A bola de couro n°5 foi minha primeira
namorada
É Copa do Mundo e o 'futebolês'
ajuda a explicar o país
Joaquim
Ferreira dos Santos/O Globo
Trila o apito Sua Senhoria e autoriza o
início do prélio fundamental da existência humana, a Copa do Mundo com o seu
dicionário de escanteios, trivelas, gols estufando o véu da noiva e outros
tantos entrando lá onde a coruja dorme. É o futebolês, o português roçando a
língua de Cristiano Ronaldo. Da cabine de transmissão, o locutor pergunta a este
repórter-cronista atrás do gol: “Diga aí, JFS, o que foi que só você viu?”.
Eu vi a minha primeira bola de couro
número cinco, aquela que vinha com uma câmara de ar por dentro e precisava,
para ser enchida, de uma bomba de bicicleta ou uma visita ao posto de gasolina.
Vi também – e senti o cheiro – o pedaço de sebo que o açougueiro dava à
molecada para passar na bola e mantê-la com ares de nova. A número cinco de
couro foi a minha primeira namorada, o dicionário onde ainda procuro o drible
da vaca e a folha seca para escrever.
O futebolês é minha pátria, minha
língua, e, se a foto ao lado mostrasse a camiseta inteira, seria possível ler
estampada nela – “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” – a frase
do técnico Gentil Cardoso. Nos dias frios, quando não encontro um bom lugar nem
para ler um livro, quando desaparece a vontade de vestir as chuteiras para
fazer embaixadinhas com as palavras e ganhar a vida – é ela quem me põe em
campo. Tenho dias de cabeça de bagre, de perna-de-pau, e os haters corneteiros
não me deixam mentir. Às vezes, porém, no radinho Spica que me vai nas
têmporas, ouço o locutor Orlando Batista comemorar comigo que “a nega tá lá
dentro”. Era assim nos anos 60 – perdoai-os – a forma de gritar um gol.
Mas, agora, se lá da cabine à direita
do gol de Ghiggia, o locutor perguntar novamente o que só você, JFS, tem visto
por aí, eu – que nos próximos dias deixo de adorar os sabiás da crônica e tento
emular Luiz Mendes, “o comentarista da palavra fácil” da Rádio Globo – eu diria
em futebolês moderno que é preciso compactar a defesa dos valores brasileiros,
ser mais vertical no ataque ao terço final do campo reacionário e usar mais
pressão para abafar a saída de jogo dos que querem entregar a rapadura aos
inimigos. Preencher os espaços desses cavadores de falta, perebas do carrinho
por trás e da retranca democrática.
Tem os sambas do Chico, as mulatas do
Di, as curvas do Niemeyer e a Pasárgada do Bandeira, mas nada nos explica com
mais rapidez do que um elástico do Riva, uma pedalada do Robinho, os “Joões” do
Garrincha, um passe de 40 metros do Gérson, uma ponte do Pompeia, a leiteria do
Castilho, a bicicleta do Leônidas, a matada de costas do Neymar, as faltas do
Zico, o voo do Pelé parando no ar para cabecear e o papo reto do “bola pro mato
que é jogo de campeonato”.
O jogo da
seleção anda pouco inspirado e o futebolês, que antes apostava na malandragem
do “ripa na chulipa”, complicou o verbo – é um tal de falso 8, de jogadores
escalados pela minutagem e até um segundo volante de contenção flutuando entre
as linhas. Não me queixo. Tudo muda e o futebol vai junto. Neste terço final do
gramado da existência, ouço vindo da cabine central do Maracanã o bordão
filosófico do locutor Waldir Amaral: “O relóóóógio maaaaaaaarca!!!!!”.
[Ilustração: Carvall/Folha de S. Paulo]
Leia também: "Onde tudo se disputa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01973223157.html

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