GUARDA-ME EM
TI
Raúl Zurita
Amor meu: guarda-me então em ti
nas torrentes mais secretas
que os teus rios levantam
e quando já de nós
só que de algo como uma margem
tem-me também em ti
guarda-me em ti como a interrogação
das águas que se vão
E depois: quando as grandes aves se
desmoronarem e as nuvens nos indicarem
que a vida nos escapou entre os dedos
guarda-me ainda em ti
no fio de ar que ainda ocupe a tua voz
dura e remota
como os leitos glaciais em que a primavera desce.
[Ilustração:
Leia também: A morte e a morte do amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra.html

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