhã madura em demasia, o jornal que chegou amassado, o
telegrama tardio. E nos desafios de sempre: a necessidade de apressar aquela
decisão, de cumprir um compromisso assumido, de arrostar nova tarefa.
Que transite suave entre a saudade, a espera e o
reencontro. Como nos versos rascunhados pelo poeta anônimo em noite vazia:
“Porque hoje é sábado e o silêncio deve ser preservado/não te ofertarei rosas
nem procurarei o regaço dos teus seios./Mas, mirando as estrelas, te
encontrarei entre elas/- a mais fulgurante de todas -/a irradiar a luz que
ilumina o meu sonho.”
Veredas, escolhas: desencontros apenas
prenunciam a caminhada a passos mais largos, mais decididos. Pois que a
dimensão de todas as coisas se refaz, como a dimensão do tempo, avessa a
cronologias. O ontem e o agora se fundem: tudo se recria.
No cais nada parecia se mover. Um ou outro ruído
distante acentuava o silêncio na tarde modorrenta. Quedou-se em reminiscências.
Olhos semicerrados, imagens se superpondo, ora embaralhadas, ora sequenciadas –
tempos alternados, tempo presente. Como se estivesse diante de um espelho,
redescobrindo-se, revisitando a própria vida. Como se reencontrasse e se
reconhecesse em cada traço do rosto, no olhar, no leve sorriso.
Lembrou que ela um dia chegou sem dizer que vinha.
Entrou sem bater à porta. Sentou-se. Sorriu um sorriso breve, tímido e
silencioso. Olhou em torno como que buscando situar-se no ambiente, identificar
sinais e motivos. Logo percorreu cada cômodo da casa, visitou o jardim, colheu
flores. Foi ao porão e ao sótão com surpreendente intimidade.
Ao primeiro diálogo, cumplicidade, inquietações,
perguntas, descobertas: a vida tem sentido quando vivida através dos tortuosos
caminhos da busca. Na dor e no prazer, no desengano e na esperança, no fracasso
e na conquista – a reinvenção cotidiana da existência.
Outros encontros: ideias e fazeres
compartilhados. A vida é complexa, sim, mas é possível compreende-la pela
linguagem do gesto, da palavra pronunciada, seca ou emocionada, certeira – uma
aprendizagem constante, solidária.
Bandeiras erguidas, convergentes. Que o
sentimento flua livre, a salvo de regras, preconceitos, tabus. Impossível
enquadrar o afeto, o desejo, a paixão. Que tudo aconteça tão natural quanto o
sol que se abre todos os dias anunciando a alvorada, e de modo tão sereno
quanto o arrebol. E que se traduza na rosa vermelha que todas as manhãs
desabrocha revelando o encanto da vida. Nas coisinhas bobas do cotidiano: a
melancia do café da manhã madura em demasia, o jornal que chegou amassado, o
telegrama tardio. E nos desafios de sempre: a necessidade de apressar aquela
decisão, de cumprir um compromisso assumido, de arrostar nova tarefa.
Que transite suave entre a saudade, a espera e o
reencontro. Como nos versos rascunhados pelo poeta anônimo em noite vazia:
“Porque hoje é sábado e o silêncio deve ser preservado/não te ofertarei rosas
nem procurarei o regaço dos teus seios./Mas, mirando as estrelas, te
encontrarei entre elas/- a mais fulgurante de todas -/a irradiar a luz que
ilumina o meu sonho.”
Veredas, escolhas: desencontros apenas
prenunciam a caminhada a passos mais largos, mais decididos. Pois que a
dimensão de todas as coisas se refaz, como a dimensão do tempo, avessa a
cronologias. O ontem e o agora se fundem: tudo se recria.
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"Água na fervura de quem já passou dos cinquenta" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/etarismo-em-laboratorio.html

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