Quando não confiamos mais em nossos olhos
Guerra no Irã abre onda sem
precedentes de desinformação e IA vira arma
Jamil
Chade/Liberta
No auge da Segunda Guerra Mundial, o regime nazista passou a usar um termo para acusar a imprensa de trazer informações mentirosas sobre eventuais derrotas dos alemães no front. Berlim qualificou os jornais de “Lugenpresse”, sempre que a notícia não era conveniente. Ou, em português, “imprensa que mente”.
Oito
décadas depois, coube ao presidente americano Donald Trump traduzir a frase,
sem jamais dizer de onde ela vinha. O republicano acusou a imprensa que
divulgava notícias que ele não gostava de “fake news”.
O
que tanto o regime nazista como Trump fizeram, porém, foi inundar a imprensa e
a sociedade de propaganda e mentiras em relação ao que, de fato, estava
ocorrendo. A desinformação, nos anos 1940 ou no século 21, foi e continua sendo
um instrumento de poder e conflitos armados sempre tiveram nelas algumas de
suas armas mais importantes.
Imagens
falsas dão lucro
Em
2026, a desinformação e a manipulação atingiram um novo patamar com a
Inteligência Artificial. Apenas nos primeiros dias da guerra no Irã, centenas
de vídeos circularam, revelando Tel Aviv em chamas, aeroportos destruídos e
cidades tomadas por mísseis. Num dos vídeos mais populares nos últimos dias e
visto por milhões de pessoas, o icônico Burj Khalifa, em Dubai, aparecia sendo
atacado.
Graças
à velocidade das redes sociais, muitas dessas imagens chegam a milhões de
pessoas e formam opiniões e medos antes que qualquer analista possa
desmenti-las ou até mesmo questionar a informação.
Centenas
delas eram simplesmente falsas. Mas podem ter mudado para sempre a forma pela
qual vemos e vivemos conflitos armados.
Parte
da explicação para a proliferação sem precedentes da desinformação num conflito
armado é financeira. Criadores de vídeos se deram conta de que a guerra traz
lucros, principalmente, com sistemas nas redes sociais que recompensam
visualizações, engajamento e compartilhamento.
Com
a explosão dos vídeos falsos, até mesmo a plataforma X de Elon Musk foi
obrigada a anunciar que suspenderá temporariamente de seu programa de
monetização os criadores que publicarem vídeos de conflitos armados gerados por
Inteligência Artificial sem a devida identificação.
Contudo,
o problema ganha uma dimensão ainda mais dramática diante da constatação de que
parte da propaganda criada por IA vem da própria Casa Branca. Para analistas, o
ataque de Israel e dos EUA contra o Irã em junho de 2025 foi o campo de testes
para a desinformação produzida a partir de Inteligência Artificial. Naqueles
dias, vídeos falsos chegaram a milhões de pessoas.
Agora,
incapaz de derrubar o regime iraniano como esperava, o governo dos EUA passou a
incrementar sua ofensiva midiática.
Em
termos de estratégia militar, existem pelo menos dois objetivos. O primeiro
deles é o de criar a sensação de que a força militar americana é absoluta e
que, portanto, a população iraniana poderia sair às ruas para derrubar o
governo.
A
segunda é doméstica. Com a desinformação, a ideia é a de tornar a guerra mais
“leve” e sinalizar para uma base profundamente desconfiada das intenções de
Trump de que a vitória será fácil.
Cenas
de Hollywood
Um
marco desse processo foi registrado em no dia 5 de março, quando a Casa Branca
divulgou um vídeo misturando trechos de filmes e séries de TV como Superman, Coração
Valente, Breaking Bad, Homem
de Ferro e Gladiador com cenas
dos ataques ao Irã.
As
cenas de heroísmo de Hollywood são intercaladas com imagens divulgadas pelas
Forças Armadas dos EUA mostrando ataques reais a diversos alvos.
O
vídeo gerou uma onda de protestos. O ator e cineasta Ben Stiller pediu à Casa
Branca que removesse um trecho do vídeo de Tropic Thunder (Trovão
Tropical, no Brasil), um filme de 2008 que ele dirigiu. “Nunca
demos permissão a vocês e não temos interesse em fazer parte da sua máquina de
propaganda. Guerra não é filme”, escreveu Stiller no X.
Numa
segunda publicação nas redes sociais, a Casa Branca intercalou imagens reais de
guerra com uma cena de um videogame na qual o personagem do jogador é ouvido,
repetidamente, dizendo “Ah, droga, lá vamos nós de novo”, antes de imagens de
ataques a alvos iranianos.
Antes
da verdade desaparecer, ela fica mais leve. Naquelas imagens de
videogames, não existem seres humanos e muito menos seus sonhos, seus amores.
Quando
questionada pelo New York Times, no ano passado, sobre o estilo de comunicação
nas redes sociais, a porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, disse: “Por meio
de posts envolventes e memes incríveis, estamos comunicando com sucesso a
agenda extremamente popular do presidente”.
Da
mesma forma, membros da equipe de comunicação da Casa Branca elogiaram o
recente vídeo de montagem sobre o ataque ao Irã, usando gírias da Geração Z. “A
vitória está no chat, pessoal!”, escreveu Steven Cheung, diretor de comunicação
da Casa Branca.
No
Irã e no Golfo, a realidade é que a desinformação se transformou num ator da
geopolítica. Ela jamais foi apenas a divulgação de notícias falsas. Trata-se de
uma operação para confundir ou minar resistência. Com as novas tecnologias, ela
molda agora poder, política e a própria resistência.
Não
confiar mais em teus olhos é um golpe profundo nas certezas. Uma arma mortal
numa guerra.
A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

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