10 junho 2026

Uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos

A bola de couro n°5 foi minha primeira namorada
É Copa do Mundo e o 'futebolês' ajuda a explicar o país
Joaquim Ferreira dos Santos/O Globo
 

Trila o apito Sua Senhoria e autoriza o início do prélio fundamental da existência humana, a Copa do Mundo com o seu dicionário de escanteios, trivelas, gols estufando o véu da noiva e outros tantos entrando lá onde a coruja dorme. É o futebolês, o português roçando a língua de Cristiano Ronaldo. Da cabine de transmissão, o locutor pergunta a este repórter-cronista atrás do gol: “Diga aí, JFS, o que foi que só você viu?”.

Eu vi a minha primeira bola de couro número cinco, aquela que vinha com uma câmara de ar por dentro e precisava, para ser enchida, de uma bomba de bicicleta ou uma visita ao posto de gasolina. Vi também – e senti o cheiro – o pedaço de sebo que o açougueiro dava à molecada para passar na bola e mantê-la com ares de nova. A número cinco de couro foi a minha primeira namorada, o dicionário onde ainda procuro o drible da vaca e a folha seca para escrever.

O futebolês é minha pátria, minha língua, e, se a foto ao lado mostrasse a camiseta inteira, seria possível ler estampada nela – “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” – a frase do técnico Gentil Cardoso. Nos dias frios, quando não encontro um bom lugar nem para ler um livro, quando desaparece a vontade de vestir as chuteiras para fazer embaixadinhas com as palavras e ganhar a vida – é ela quem me põe em campo. Tenho dias de cabeça de bagre, de perna-de-pau, e os haters corneteiros não me deixam mentir. Às vezes, porém, no radinho Spica que me vai nas têmporas, ouço o locutor Orlando Batista comemorar comigo que “a nega tá lá dentro”. Era assim nos anos 60 – perdoai-os – a forma de gritar um gol.

Mas, agora, se lá da cabine à direita do gol de Ghiggia, o locutor perguntar novamente o que só você, JFS, tem visto por aí, eu – que nos próximos dias deixo de adorar os sabiás da crônica e tento emular Luiz Mendes, “o comentarista da palavra fácil” da Rádio Globo – eu diria em futebolês moderno que é preciso compactar a defesa dos valores brasileiros, ser mais vertical no ataque ao terço final do campo reacionário e usar mais pressão para abafar a saída de jogo dos que querem entregar a rapadura aos inimigos. Preencher os espaços desses cavadores de falta, perebas do carrinho por trás e da retranca democrática.

Tem os sambas do Chico, as mulatas do Di, as curvas do Niemeyer e a Pasárgada do Bandeira, mas nada nos explica com mais rapidez do que um elástico do Riva, uma pedalada do Robinho, os “Joões” do Garrincha, um passe de 40 metros do Gérson, uma ponte do Pompeia, a leiteria do Castilho, a bicicleta do Leônidas, a matada de costas do Neymar, as faltas do Zico, o voo do Pelé parando no ar para cabecear e o papo reto do “bola pro mato que é jogo de campeonato”.

O jogo da seleção anda pouco inspirado e o futebolês, que antes apostava na malandragem do “ripa na chulipa”, complicou o verbo – é um tal de falso 8, de jogadores escalados pela minutagem e até um segundo volante de contenção flutuando entre as linhas. Não me queixo. Tudo muda e o futebol vai junto. Neste terço final do gramado da existência, ouço vindo da cabine central do Maracanã o bordão filosófico do locutor Waldir Amaral: “O relóóóógio maaaaaaaarca!!!!!”.

[Ilustração: Carvall/Folha de S. Paulo]

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