15 março 2026

Deformação midiática

Quando não confiamos mais em nossos olhos
Guerra no Irã abre onda sem precedentes de desinformação e IA vira arma
Jamil Chade/Liberta        

No auge da Segunda Guerra Mundial, o regime nazista passou a usar um termo para acusar a imprensa de trazer informações mentirosas sobre eventuais derrotas dos alemães no front. Berlim qualificou os jornais de “Lugenpresse”, sempre que a notícia não era conveniente. Ou, em português, “imprensa que mente”.

Oito décadas depois, coube ao presidente americano Donald Trump traduzir a frase, sem jamais dizer de onde ela vinha. O republicano acusou a imprensa que divulgava notícias que ele não gostava de “fake news”.

O que tanto o regime nazista como Trump fizeram, porém, foi inundar a imprensa e a sociedade de propaganda e mentiras em relação ao que, de fato, estava ocorrendo. A desinformação, nos anos 1940 ou no século 21, foi e continua sendo um instrumento de poder e conflitos armados sempre tiveram nelas algumas de suas armas mais importantes.

Imagens falsas dão lucro

Em 2026, a desinformação e a manipulação atingiram um novo patamar com a Inteligência Artificial. Apenas nos primeiros dias da guerra no Irã, centenas de vídeos circularam, revelando Tel Aviv em chamas, aeroportos destruídos e cidades tomadas por mísseis. Num dos vídeos mais populares nos últimos dias e visto por milhões de pessoas, o icônico Burj Khalifa, em Dubai, aparecia sendo atacado.

Graças à velocidade das redes sociais, muitas dessas imagens chegam a milhões de pessoas e formam opiniões e medos antes que qualquer analista possa desmenti-las ou até mesmo questionar a informação.

Centenas delas eram simplesmente falsas. Mas podem ter mudado para sempre a forma pela qual vemos e vivemos conflitos armados.

Parte da explicação para a proliferação sem precedentes da desinformação num conflito armado é financeira. Criadores de vídeos se deram conta de que a guerra traz lucros, principalmente, com sistemas nas redes sociais que recompensam visualizações, engajamento e compartilhamento.

Com a explosão dos vídeos falsos, até mesmo a plataforma X de Elon Musk foi obrigada a anunciar que suspenderá temporariamente de seu programa de monetização os criadores que publicarem vídeos de conflitos armados gerados por Inteligência Artificial sem a devida identificação.

Contudo, o problema ganha uma dimensão ainda mais dramática diante da constatação de que parte da propaganda criada por IA vem da própria Casa Branca. Para analistas, o ataque de Israel e dos EUA contra o Irã em junho de 2025 foi o campo de testes para a desinformação produzida a partir de Inteligência Artificial. Naqueles dias, vídeos falsos chegaram a milhões de pessoas.

Agora, incapaz de derrubar o regime iraniano como esperava, o governo dos EUA passou a incrementar sua ofensiva midiática.

Em termos de estratégia militar, existem pelo menos dois objetivos. O primeiro deles é o de criar a sensação de que a força militar americana é absoluta e que, portanto, a população iraniana poderia sair às ruas para derrubar o governo.

A segunda é doméstica. Com a desinformação, a ideia é a de tornar a guerra mais “leve” e sinalizar para uma base profundamente desconfiada das intenções de Trump de que a vitória será fácil.

Cenas de Hollywood

Um marco desse processo foi registrado em no dia 5 de março, quando a Casa Branca divulgou um vídeo misturando trechos de filmes e séries de TV como SupermanCoração ValenteBreaking BadHomem de Ferro e Gladiador com cenas dos ataques ao Irã.

As cenas de heroísmo de Hollywood são intercaladas com imagens divulgadas pelas Forças Armadas dos EUA mostrando ataques reais a diversos alvos.

O vídeo gerou uma onda de protestos. O ator e cineasta Ben Stiller pediu à Casa Branca que removesse um trecho do vídeo de Tropic Thunder (Trovão Tropical, no Brasil), um filme de 2008 que ele dirigiu. “Nunca demos permissão a vocês e não temos interesse em fazer parte da sua máquina de propaganda. Guerra não é filme”, ​​escreveu Stiller no X.

Numa segunda publicação nas redes sociais, a Casa Branca intercalou imagens reais de guerra com uma cena de um videogame na qual o personagem do jogador é ouvido, repetidamente, dizendo “Ah, droga, lá vamos nós de novo”, antes de imagens de ataques a alvos iranianos.

Antes da verdade desaparecer, ela fica mais leve. Naquelas imagens de videogames, não existem seres humanos e muito menos seus sonhos, seus amores.

Quando questionada pelo New York Times, no ano passado, sobre o estilo de comunicação nas redes sociais, a porta-voz da Casa Branca, Abigail Jackson, disse: “Por meio de posts envolventes e memes incríveis, estamos comunicando com sucesso a agenda extremamente popular do presidente”.

Da mesma forma, membros da equipe de comunicação da Casa Branca elogiaram o recente vídeo de montagem sobre o ataque ao Irã, usando gírias da Geração Z. “A vitória está no chat, pessoal!”, escreveu Steven Cheung, diretor de comunicação da Casa Branca.

No Irã e no Golfo, a realidade é que a desinformação se transformou num ator da geopolítica. Ela jamais foi apenas a divulgação de notícias falsas. Trata-se de uma operação para confundir ou minar resistência. Com as novas tecnologias, ela molda agora poder, política e a própria resistência.

Não confiar mais em teus olhos é um golpe profundo nas certezas. Uma arma mortal numa guerra.

A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

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