Latino América: ainda faz sentido?
Entre a ofensiva imperial dos EUA, o medo regional e a perda de princípios comuns, o texto questiona se ainda há espaço para uma integração latino-americana soberana e solidária.
Abraham B. Sicsu/Vermelho
Passou uma semana. Textos de boa qualidade foram produzidos. Leio com atenção. Os jornais e revistas especializadas ressaltam. Tema que domina grande parte da mídia especializada. Trump, Maduro e Venezuela quase esgotam o noticiário internacional e os artigos de opinião.
Vem uma pergunta. Pouco explorada ainda, no meu entender. Pergunta que faz parte de nossa história, de nosso processo de formação, de nossa luta por um mundo mais equânime. Faz sentido, diante da truculência e demonstração de força da grande potência, recuperar a visão de uma união Latino Americana coesa e com lutas comuns?
Início da década de setenta do século passado. Fazia graduação. Comprometido com os movimentos sociais e com a firme crença de que tínhamos um projeto de vida em que o continental fazia parte. América Latina tinha identidade, a exclusão no capitalismo nos unia, fazia sentido lutarmos por uma união que nos fortalecesse.
1971, um livro é lançado em castelhano. Não havia ainda a versão em português, mas todo ser que estivesse na luta tinha que lê-lo. Escrito no Uruguai, por um jornalista de esquerda. Eduardo Galeano. “Veias Abertas da América Latina”. Sinal de alinhamento com todos os desfavorecidos de nosso continente.
Reflexo do pensamento que nos unia, que simbolizava nossa luta. Na parte inicial encontra-se a seguinte afirmação:
“Aqueles que ganharam só puderam ganhar porque perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota sempre esteve implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus agentes nativos”.
América Latina definida como uma identidade com desejo de união, na busca de um desenvolvimento que respeitasse sua autonomia, que em sua diversidade cultural levasse a um modelo de integração que buscasse justiça social e pudesse se confrontar com os processos de modernização excludentes, com a expropriação, que, com dignidade, se pudesse diminuir nossa dependência.
Valorização da cultura local, menor tutelamento advindo da visão européia, no início de nossa história, depois, do poderio estadunidense, consolidação das democracias, valores que foram defendidos e davam sentido à busca de um fortalecimento conjunto.
Ideias que tem seus sustentáculos iniciais nas visões de pensadores como Simon Bolívar e José Martí, nos séculos XVIII, XIX e início do XX, que passam por Rodó e Dussel, e, mais recentemente tem em Marini e Teotônio dos Santos obras balizadoras, que se aprofundam em Darcy Ribeiro. Idéias que buscavam dar identidade e autonomia com justiça social para os oprimidos desta significativa parcela do continente americano que sempre estava subjugada.
Veias Abertas de América Latina, traduzido para mais de 20 idiomas, desmascarava a exploração que sofremos desde o século XV, com bases antropológicas, uma descrição com dados consolidados num levantar histórico, que permite entender nossas mazelas, que mostra claramente como nossas riquezas naturais foram sendo expropriadas, desde as minerais como o ouro e a prata, passando pelas agrícolas como o açúcar e o café, até os bens estratégicos dos dias atuais como o petróleo, por exemplo. Se escrevesse hoje falaria também, acredito, das terras raras.
Se tivermos como memória esse pano de fundo, assustados veremos que isso se perpetua. A invasão da Venezuela não teve nenhum fato moral ou geopolítico que a justificasse. Chegou-se a afirmar, claramente, que o objetivo maior eram as reservas petrolíferas e o satisfazer dos interesses empresariais de capitalistas norte americanos.
Problema maior começa a ter lugar a partir daí. As reações são tênues e interesses econômicos e geopolíticos, dos diferentes países da região, suplantam os princípios éticos que deveriam nortear uma possível contra-ofensiva. Indignação existe, mas com todo cuidado de não magoar o senhor do Norte.
Se isso era esperado dos países cujos atuais mandatários se atrelam à ideologia norte americana, é incompreensível para aqueles que sempre defenderam uma região de paz e desvinculada do poderio opressor dos Estados Unidos.
Críticas podem e devem ser feitas a atitudes antidemocráticas de ditadores regionais. Não nego. No entanto, isso permitir, unilateralmente, violar a autodeterminação dos povos, o direito de cada país definir seus caminhos, suas buscas, é inadmissível.
Jamais pode ser justificada qualquer invasão territorial por interesses escusos. As guerras podem se generalizar com tal atitude e as conseqüências são imprevisíveis. Os países se sentem oprimidos e totalmente indefesos com atitudes imperialistas. Acuados podemos dizer.
Em um vídeo antigo do próprio Galeano, ele morreu em 2015, que recebi recentemente, ele diz:
“Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar. As guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome da paz, em nome de Deus, da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia.”
Não foi o que ocorreu. A expropriação foi a justificativa. Em artigo da CNN Brasil, fica explícito. A fala do presidente americano é clara:
“O presidente Donald Trump afirmou nesta sexta-feira (9) que a Venezuela concordou que os Estados Unidos “começarão imediatamente a refinar e vender até 50 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano, o que continuará por tempo indeterminado”.
Parece uma confissão de roubo sem o menor pudor. Mais claro impossível.
O ideário de um bloco latino americano que defenda sua dignidade foi rompido. Substituído pelo MEDO individual dos países, medo de que atitudes como essa com a Venezuela possam ser repetidas a qualquer instante, que a força bruta, por qualquer atitude que desagrade os que detêm a força, possa ser usada contra qualquer país do continente.
Substituem-se os ideais de uma região que lutaria na busca de maior igualdade por uma visão que está baseada no lema:
CADA UM POR SI. NÃO DESAFIEMOS O SENHOR TRUMP E SEUS DESEJOS PARA NÃO SERMOS MASSACRADOS.
Há possibilidade de mudar o rumo? Começo a ter dúvidas.
Foto: Paulisson Miura

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