31 janeiro 2026

Palavra de poeta

A flauta vertebrada
Vladimir Maiakovski  

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria,
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

[Ilustração: Andrey Remnev]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

Postei nas redes

Depois de muita vacilação, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fugiu da raia: não enfrentará Lula, tentará a reeleição. Agora a direita procura uma alternativa menos ruim do que o senador Flávio Bolsonaro. 

À direita, todos brigam e ninguém tem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_22.html


Arte é vida

 

Vasiliy Ryabchenco

Aconteceu e eu nem percebi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_14.html 

Mercosul+União Europeia: possibilidades

Acordo União Europeia–Mercosul: impactos produtivos e política de desenvolvimento
Panorama dos principais pontos do tratado, seus impactos econômicos, as controvérsias em disputa e o processo de ratificação
Flávio Tonelli Vaz/Portal Grabois https://grabois.org.br/    

Acordo UNIÃO EUROPEIA – MERCOSUL, seus principais aspectos e o estado atual

Apresentação

O acordo comercial entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Européia (UE) é fruto do esforço de mais de duas décadas de negociações. É mais um resultado dos esforços de expansão da rede de acordos comerciais do Brasil e do bloco sul-americano, com acesso aos mercados, atração de investimentos e um ciclo virtuoso de inserção internacional do Mercosul e UE. 

Esse acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, que juntos reúnem cerca de 718  milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22,4 trilhões. Por esses  critérios, é um dos maiores acordos bilaterais de livre comércio do mundo. Em um contexto internacional  de crescente protecionismo e unilateralismo comercial, o Acordo reconhece e favorece o ambiente multipolar e sinaliza em favor do comércio internacional como fator para o crescimento econômico. 

Para o Brasil, o Acordo é estratégico. A UE é o segundo parceiro comercial do país, com corrente de  comércio de bens, em 2025, de aproximadamente US$ 100 bilhões. Além disso, deverá reforçar a diversificação de parcerias comerciais e fomentar a modernização do parque industrial brasileiro com a integração às cadeias produtivas do bloco europeu. Espera-se, da mesma forma, que o Acordo dinamize os fluxos de investimentos, reforce a atual posição da UE como detentora de quase metade do estoque de investimento estrangeiro direto no Brasil. 

“O Acordo incorpora compromissos inovadores, equilibrados e coerentes com os desafios do contexto  econômico internacional. Em um quadro internacional onde ganha centralidade o papel do Estado como  indutor do crescimento e promotor da resiliência das economias nacionais, os dois blocos abrem  importantes oportunidades para o aumento do comércio e investimentos bilaterais sem deixar de preservar  o espaço para a implementação de políticas públicas em áreas como saúde, empregos, meio ambiente,  inovação e agricultura familiar” (Nota conjunta MRE, MDIC, MAPA). 

O Mercosul e a UE reconhecem os desafios do desenvolvimento sustentável, enfrentados por todos,  com responsabilidades comuns, porém diferenciadas dos países. O Acordo contempla, de forma colaborativa e equilibrada, diferentes compromissos que conciliam o comércio com o desenvolvimento sustentável de maneira efetiva. A UE também se compromete a oferecer um pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação do Acordo. 

A fim de preservar os ganhos de acesso ao mercado europeu pelo Mercosul, o Acordo inova ao  estabelecer mecanismo de reequilíbrio de concessões. Com isso, oferece proteção a nossos exportadores, caso medidas internas da UE comprometam o uso efetivo de vantagens obtidas no Acordo. 

“O Acordo representa a associação entre duas regiões que compartilham valores e interesses comuns,  como a defesa da democracia e do multilateralismo e a promoção dos direitos humanos. O Acordo  estabelece diversos mecanismos de cooperação política entre o MERCOSUL e a União Europeia, espaços  de diálogo que reforçarão a colaboração em debates globais que contribuem para uma ordem  internacional mais justa e pacífica” (Nota conjunta MRE, MDIC, MAPA).

Entre 2023 e 2024, houve renegociação de pontos específicos do texto acordado em 2019, o que resultou,  após sete rodadas negociadoras, no “Pacote de Brasília”. Esses ajustes trazem maior equilíbrio para os  compromissos em sustentabilidade, contribuirão para assegurar que o Brasil possa alavancar políticas de  interesse público e fortalecer a indústria nacional — ao mesmo tempo em que proporcionam oportunidades econômicas para todo o espectro da sociedade.

Situação atual do Acordo (janeiro 2026)

O acordo foi assinado em 17 de janeiro de 2026, no Paraguai, após mais de 26 anos de negociações, e aguarda ratificação pelos países abrangidos.

Em 21 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou, por 334 votos a 324, o envio do acordo ao Tribunal de Justiça da UE para análise jurídica. Essa decisão paralisa temporariamente a ratificação pelos países da UE e pode atrasar esse processo.

No Brasil, acordo precisa ser ratificado pelo Congresso Nacional, em uma tramitação que não admite grandes transformações no texto. É permitido identificar ressalvas, interpretações conformes de dispositivos ou impor condicionantes ao Executivo sobre a aplicação de partes do tratado. O Congresso não pode alterar o texto do tratado internacional em si – a negociação é exclusiva do Executivo –, mas pode condicionar sua aprovação a ressalvas específicas por meio de decreto legislativo.

Visão geral e posicionamento governamental

Segundo a Nota Conjunta dos ministérios das Relações Exteriores, MRE, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Agricultura e Pecuária, o acordo é classificado como “equilibrado e moderno”, superando o texto de 2019.

O governo destaca três pilares de vitória diplomática na revisão final:

1 – Reversão de sanções ambientais: o “Instrumento Adicional” clarificou que compromissos ambientais (Acordo de Paris) não resultarão em sanções comerciais automáticas, preservando a segurança jurídica do exportador.

2 – Mecanismo de reequilíbrio: é possível suspender concessões comerciais caso a UE adote medidas unilaterais que anulem ou ameacem os benefícios do acordo.

3 – Preservação do SUS e das compras públicas: a nota enfatiza a manutenção de margens de manobra para políticas de saúde pública e compras de alimentos da agricultura familiar (PNAE/PAA), que ficaram excluídas dos compromissos de liberalização.

Principais discussões e controvérsias

Questões Ambientais: Questões vinculadas a desmatamento na Amazônia, acordo de Paris e  procedimentos de monitoramento independente sempre foram entraves do lado europeu para esse  acordo e serviram para a constituição de barreiras não tarifárias para entrada dos nossos  produtos. Esses pontos foram equacionados ao longo dos últimos ajustes do acordo.

Protecionismo Agrícola Europeu: Há pressão de agricultores europeus, inclusive com a  realização de protestos ao longo de 2025 e 2026. Os últimos ajustes criaram salvaguardas, com  mecanismos de proteção para produtos sensíveis e regime de cotas para vários produtos como carne bovina, etanol e açúcar.

Aspectos Jurídicos: Os termos permitem a análise de compatibilidade com o direito europeu; incluem mecanismo de reequilíbrio, uma inovação para proteger exportadores do Mercosul, e um regime de solução de controvérsias, em um sistema híbrido de arbitragem.

Impactos Econômicos: Haverá redução tarifária, com eliminação de 91% delas em até 15 anos. Setores beneficiados: automotivo, agrícola, serviços e tecnologia.

Impactos para o Brasil

  • Acesso a mercado: Eliminação de tarifas para 91% das exportações brasileiras.
  • Produtos mais beneficiados: Sucos, frutas, café, calçados, autopeças.
  • Indicações geográficas: Mecanismo de proteção para 220 produtos europeus, 30 brasileiros.
  • Compras públicas: Acesso a licitações europeias estimadas em € 2 trilhões/ano.
  • Investimentos: Facilitação para empresas brasileiras na UE.
  • Setor agrícola: A exceção à ampla redução tarifária está em um sistema de cotas tarifárias, que inclui, imediatamente, a redução a zero das taxas hoje existentes para os principais produtos exportados. Os limites dessas cotas são ampliados anualmente, de forma linear, em cinco anos. Veja a relação do sistema de cotas para produtos do agronegócio:
  • Para a indústria: A UE vai zerar as tarifas de 100% dos produtos industriais brasileiros assim que o acordo entrar em vigor. Para a produção industrial da UE, a abertura comercial não é imediata, seguindo uma lógica de assimetria de prazos para permitir a adaptação dos parques. Há um cronograma para a redução gradual das tarifas (imediata, 4, 7, 10 e 15 anos).
  • Para a indústria instalada: O acordo enterra a lógica de substituição de importações. A sobrevivência dependerá de modernização tecnológica e da integração nas cadeias globais de valor, importando insumos europeus de alta tecnologia para exportar produtos acabados mais competitivos para a América Latina ou para a própria UE.
  • Valor de Conteúdo Regional: Para muitos bens industriais, o acordo exige um percentual menor (como 50% ou 55%) ou permite mudança de posição tarifária.
  • Efeito na Cadeia: Incentiva a integração vertical com fornecedores europeus, potencialmente desestimulando o adensamento da cadeia nacional de fornecedores e aumentando a eficiência do produto final.
  • O acordo coíbe barreiras técnicas e adota convergência regulatória: Prevê a adoção de normas internacionais (ISO, IEC, ITU) como base para regulamentos técnicos e autocertificação. Para os setores de baixo risco, o fabricante poderá declarar conformidade sem necessidade de retestagem na Europa.
  • Anexo Automotivo: Brasil aceitará certificações da norma UN-ECE (padrão europeu/ONU) como equivalentes às normas do CONTRAN/INMETRO, reduzindo drasticamente o custo Brasil de homologação de veículos.

Compras governamentais: a mudança de paradigma

O capítulo de Compras Governamentais é possivelmente o que mais restringe a política industrial tradicional de compras governamentais. Ele segue a lógica do GPA (Government Procurement Agreement) da OMC, do qual o Brasil é observador, mas não signatário pleno.

O Poder de Compra do Estado é uma das principais ferramentas de política industrial ativa (vide Inflation Reduction Act, nos EUA, ou Made in China 2025). Sem as margens de preferência e demais exigências (conteúdo nacional), o Brasil mitiga a capacidade de usar compras de grande vulto, salvo as exceções, para alavancar tecnologia nacional.

Pontos mais relevantes sobre o tema:

  • Há exceções, mas, no fundamental, há livre acesso e limites de valor para participação em licitações europeias. Os compromissos específicos do Brasil levam em conta o interesse em preservar espaço para política pública nas áreas de desenvolvimento industrial; saúde pública, com exclusão completa das compras realizadas pelo Sistema Único de Saúde; tecnologia e inovação; pequenas e médias empresas e pequenos produtores rurais; Defesa e Segurança.
  • O capítulo de Empresas Estatais busca equilíbrio entre critérios comerciais e objetivos públicos, garantindo que empresas estatais possam operar com flexibilidade para cumprir funções de interesse nacional.
  • Abrange entidades federais: ministérios e agências diretas, e a ratificação pode exigir alterações legislativas no ordenamento nacional. As Entidades Subfederais (exceto nos pontos legislados nacionalmente), como estados e municípios, e suas entidades, não são automaticamente vinculadas, a menos que haja adesão específica (lista negativa/positiva varia conforme a negociação final). As empresas estatais, como Petrobras, entidades financeiras e outras do setor produtivo, historicamente têm tratamentos diferenciados ou exclusões parciais; em sua maioria, podem estar incluídas.
  • Há impactos sobre regras de conteúdo nacional (regras de origem). Produtos e serviços (suprimentos) dos países envolvidos não poderão ser diferenciados em termos de nacionalidade. Insumos de países abrangidos incorporados a um produto final são considerados “originários” do país exportador (para as relações abrangidas pelo acordo). Não poderá haver discriminação de nacionalidade de fornecedores em licitações das entidades cobertas.
  • Fim da Margem de Preferência: A Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações) prevê margens de preferência para produtos manufaturados nacionais (até 25%). Para as licitações cobertas pelo acordo, essa margem não poderá ser aplicada contra empresas da UE.
  • Limitação de exigências: O acordo proíbe a exigência de adicionais em qualquer etapa da licitação, como, por exemplo, transferência de tecnologia, investimento local ou conteúdo local obrigatório.
  • A concorrência poderá aumentar a transparência e reduzir o custo das obras e aquisições públicas. Em teoria, empresas brasileiras (construtoras, TI, serviços de engenharia) poderão disputar licitações na UE.
  • Barreira de Entrada Real: Embora a barreira legal desapareça, persistem as barreiras de fato (qualificações técnicas, exigências de sustentabilidade, língua e certificações locais). O acordo exigirá ação estatal para que as empresas nacionais possam vencer essas barreiras e sair vitoriosas em uma licitação na Alemanha ou na França, exceto no caso de grandes players globalizados.

Resumo dos pontos críticos

O acordo troca a proteção tarifária e o uso estratégico das compras públicas por eficiência alocativa e acesso a bens de capital mais baratos. Para a indústria 4.0, pode ser um acelerador se conseguirmos, por meio de políticas internas, reduzir outras disparidades que vão da taxa de juros à infraestrutura e a outros custos assimétricos que determinam menor produtividade. O acordo garante uma janela de entre 5 e 15 anos para implementar e assegurar o resultado dessas políticas.

Para setores tradicionais dependentes de proteção (ex.: bens de capital sob encomenda, química fina), é uma ameaça existencial, se não houver um ganho rápido de produtividade ao longo dos 10 a 15 anos de transição.

Esses problemas envolvem também aquisições de serviços, como, por exemplo, TI, seguros e serviços bancários, porque os bancos públicos são grandes compradores de tecnologia bancária (software, data centers, caixas eletrônicos e segurança). Empresas europeias de tecnologia (como SAP, Atos e Thales) ganham acesso direto a essas licitações sem a necessidade de parcerias forçadas com integradores locais ou exigências de desenvolvimento local de software.

Será necessário aperfeiçoar a qualidade das políticas que asseguram o apoio institucional. Inclusive, notas da CNI, FIESP e de outras entidades de setores sensíveis enxergam o acordo como uma ferramenta de pressão para reformas internas (redução do Custo Brasil) e acesso à tecnologia.

Para entidades como Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e Associação das Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), as críticas mais duras estão focadas especificamente na perda de proteção tarifária e no fim das margens de preferência em licitações.

Em relação aos itens relacionados a Compras Governamentais, Abimaq, Abinee e outras entidades industriais avaliam que os limites às políticas de compras governamentais não afetam somente a perda desse mercado, mas podem significar também perder seu principal laboratório de inovação e âncora de demanda.

Em contrapartida, setores consumidores de máquinas (agroindústria e construção civil) e a própria CNI tendem a ver a abertura das compras e a queda de tarifas de BK como uma redução bem-vinda de custos operacionais.

Naturalmente, além dos segmentos já excluídos dessas restrições, é preciso observar como o país vai exercer a liberalidade para atuar em defesa de espaços para política pública nas áreas de desenvolvimento industrial e outros interesses do projeto nacional de desenvolvimento.

Para a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, o acordo retira o “poder de caneta” das estatais. O governo perde a capacidade de usar o orçamento de investimento da Petrobras ou da Eletrobras para criar indústrias no Brasil por meio de demanda garantida. A sobrevivência dos fornecedores atuais dependerá puramente de competitividade preço/qualidade, sem o “colchão” da exigência de conteúdo local.

A ratificação desse acordo é muito importante para o governo e para a economia nacional. Trata-se de um importante contraponto às atuais investidas dos EUA e de mais um instrumento que reforça o multilateralismo, fundamental para que o Brasil e os países do Mercosul enfrentem os avanços colonialistas norte-americanos que se expressam na nova versão da Doutrina Monroe e na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.

guerra tarifária aberta em 2026 contra nações dos cinco continentes demonstrou como aquele país pretende impor condições de vassalagem e tornar nações soberanas reféns de seus interesses. O desrespeito aos organismos internacionais e os patrocínios de diversas guerras que vêm sendo praticados exigem um posicionamento firme na construção de novos espaços que aumentem os graus de liberdade para o exercício da soberania.

Essa ratificação precisa estar acompanhada de novas políticas e de novos instrumentos para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento, inclusive em relação a investimentos de infraestrutura e política monetária.

Novo tratado, novo competidor

Na última terça-feira (27), foi anunciado um acordo entre a UE e a Índia para redução tarifária, com assinatura prevista para os próximos dias. A UE eliminará tarifas para 99,5% das exportações indianas. A maioria delas cairá a zero imediatamente após a entrada em vigor, beneficiando, na Índia, os setores têxteis (concorrente direto do Brasil e da China), couro, joias e produtos farmacêuticos.

A Índia eliminará ou reduzirá tarifas para 97% das exportações da UE em um prazo de sete anos. O país aceitou reduzir drasticamente suas tarifas sobre carros europeus (hoje de 100%, caindo para 10% ao longo do cronograma de desgravação). As reduções incluem também vinhos e destilados, atendendo a uma demanda antiga da Europa.

Avalia-se que, com esse acordo, a Índia recuou na defesa do discurso de “Make in Índia Puro”, especialmente no que se refere à proteção do segmento automotivo, buscando substituir a China como principal polo manufatureiro perante a UE. Com isso, cria-se um competidor para o Brasil no mercado europeu (especialmente em têxteis e manufaturados leves) e consolida-se a estratégia europeia de diversificar suas cadeias de suprimento para longe da China e dos EUA.

Se por um lado esse acordo se soma na construção de caminhos para enfrentar os movimentos dos EUA,  pode diminuir o apetite da UE pelo acordo com o Mercosul. Ou pelo menos diminuir, para eles, a sua urgência.

Se, por um lado, esse acordo se soma à construção de caminhos para enfrentar os movimentos dos EUA, por outro, pode diminuir o apetite da UE pelo acordo com o Mercosul — ou, ao menos, reduzir, para os europeus, o senso de urgência em relação a ele.

Documentos oficiais

Comissão Europeia – Texto completo do Acordo de Parceria União Europeia-Mercosul
Planalto – O Acordo Capítulo a Capítulo
Ministério das Relações Exteriores / MDIC / MAPA – Nota à Imprensa nº 14: Assinatura do Acordo de Parceria MERCOSUL-União Europeia (Nota Conjunta)
Ministério das Relações Exteriores / MDIC / MAPA – Factsheet: Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia
Conselho da União Europeia – Decisão nº 5001/26


Flávio Tonelli Vaz é advogado e especialista em orçamentos públicos. É assessor técnico na Câmara dos Deputados. Atua na liderança da bancada federal do PCdoB e integra o Grupo de Pesquisa da Grabois sobre Desenvolvimento Nacional.

Fotografia

 

Mario Cravo Neto

Leia: Questão de perspectiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_11.html 

Minha opinião

O descuido do bicho-preguiça
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Sucesso no noticiário o bicho preguiça que escapou de atropelamento na BR-101, no Recife, resgatado a tempo pela Polícia Rodoviária Federal.

Há certo fascínio pelo animal, como que admirado por todas as gerações por não estar nem aí, semiparalisado e atento ao entorno onde estiver. 

Do alto de uma árvore, como acontece ocasionalmente no Sítio Riachinho, ou mesmo numa rodovia movimentadíssima.

Mantém a calma, sempre. E parece desdenhar da ansiedade predominante entre os humanos. 

Em rápida pesquisa em minha fontes digitais, fiquei sabendo que na verdade existem seis espécies do dito cujo, divididas em dois gêneros principais, conforme o número de dedos nas patas dianteiras.

Não anotei detalhes morfológicos, apenas alguns nomes — todos sugerindo certa imponência, que não sendo física talvez seja espiritual: Bradypus variegatus, Bradypus torquatus, Choloepus didactylus e assemelhados.

Mais: adoram economizar energias, pois que vegetarianos: alimentam-se de folhas, brotos e frutos de árvores.

Ou seja, dieta de baixo teor calórico.

Movem-se lentamente não precisamente por indolência, mas como forma de escapar aos predadores. De implacáveis onças, sobretudo.

Preferem sempre permanecer na copa das árvores, quase imóveis e de cabeça para baixo como que observando gente e bichos que eventualmente circulem no entorno. 

Mas há uma rotina que cumprem disciplinadamente: uma vez por semana descem ao solo para defecar e urinar.

Talvez tenha sido num momento desses que o bicho salvo na BR tenha se perdido e se exposto ao risco de atropelamento. Seria um triste fim para o sábio animal.

Veja: Insegurança urbana em debate https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/05/inseguranca-urbana-em-debate.html

EUA: repressão & lucro

Empresas recebem US$ 22 bilhões com repressão migratória de Trump, diz jornal
Segundo o Financial Times, contratos bilionários com ICE e CBP envolvem Amazon, Microsoft, Palantir e construtoras ligadas ao muro e às deportações
Lucas Toth/Vermelho   

Empresas de tecnologia, consultorias, construtoras e companhias de aviação receberam mais de US$ 22 bilhões em contratos ligados à política migratória do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde janeiro de 2025. 

Os recursos foram destinados principalmente ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) e à Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), agências centrais na repressão e violência à imigração no país.

Levantamento publicado pelo Financial Times aponta que o volume de contratos cresceu de forma acelerada após a segunda posse de Trump e ganhou novo impulso com a aprovação, em julho, da chamada “big beautiful bill”, o pacote fiscal aprovado pelo Congresso que ampliou recursos e instrumentos legais para reforçar a política migratória e as operações xenofóbicas de Trump.

Os dados indicam que os gastos do ICE com contratos mais que dobraram nos dois trimestres posteriores à nova legislação, alcançando US$3,7 bilhões, ante US$1,5 bilhão nos seis meses anteriores. 

Já a CBP multiplicou por sete os contratos com empresas privadas entre o primeiro e o segundo semestre de 2025, registrando quase US$2 bilhões em novos acordos apenas neste mês.

Parte desses contratos refere-se a serviços estruturais de tecnologia e infraestrutura. Outra parcela, porém, está diretamente associada às novas estratégias de identificação, detenção e deportação de imigrantes implementadas pelo governo.

Veja alguns gastos citados pela Financial Times:
Amazon (AWS):
Valor: pelo menos US$ 75 milhões (principalmente via revendedores)

Agência: ICE e CBP (indiretamente)

Serviço: computação em nuvem e hospedagem de sistemas.

• Em um contrato específico, o ICE destinou US$ 24 milhões a uma empresa intermediária para gerenciar serviços da AWS.

Microsoft:
Valor: pelo menos US$ 93 milhões (via intermediários)

Agência: ICE

Serviço: licenças corporativas e infraestrutura de software.

• A Dell Federal Systems recebeu US$ 19 milhões para fornecer licenças Microsoft ao ICE.

Palantir:
Valor: US$ 81 milhões (desde janeiro de 2025)

Agência: ICE

Serviços:

• Sistema para rastreamento de “self-deportation” (US$ 30 milhões)

• Ferramentas de análise e apoio à seleção e detenção de imigrantes

Deloitte:
Valor: mais de US$ 100 milhões

Agências: ICE e CBP

Serviços:

• Sistemas de aplicação da lei

• Análise de dados para operações de fiscalização e remoção

• Suporte analítico para divisão de direcionamento de capturas

Fisher Sand & Gravel

Valor: mais de US$ 6 bilhões

Agência: CBP

Serviço: construção de trechos do muro na fronteira sul dos EUA

(empresa liderada por Tommy Fisher, doador republicano)

CSI Aviation
Valor: mais de US$ 1,2 bilhão

Agência: ICE

Serviço: intermediação e fretamento de voos utilizados em deportações

Motorola Solutions:
Valor:

• US$ 19 milhões (contratos diretos)

• US$ 260 milhões (via revendedor)

Agência: ICE

Serviço: rádios e baterias para agentes em operações de fiscalização migratória

G4S (Reino Unido):
Valor: US$ 68 milhões

Agência: ICE

Serviço: transporte terrestre de detidos em operações de remoção

Smiths Detection (Reino Unido):
Valor: mais de US$ 62 milhões

Agência: CBP

Serviço: tecnologia de triagem e detecção para controle de fronteiras

Tecnologia e dados no centro das operações

Entre as principais beneficiárias está a Palantir, que recebeu US$81 milhões em contratos com o ICE desde janeiro de 2025. Em abril, a empresa firmou um acordo de US$30 milhões para desenvolver um sistema operacional voltado ao monitoramento de “self-deportation”, – mecanismo pelo qual imigrantes deixam voluntariamente o país sob monitoramento das autoridades migratórias – além de fornecer ferramentas voltadas à seleção e à detenção de pessoas sem documentação.

A consultoria Deloitte recebeu mais de US$ 100 milhões em novos contratos com o ICE e a CBP desde janeiro de 2025. Os serviços incluem desenvolvimento e atualização de sistemas voltados à aplicação da lei, análise de dados para operações de fiscalização e remoção, além de pesquisas na internet e suporte analítico à divisão responsável por direcionar ações de captura.

Gigantes da tecnologia também integram a cadeia de fornecimento dessas agências. A Amazon, por meio de sua divisão de computação em nuvem (AWS), presta serviços avaliados em pelo menos US$ 75 milhões, em grande parte contratados via revendedores. Em um desses acordos, o ICE destinou US$ 24 milhões a uma empresa intermediária encarregada de contratar e gerenciar a hospedagem e o suporte técnico dos serviços da AWS utilizados pela agência.

A Microsoft, por sua vez, soma ao menos US$93 milhões em serviços, igualmente via intermediários. A Dell Federal Systems recebeu US$19 milhões para fornecer licenças corporativas Microsoft ao ICE, reforçando a infraestrutura tecnológica das operações.

Muro, voos de deportação e logística de detenção

No campo da infraestrutura física, a Fisher Sand & Gravel, empresa liderada pelo doador republicano Tommy Fisher, recebeu mais de US$6 bilhões em contratos da CBP desde julho para a construção de trechos do muro na fronteira sul dos Estados Unidos. Trata-se do maior valor individual identificado na apuração.

O maior beneficiário dos contratos do ICE é a CSI Aviation, que assegurou mais de US$1,2 bilhão desde janeiro de 2025 para intermediar e fretar voos utilizados nas deportações. A ampliação dessas operações acompanha o endurecimento das ações de remoção.

Empresas de segurança e transporte também foram contempladas. A britânica G4S firmou contratos de US$68 milhões com o ICE para fornecer transporte terrestre de detidos em operações de fiscalização e remoção. 

Já a Smiths Detection, subsidiária do grupo britânico Smiths, recebeu mais de US$62 milhões da CBP por tecnologias de triagem e detecção utilizadas no controle de fronteiras.

No setor de equipamentos, a Motorola Solutions mantém US$19 milhões em contratos diretos com o ICE. Além disso, um revendedor terceirizado obteve um acordo de US$ 260 milhões para fornecer rádios e baterias destinados a agentes envolvidos em ações de fiscalização migratória.

Crescimento dos contratos e reação interna

Embora parte dos contratos tenha origem em administrações anteriores e envolva serviços de modernização de sistemas ou suporte técnico rotineiro, a expansão recente está associada às novas diretrizes do governo Trump para ampliar detenções, acelerar deportações e incentivar a chamada “autodeportação”.

O crescimento dos contratos ocorre em meio a controvérsias públicas sobre a atuação das agências federais, inclusive após mortes registradas em operações no estado de Minnesota, que provocaram críticas de parlamentares democratas e republicanos

A intensificação da parceria entre governo e empresas também gerou reação interna no setor de tecnologia. 

Mais de mil trabalhadores da área, incluindo funcionários do Google, assinaram uma carta aberta pedindo que as companhias cancelem contratos e se posicionem contra as táticas adotadas pelo governo.

Leia também: A chegada de Trump 2.0 e a era da turbulência global  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/fator-de-desequilibrio-global.html

Humor de resistência


 Descortino tático na disputa eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_15.html 

Futebol: fatores que se cruzam

A teoria e a prática no futebol
Melhores treinadores nem sempre são os que têm mais informações. A prática sem a teoria é uma grosseira simplificação
Tostão/Folha de S. Paulo  

O gol nasce de muitas maneiras. Após belos lances individuais ou coletivos, por erros dos árbitros, por acaso, por descuido e, cada vez mais, por bolas paradas, nos escanteios e nas cobranças de falta nas laterais do ataque.

O Arsenal, líder do Campeonato Inglês e da Liga dos Campões da Europa, é o time que faz mais gols de bolas paradas; quase 30% de todos os gols. Existem, em todo o mundo, cada vez mais ótimos cabeceadores e cruzadores. Todos os grandes clubes possuem nas comissões técnicas especialistas em bolas paradas.

Os grandes craques são aqueles que, além da técnica exuberante, são concisos e que com poucos movimentos tomam as decisões corretas.

Quando joguei ao lado de Pelé, percebi que uma de suas principais virtudes era tornar simples o que era complexo. Com poucas ações, decidia as jogadas. Tudo se iluminava à sua frente.

O mesmo ocorre em todas as atividades. Quando eu atuava como médico, fiz cursos de medicina psicossomática e psicanálise para entender melhor as questões emocionais dos pacientes. Achei que não compreenderia os conceitos de Freud, mas logo percebi que seus textos eram claríssimos, convincentes e que até os mistérios da alma tinham lógica. Freud colocou ordem no caos. Pena que muitos seguidores não tiveram a mesma sabedoria.

Há muitos jogadores extremamente hábeis que não se tornam craques, por falta de melhor técnica e/ou porque não sabem os caminhos mais simples e diretos. O talento é a união da habilidade, da técnica, da criatividade e das condições físicas e emocionais.

Assim como os melhores professores de medicina nem sempre são os melhores médicos, os melhores treinadores nem sempre são os que têm mais informações. Os especiais são os que unem conhecimento científico com a capacidade de observar, intuir, simplificar e tomar decisões corretas. A teoria sem a prática é um vazio. A prática sem a teoria é uma grosseira simplificação.

Pisando na bola

Começa nesta quarta (28) o Brasileirão e ainda não acabaram os estaduais. Flamengo e Palmeiras continuam sendo os favoritos, por terem os melhores elencos.

O Flamengo sabe que, para ser uma potência mundial, como deseja, precisa reforçar o elenco do meio para a frente. Por isso tenta contratar Paquetá. O Palmeiras é, com frequência, criticado por não encantar quando vence. Quando perde, as críticas são mais duras. O ideal é vencer e encantar, porém, melhor que perder e jogar bem, é ganhar mesmo jogando mal.

O Cruzeiro, na derrota para o Atlético-MG, por 2 x 1, repetiu a escalação e o esquema tático de Léo Jardim, mas não repetiu a estratégia de atuar com muita intensidade, pressão para recuperar a bola e chegar rapidamente ao gol. A razão disso é o início de temporada ou Tite prefere a maneira tradicional de fechar os espaços sem pressionar quem está com a bola? Veremos.

No conturbado São Paulo, o técnico Crespo disse que o time vai lutar para não ser rebaixado no Brasileirão. O presidente do clube não gostou, pois acha que o São Paulo vai disputar uma vaga na Libertadores. O treinador foi sincero ou, sem querer querendo, menosprezou o elenco? Penso que o São Paulo, com os jogadores que possui, tem condições de fazer uma boa campanha.

A bola está com o técnico.

Os fortes fazem o que querem: Trump e a Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/celso-pinto-de-melo-opina.html 

30 janeiro 2026

Palavra de poeta

Dançarina espanhola
Rainer Maria Rilke  

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Leia também: "Estou fora, muito obrigado" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_25.html

Postei nas redes

Na grande mídia neoliberal, "analistas" políticos choram pela dificuldade de se encontrar uma candidatura de direita competitiva para enfrentar Lula e o filho do ex-presidente presidiário. 

Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html 

Boa notícia

Desemprego atinge menor patamar no Brasil, diz IBGE
Em 2025, apenas 5% da população estava desocupada, enquanto os empregados somaram 103 milhões. País também bateu recorde no ganho dos trabalhadores
Priscila Lobregatte/Vermelho    

O Brasil teve, em 2025, a menor taxa de desemprego da série histórica, de 5,1%, com a população ocupada chegando em 103 milhões de pessoas. Os patamares foram os melhores já atingidos desde 2012, segundo a Pnad Contínua, do IBGE, divulgada nesta sexta-feira (30).

De acordo com a pesquisa, com o resultado de dezembro, a taxa anual do indicador de desemprego caiu de 6,6%, em 2024, para 5,6%, em 2025.  Em um ano, a média de pessoas sem emprego caiu de 7,2 para 6,2 milhões.

A coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, Adriana Beringuy, salientou que “a queda da desocupação não foi provocada por aumento da subutilização da força de trabalho ou do desalento, reduzindo a pressão por trabalho.  A trajetória de queda da taxa de desocupação em 2025 foi sustentada pela expansão da ocupação, principalmente nas atividades de serviços”.

Também foi recorde o nível de ocupação — percentual de pessoas que estão ocupadas na idade de trabalhar. Conforme os dados, em 2025 esse índice ficou em 59%, enquanto em 2024 era de 58,6% e em 2012 era de 58%. Seguindo a mesma trajetória, o nível de subutilização também foi o menor dos últimos 13 anos, 14,5% — ante 16,2% em 2024.

Leia também: Trabalhadores conquistam aumento acima da inflação em 77,7% das negociações

Quando analisado o quarto trimestre do ano passado, o saldo também é positivo. A taxa de desocupação, de 5%, apresentou queda tanto na na comparação com o trimestre de julho a setembro — com -0,5 ponto percentual — quanto a igual trimestre de 2024. Naquele momento, a marca foi de 6,2%, com redução de -1,1 p.p.

Ao analisar o último trimestre do ano com o anterior (de julho da setembro), o IBGE verificou que as atividades que tiveram maior aquecimento foram os de Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas (1,6%, ou mais 299 mil pessoas) e Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (1,5%, ou mais 282 mil pessoas).

Informalidade em queda

O IBGE também verificou que o país teve aumento no número de empregos formais (com carteira assinada). Conforme a estimativa, o crescimento foi de 2,8% em 2025 na comparação com o ano anterior e atingiu quase 39 milhões de pessoas. O quantitativo também foi recorde, registrando um acréscimo de cerca de 1 milhão de pessoas com carteira assinada em relação a 2024.

Já o contingente anual de empregados da iniciativa privada sem carteira assinada caiu 0,8%, passando de 13,9 milhões para 13,8 milhões de pessoas.

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Refletindo o forte processo de precarização e a tendência ao empreendedorismo, os brasileiros que trabalham por conta própria foi o maior da série, com estimativa anual de 26 milhões, crescimento de 2,4% em relação a 2024, quando foi de 25,5 milhões.

Na comparação com o início da série em 2012, quando era de 20 milhões, o crescimento foi de 30,4%. A taxa anual de informalidade passou de 39%, em 2024, para 38% em 2025.

Na avaliação de Adriana, a taxa de informalidade reflete característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro. “A composição e dinâmica da população ocupada ainda é bastante dependente da informalidade, sobretudo, devido à grande participação de trabalhadores no comercio e em segmentos de serviços menos complexos”.

Massa salarial em alta

O quadro positivo da economia e do mercado de empregos também se refletiu no bolso dos trabalhadores: o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 3.560, um aumento de 5,7% (ou R$ 192) na comparação com 2024. Na série histórica da pesquisa, desde 2012, o menor resultado havia sido em 2022 (R$ 3.032).

Já o valor anual da massa de rendimento real habitual chegou a R$ 361,7 bilhões, em 2025, o maior da série, com alta de 7,5% (mais R$ 25,4 bilhões) em relação a 2024.

As atividades com melhor performance nesse quesito foram as de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, além do setor de administração pública, defesa, educação, saúde humana, seguridade social e serviços sociais.

De acordo com a coordenadora da pesquisa, “além desses impulsos setoriais, a valorização do salário-mínimo influenciou o ganho de rendimento nos segmentos de atividades mais elementares e menos formalizadas. Dessa forma, independente da forma de inserção na ocupação, o crescimento do rendimento foi difundido para a população ocupada como um todo”.

Leia também Descortino tático na disputa eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_15.html

Humor de resistência

 

Nando Motta

A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html 

Sylvio: energúmeno

A imagem do imaturo Nicolas agredindo um boneco de plástico do presidente Lula é muito sugestiva. É uma antecipação do que o povo brasileiro pretende fazer com o agressor nas próximas eleições. Compará-lo a um líder mundial como nosso ex-presidente é uma agressão à História e ao bom senso. Cresce e aparece figura diminuta.

Sylvio Belém  

À direita, todos brigam e ninguém tem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_22.html 

Juros abusivos

Juro real no Brasil atinge maior nível em 20 anos e expõe abusos do BC
Com a Selic em 15%, o país atinge juro real de 10,6% e consolida a 2ª maior taxa do mundo, penalizando trabalhadores e favorecendo rentistas
Davi Molinari/Vermelho   

A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira (28), de manter a Selic em 15% pela quinta vez consecutiva elevou o juro real brasileiro a 10,6%, nível não visto desde maio de 2006. Com a inflação projetada em 4% para 2026, o país se consolida como o segundo com maior juro real entre as 40 principais economias, atrás apenas da Rússia.

O juro real, resultado da diferença entre a Selic e a inflação, é o mais alto em duas décadas. O Brasil ocupa a segunda posição global há sete meses, com variações entre 9,23% e 10,6%, superando Argentina e Turquia. Em termos nominais, aparece em quarto lugar, atrás de Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (16%). Nos Estados Unidos, o índice é de 1,55%, enquanto o Japão registra -1,18%.

Desde 2006, picos acima de 10% foram raros. Durante a pandemia, os juros chegaram a ser negativos, mas o retorno ao patamar atual marca um dos períodos mais restritivos da política monetária brasileira.

Alta persistente apesar da desaceleração da inflação

Apesar da desaceleração do IPCA-15 de janeiro — que registrou 0,20% e acumulou 4,5% em 12 meses, situando-se dentro da margem de tolerância —, o Copom sinalizou que cortes ocorrerão apenas a partir de março. Mesmo com indicadores revelando que a economia gira com menores índices de inflação, o comunicado do Comitê justificou a manutenção da Selic pela persistência de incertezas externas e expectativas inflacionárias acima da meta oficial de 3% (com tolerância de 1,5 ponto percentual).

O efeito da política monetária em curso drena para os títulos públicos recursos que seriam destinados a investimentos produtivos. Além disso, encarece o crédito, trava novos investimentos e sufoca o consumo das famílias devido ao endividamento, que já atinge 79,5% dos lares, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A dívida pública brasileira alcançou R$ 8,6 trilhões em 2025, com R$ 984 bilhões pagos apenas em juros (o equivalente a 7,98% do PIB), consumindo praticamente metade do Orçamento da União.

Sociedade critica a Selic a 15% 

Centrais sindicais como CTB, CUT e Força Sindical apontam prejuízos severos ao emprego e ao consumo. Para Adilson Araújo, presidente da CTB, “a dívida pública se transformou no principal meio de valorização do capital operado por banqueiros, agiotas e rentistas em nosso país. O pagamento de juros a favor desta casta de parasitas consome, agora, mais do que a metade do orçamento público e configura uma brutal transferência de renda do conjunto da sociedade para os rentistas”, afirmou.

As críticas ao nível alto da Taxa Selic também encontram eco no setor produtivo. A indústria, representada pela CNI, e o setor da construção civil criticam a restrição ao crédito imobiliário, que inviabiliza investimentos e o acesso da população à moradia. O editorial do portal Vermelho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_30.html  reforça que a atual política monetária é antagônica aos interesses populares, blinda o rentismo e exige uma reforma profunda no sistema financeiro, visando recolocar o Banco Central sob o controle do Estado.


Leia também: O Governo Lula diante do Estado disfuncional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/estado-brasileiro-disfuncional.html 

Uma crônica de Enio Lins

Quatro décadas do nascimento de um bloco revolucionário
Enio Lins    

HÁ QUARENTA ANOS, 30 de janeiro caiu numa quinta-feira. Naqueles dias, o PCdoB, então partido hegemônico nas esquerdas alagoanas, estava envolvido numa missão imprevista e que não fazia parte de seu programa político, nem de sua tática ou estratégia. Eram os preparativos para o nascimento do bloco Meninos da Albânia, que viria à luz três dias depois, no Domingo de Banho de Mar a Fantasia.

ESTRESSE ENORME naquela quinta-feira, penúltimo dia útil antes da esbórnia dominical. Além da ansiedade pelo acontecimento inédito, a tensão se multiplicava pela necessidade de aquisição de produtos para alegorias, fantasias, estandarte. Muito trabalho de última hora, com adereços confeccionados – na raça – por uma militância dedicada, mas amadora, inexperiente na artesania momesca. Mas, ao fim e ao cabo, tudo deu certo. Surgiu um bloco com cara de troça, com humor e cachaça na mamadeira.

DEPOIS DA DÉCADA 1960, arrefecera o carnaval de rua maceioense. Mingou o público, que migrou para os bailes nos clubes locais e para as ruas de Olinda e Recife. Os antigos blocos como Cavaleiro dos Montes, Sai da Frente, Pitanguinha Vai à Lua, Vulcão, e tantas outras agremiações históricas resistiam bravamente, mas desfilavam para calçadas cada vez mais esvaziadas. Apesar de, em 1975, artistas terem criado o bloco Filhinhos da Mamãe, e em 1983 surgir o Pecinhas de Maceió, era um consenso que o Carnaval de Rua passava por enormes dificuldades. Nesse quadro, no final de 1985, Edécio Lopes, carnavalesco dedicado, através de seu programa Manhãs Brasileiras, na Rádio Gazeta AM, líder incontestável de audiência, resolveu fazer uma provocação tão bem-humorada quanto incisiva ao PCdoB: criar um bloco carnavalesco, transformando em verdade uma brincadeira despretensiosa publicada num efêmero jornal.

LUTA POPULAR era o nome de um bravo semanário que circulou, às segundas-feiras, durante 1985. Fundado pelo PCdoB alagoano como experiência de um “jornal de massas” local, o hebdomadário se engajou na campanha de Djalma Falcão à prefeitura de Maceió pela coligação PMDB, PSB e PCdoB. Era a primeira vez, depois da curta legalidade entre 1945 e 1947, que os comunistas participavam com siglas próprias das eleições. Na campanha, a combatividade da militância jovem do PCdoB chamou a atenção, e o termo “Meninos da Albânia” foi cunhado pejorativamente pelos adversários (francos favoritos) numa tática marqueteira que não deu certo: em 15 de novembro, a tríplice aliança em torno de Falcão voou alto e levou a eleição no bico, graças, em parte, à energia da meninada “albanesa”. Eleição finda, missão comprida, a publicação fechou as portas para alívio de uma redação 100% voluntária. No último número, Plínio Lins escreveu uma notinha, tirando onda, dizendo que a alegria com a vitória era tanta que os “Meninos da Albânia” iam virar um bloco carnavalesco. Aí Edécio Lopes pegou pelo pé. Não adiantou explicar que essa não era meta, que a militância estava exaurida pela campanha eleitoral etc.

NASCEU ASSIM, a fórceps, o bloco Meninos da Albânia. Dois foram os desfiles, nos dias 2 e 7 de fevereiro de 1986. Veio ao mundo com músicas autorais, composições de Ricardo Mota e Roberto Barbosa, as sátiras “Emissário Submarino” e “Lei Seca” e uma apologia à Constituinte. Um roupão apelidado de “mortalha” era a vestimenta, tecido adquirido à crédito no Cotonifício João Nogueira, cuja loja da fábrica ficava na Rua Augusta, perto da sede do Partido. Chico de Assis atuou como o porta-estandarte. A boate Maceiork (em Jaraguá) – cedida por Mário Aloísio, Dênio Ramos, e Paulo “Ventinha” – como barracão; o combustível foi uma batida com cachaça de cabeça, batizada como "Gargarejo do Dragão". Um enorme sucesso! Edécio estava certo, foi dado um grande impulso ao carnaval de rua. Parte desse movimento desagua, anos depois, nos contemporâneos Pinto da Madrugada e Jaraguá Folia. E têm mais histórias. 

EM RESUMO, fica o registro, e o anúncio que, neste ano, em 6 de fevereiro, desfiliará o bloco Tributo aos Meninos da Albânia, no Jaraguá Folia. Apareça por lá, para dar sequência a essa caminhada.

Leia também O ex-técnico pinguço e o carnaval televisivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_27.html 

Editorial do 'Vermelho'

Manutenção da Selic em 15% atenta contra o desenvolvimento nacional
Decisão obedece à precificação do mercado financeiro e impacta reindustrialização, retomada do crescimento e geração de emprego e renda
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br
   

A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter, pela quinta vez consecutiva, a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 15% ao ano expressa um problema estrutural da política macroeconômica do Brasil. A taxa de juros real é a mais alta em 20 anos e a segunda maior do mundo. O comunicado sobre a decisão informa que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais”.

O documento afirma que “o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência”, uma referência à taxa de desemprego que fechou o ano de 2025 abaixo dos 6% da força de trabalho, em termos dessazonalizados, considerada pelo mercado financeiro insustentável.

Esse arrazoado, de tão repetitivo, já se configurou uma espécie de moto-contínuo de argumentos artificiais, frágeis. Na verdade, revela um esforço de ocultar o fracasso da política monetária antagônica aos interesses nacionais e aos direitos do povo. O mantra de que a inflação – medida por meta arbitrariamente definida e pressionada pelo crescimento econômico e baixo índice de desemprego – precisa ser domada pela taxa de juros revela a obsessão do Banco Central por uma política monetária que blinda o rentismo de eventuais desvalorizações do real.

Desconsidera a lógica de crescimento da economia para suprir a demanda, o caminho para o desenvolvimento nacional, o consumo das famílias e os investimentos do Estado de forma sustentada e sem inflação. E antagoniza com as medidas do governo para retomar o crescimento, com a reindustrialização do país e a geração de emprego e renda.

A inflação cheia e as medidas subjacentes (o núcleo da inflação, de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, instrumento apresentado como termômetro da tendência de preços) seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação, destaca o comunicado.

E explica que “as expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus (o relatório com estatísticas calculadas por avaliações do mercado financeiro) permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,0% e 3,8%, respectivamente”. Trata-se, na verdade, da precificação da economia pelo mercado financeiro.

Cercado de ressalvas, o comunicado afirma que, “em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros”. “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”

Sem a pressão do mercado financeiro, a realidade mostra uma política de combate à inflação artificial. Os protestos de representantes da indústria, da construção civil e dos trabalhadores contra a decisão do Copom são justificados pela ampliação dos custos e por restrições ao crédito. Como afirmou a Confederação Nacional da Indústria, a manutenção da Selic ignora a desaceleração recente da inflação e mantém a economia sob forte restrição monetária.

O setor industrial divulgou dados que indicam o IPCA de 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção avaliou que juros elevados afetam diretamente o crédito imobiliário, reduzem a demanda por novos empreendimentos e dificultam a viabilização de projetos. A entidade aponta impactos prolongados sobre emprego, renda e toda a cadeia produtiva.

As centrais sindicais foram ainda mais contundentes. De acordo com Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a redução do juro é “um anseio da maioria da sociedade e uma demanda associada ao desenvolvimento nacional”. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirmou que a manutenção da Selic mantém o país entre os maiores juros reais do mundo, com efeitos diretos sobre consumo, emprego e endividamento das famílias. Para a Força Sindical, a decisão do Copom prejudica o setor produtivo e favorece aplicações financeiras.

Os juros nas alturas também impactam a dívida pública, que, de acordo com o Tesouro Nacional, cresceu 18% em 2025, maior aumento em dez anos, superando R$ 8,6 trilhões, cerca de metade dela atrelada à Selic. Ou seja: a política monetária do Banco Central tem a meta única de manter o fluxo de pagamentos e amortizações de juros, tendência que se acentuou com a “independência” do Banco Central.

Mesmo a argumentação de que é função do Banco Central perseguir o centro da meta de inflação se revela uma falácia, uma miragem. A começar pela valorização do real frente ao dólar em 2024, que implica redução do preço dos produtos importados e das commodities, diminuindo a pressão sobre o IPCA. Além do mais, em 30 anos apenas três vezes se chegou ao centro da meta.

Fica evidente que a política do Copom, decidida pelo mercado financeiro, atenta contra os interesses nacionais e os direitos do povo, sobretudo dos trabalhadores. Condena o país a crescimento medíocre, sangra os recursos públicos ao transferir riquezas para os rentistas, amordaça o Estado e confronta decisões do governo, diagnóstico que exige das forças democráticas e populares ações enérgicas por uma reforma do sistema financeiro para que decisões como essa sejam tomadas de acordo com os interesses do país e do povo, a começar pela volta do Banco Central à alçado do Estado.

Leia também: O Governo Lula diante do Estado disfuncional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/estado-brasileiro-disfuncional.html