22 maio 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Perplexidade
Abraham B. Sicsu  

Vinte três dias nos interiores do país. As serras capixabas, o sul de Minas, o interior paulista. Regiões belas, paisagens marcantes, contato com a natureza. O trem de Belo Horizonte a Cariacica, a história da mineração e seus legados. Interessantíssimo, 14 horas vendo de perto o legado que o ciclo da mineração nos deixou. Evidentemente que poluição também faz falta e São Paulo, Rio e Brasília entraram no roteiro.

Período em que nos isolamos, em que procuramos não estar em contato contínuo com as notícias, com o que vinha ocorrendo no mundo e no Brasil. Algumas manchetes nos chegam, mas passam quase desapercebidas.

Voltei à realidade, começo a me informar com mais detalhes do que vem ocorrendo. O que mudou neste quase mês fora?

O susto é grande. Parece que se está em outro ambiente, em outro mundo. E, o mais grave, tudo parece ter piorado.

Uma refinaria que não refina petróleo com dívidas bilionárias junto ao erário público, um filme de uma produtora que nunca produziu nada, com orçamento jamais visto no país, o entrelaçar entre as elites políticas e econômicas desmascaram os casos de corrupção no país.

Maio muda o cenário econômico e político. Denúncias do envolvimento da família do ex-presidente com o Banco Máster escancaram o podre nas relações que imperavam no centro do poder. Corrupção, preocupação de todos, é explicitada.

Produzir um filme com suporte empresarial de milhões não se faz do nada. Interesses políticos e econômicos são motivação e causa estranheza possíveis desvios de rumos dos recursos, facilmente constatáveis.

Contratos milionários, difíceis de justificar, surgem e são recebidos com naturalidade. Não bastassem os acordos de consultoria de bancas advocatícias com o Máster, empresas de marqueteiro do governo passado, faturou cerca de 100 milhões de reais junto a Ministérios, enquanto ele ainda era assessor da presidência.

Locações de navios luxuosíssimos na COP 30, difíceis de serem justificadas. E o Cavalinho Negro levanta suspeita de financiamento indireto para fujões que denigrem a imagem da nação. É corrupção para todo o lado.

Pensemos um pouco o mundo e a geopolítica. Nessa, o Bufão Estridente não pode ser esquecido. A Ucrânia continua em guerra, o Conselho da Paz para a reconstrução de Gaza não sai do lugar, a política agressiva daquele senhor tem resultados pífios e não avança.

Toda semana o senhor semi-imperador, anuncia o fim próximo da guerra com o Irã, não acontece, o bloqueio da navegação eleva o preço do petróleo e causa inflação e desespero internacional.  Na Venezuela fez intervenção, mas esqueceu totalmente a busca da democracia, manteve o mesmo regime, agora podendo explorar os ricos recursos naturais em benefício de suas empresas.

Não conseguindo resultados palpáveis, volta sua artilharia para Cuba.

Cínico, se arvora de salvador da população da ilha, ilha que não o ameaça, que tem sofrido muito com um bloqueio insano que lhe traz transtornos insuportáveis.

Resgata fatos de trinta anos, fatos que tem justificativa nas relações internacionais quando há efetivamente invasão deliberada de território, para ameaçar uma invasão, uma captura de um líder que tem história, que é muito querido junto à sua população. O bloqueio que gera uma crise humanitária se aprofunda e falta energia e alimentação.

A única justificativa, não aceitável, mas possível, para essa loucura, é a queda abrupta de sua popularidade interna, com uma desaprovação de mais de 60%, com uma inflação crescente, com preços de combustíveis que beiram o insuportável. Uma maneira de desviar o focar nos problemas domésticos com possível “vitória” internacional irrelevante para os americanos, tentando vender a imagem de um super-herói que domina o mundo. O confronto virou a estratégia.

Volto-me para outro lado. Ver o meu Estado. Maio sai o ranking de Progresso Social de 2026. Estamos na dramática posição de Décimo Sexto colocado no que tange a desenvolvimento social e qualidade de vida.  Ficamos abaixo da média nacional. Pior que Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte e Ceará. Recife fica com o quinto lugar de pior capital. Enfim, nada alvissareiro.

Como diria o personagem de Jô Soares, “aqui não fico, volto para o exílio.” No meu caso, escolho as Serras Capixabas.

[Ilustração: Luciano Pinheiro]

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