Ciência, autonomia e emancipação: o caminho para derrotar a violência de gênero
Investimentos em ciência, educação e autonomia econômica fortalecem a emancipação feminina e ajudam a enfrentar a violência de gênero no Brasil
Luciana Santos/Vermelho
A cada seis horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil. Esse dado alarmante não representa apenas uma estatística fria, ele se traduz em vidas brutalmente interrompidas, famílias dilaceradas e a persistência de uma chaga social que violenta a nossa dignidade e o nosso compromisso civilizatório. É uma realidade inaceitável, que exige do Estado brasileiro uma resposta contundente e de toda a sociedade uma mobilização permanente e inflexível.
No mês de maio, ao completarmos os 100 dias do Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento ao Feminicídio, reafirmamos um compromisso que vai muito além do formalismo institucional. Este pacto conta com o apoio e atuação importante de Janja Lula da Silva e a articulação e empenho do próprio presidente Lula. É um pacto que simboliza a união inabalável de esforços para combater a expressão mais cruel e extrema do patriarcado. No entanto, para derrotar o feminicídio de forma definitiva, precisamos compreender que ele não brota no vazio. Ele é o desfecho trágico de uma escalada de opressões que se inicia no cotidiano, nas violências psicológica, moral, patrimonial e física.
Enfrentar essa barbárie exige, sem dúvida, o fortalecimento dos mecanismos de acolhimento, proteção e a aplicação rigorosa da justiça. Mas, fundamentalmente, exige que tenhamos a coragem de transformar as estruturas históricas que alimentam a desigualdade e perpetuam relações de subordinação. E, no cerne dessas estruturas, está a exclusão secular das mulheres dos espaços de poder, de decisão e da produção do conhecimento científico e tecnológico.
A história nos mostra que a autonomia econômica das mulheres é uma das ferramentas mais poderosas de emancipação. Quando garantimos a uma mulher o acesso à educação de qualidade, à qualificação profissional, à ciência e à inovação, estamos ampliando suas fronteiras de liberdade. Estamos oferecendo as condições reais para que ela rompa com o ciclo da violência e seja dona do seu próprio destino. Muitas mulheres permanecem presas a contextos abusivos não por escolha, mas por falta de alternativas financeiras e profissionais. Por isso, a inclusão produtiva, a geração de renda e a democratização das oportunidades não são agendas acessórias, são pilares centrais da estratégia nacional de segurança pública e de direitos humanos das mulheres.
No Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), transformamos essa convicção em ação governamental desde o primeiro dia da nossa gestão na reconstrução do país. Já mobilizamos mais de R$ 1,7 bilhão em investimentos estruturantes voltados ao empoderamento de meninas e mulheres nos setores científicos e tecnológicos. São recursos direcionados para reparar distorções históricas e impulsionar a presença feminina em áreas estratégicas para o desenvolvimento e a soberania nacional.
Neste ano, demos um passo histórico com o lançamento da Política de Empoderamento das Meninas e Mulheres na Ciência, Tecnologia e Inovação. Trata-se de uma política pública robusta, transversal e intencional, desenhada para garantir não apenas o acesso, mas a permanência, a valorização e a ascensão das brasileiras nessas áreas tão estratégicas. Implementamos medidas afirmativas concretas, com recorte de gênero e raça, reserva de vagas, bolsas de incentivo, apoio ao empreendedorismo tecnológico feminino e fomento à qualificação em fronteiras do conhecimento, como a Inteligência Artificial.
Iniciativas consolidadas e novos programas — como o Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação, o Futuras Cientistas, o Mulheres Inovadoras e o Programa Beatriz Nascimento, além do fortalecimento do Programa Centelha e do Conecta Startup Brasil — provam que o Estado pode e deve ser o motor da transformação social. Essas ações mudam trajetórias de vida e, simultaneamente, oxigenam o ecossistema nacional de inovação com novos olhares e talentos imprescindíveis.
O avanço dessa agenda enriquece toda a nação. Uma ciência plural, que conta com a inteligência, a sensibilidade e a liderança das mulheres, é uma ciência mais justa e capaz de apresentar soluções reais para os grandes desafios do nosso povo. Mas abrir as portas do laboratório e da universidade é apenas metade da tarefa. Temos trabalhado incansavelmente para assegurar que esses ambientes institucionais sejam seguros, respeitosos e absolutamente livres de assédio e discriminação. Lugar de mulher é onde ela quiser, exercendo sua liderança com dignidade e paz.
Como primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação em mais de quatro décadas de existência da pasta, carrego comigo o peso e o orgulho dessa responsabilidade. Sei que a representatividade importa. Ver uma mulher liderando a política científica do país serve de espelho para que milhões de meninas em nossas escolas públicas compreendam que nenhum espaço lhes é interditado. Elas podem ser cientistas, astronautas, engenheiras, enfim, o que decidirem ser.
Combater o feminicídio e a violência de gênero é salvar vidas hoje, mas é também plantar as sementes de democracia e dignidade para o amanhã. Onde houver uma mulher em situação de vulnerabilidade, o Estado deve chegar com o braço firme da proteção e da justiça, mas deve chegar também com a mão acolhedora da educação, da tecnologia, do emprego e da emancipação.
Uma sociedade que empodera suas mulheres é uma sociedade que rompe as correntes do silêncio e caminha altiva para o futuro. A ciência brasileira é, definitivamente, delas e de quem mais lutar por um país justo, soberano e desenvolvido.
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