O incrível
poder das facções do crime organizado no Brasil
Enio Lins
UMA DAS MAIORES PROVOCAÇÕES políticas na história recente do Brasil foi o relatório final proposto pelo relator (cujo nome não merece citação) da CPI que deveria investigar o crime organizado. Numa impressionante pirueta, um obscuro senador tentou – com sucesso parcial – projetar seu nome aos píncaros do tragicômico folclore político brasileiro. Ganhou seus dez ou 15 minutos de fama, e esborrachou-se no centro do picadeiro.
CONSEGUIU, O VIL
SENADOR, transformar a CPI do Crime Organizado numa CPI a
Favor do Crime Organizado, pelo menos no relatório final. Pegando carona no
escândalo do Banco Master, a criatura varreu para baixo do seu tapete todas as
autoridades corresponsáveis pelo golpe dado pela banca do Vorcaro. Foram
anistiados preventivamente o então presidente do Banco Central, Campos Neto, e
todos os envolvidos de importância, como o governador do DF, Ibaneis Rocha, o
ex-governador do Rio, Cláudio Castro, demais políticos do PL, e diretores do
BC. O alvo do relator foi quem possa incomodar o sono do ex-capitão, o hoje
presidiário Jair Messias.
TENTOU INDICIAR, O
TAL RELATÓRIO, os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias
Toffoli e Gilmar Mendes, e o Procurador Geral da República, Paulo Gonet.
Exatamente nomes que provocam soluços ao ex-capitão e em sua linha de comando.
Algumas dessas autoridades poderiam ser recomendadas, pelo relator, para o
aprofundamento de futuras investigações sobre o caso Master. Seria um exagero,
mas – vá lá. Poerém, pedir o indiciamento dessas pessoas enquanto oculta os
personagens notoriamente responsáveis pela falcatrua Master, é um gesto de
cinismo e descaramento como poucos cometidos dantes na história deste país. Um
crime. Organizado.
REJEITADO PELA pela própria CPI, a provocativa proposta de relatório foi
remetida aos arquivos numa operação de resgate ético do Senado, que mais
uma vez, envolveu contrapressões e articulações extras que seriam
desnecessárias num parlamento que se desse ao respeito. “O relatório
apresentado revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave
problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra
o Supremo Tribunal Federal, na expectativa de produzir dividendos eleitorais
para certos atores políticos”, declarou com muita acuidade o ministro Gilmar
Mendes sobre o incidente. Mas é pior ainda a realidade. O relator não só buscou
os holofotes midiáticos, mas – antes de tudo – procurou jogar a penumbra mais
espessa sobre o tema real da CPI, protegendo as facções criminosas de forma
ampla, geral e irrestrita. Esse foi o maior crime organizado pelo relator.
LEMBRAM-SE DA
MOTIVAÇÃO da CPI do Crime Organizado? Ela foi criada em
decorrência da crise de segurança pública no Rio de Janeiro, depois da
megaoperação praticada pelo governo carioca, que assassinou 122 pessoas nos
complexos do Alemão e da Penha. A CPI foi proposta para investigar as
responsabilidades da polícia carioca na ultraviolência, seus elos com as
facções, e sugerir saídas para essa tragédia nacional. Quando surgiu o
escândalo Master, o bolsonarismo, através do dócil relator, redirecionou as
investigações para longe de sua área de vulnerabilidade (a vinculação de parte
das polícias com as milícias e demais facções do crime organizado em todo país)
e lançou mão do esquema de Vorcaro (e Campos Neto?) como um compacto biombo de
ocultação.
COMO RESULTADO, as coisas ficaram totalmente bagunçadas, num tremendo
prejuízo para a cidadania, a lei e a ordem. Foi desperdiçada uma grande
oportunidade de se avançar no combate às facções. O relator obteve uma vitória
pessoal parcial, ganhou precioso espaço midiático, apesar da derrota do
relatado. O crime organizado, real, poderoso, obteve vitória total e absoluta:
sumiu do relatório da CPI criada para o investigar.
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