23 outubro 2018

Manipulação & crise


Insanidade programada
Eduardo Bomfim

Seja qual for o resultado das eleições presidenciais o objetivo perseguido foi alcançado em vários aspectos. A nação em profundo desastre econômico, dezenas de milhões de desempregados, a crise social em estágio galopante, a quebra de setores industriais, empresas estatais fundamentais a um projeto soberano de desenvolvimento estratégico abatidas a pauladas ou seriamente danificadas.

A sociedade brasileira dividida em torno de uma guerra cultural entre “neoliberais multiculturalistas” versus “neoliberais antimulticulturalistas” enquanto as últimas pesquisas de opinião atestam que apenas 12% e 15% dos eleitores dos respectivos candidatos em disputa votam pensando em algum tipo de proposta como alternativa à própria realidade em que vivem.

Nem na rica, enfadada, bovina e pachorrenta Suíça do Primeiríssimo Mundo, a população dá-se a tamanho luxo e desperdício, de ignorar, nas eleições nacionais, os seus problemas centrais econômicos e sociais, para se estapear em uma Guerra Cultural propositalmente ideologizada.

Guerra Ideológica de conceitos e preconceitos que vêm sendo e serão inevitavelmente reduzidos a pó frente às necessidades do desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas em qualquer País significativo do planeta.

Principalmente quando essa Guerra Ideológica é um papel carbono das eleições norte-americanas passadas, literalmente transplantadas ao Brasil sem pagar pelo menos qualquer taxa de importação.

E de repente redescobriram o óbvio, porque já sabido e denunciado: as redes sociais são instrumentos de manipulação de todas as formas, especialmente através de interesses estratégicos internacionais geopolíticos e financeiros, já denunciava há alguns anos atrás o ex-espião da CIA Edward Snowden, citando como um dos alvos específicos o Brasil.

Quando Ciro Gomes, instado a meter-se até o pescoço nessa Guerra Cultural declarou que era candidato à presidência da República e não a “Fiscal de Costumes”, pouca gente percebeu o sentido dessa frase. Não sei nem se ele próprio percebeu a dimensão dela.

Nos anos sessenta passados, o presidente eleito Jânio Quadros resolveu iniciar a sua própria guerra cultural baixando, através de decretos, proibições como briga de galos, muito popular à época, e pasmem, o uso de biquínis nas praias do Brasil, transformando-se num profeta grotesco e felliniano da guerra atual entre multiculturalistas x antimulticulturalistas que incendeia de ódios as atuais eleições.

Com o objetivo de transformar candidatos palatáveis, marqueteiros buscam adequar candidatos multiculturalistas ferrenhos em “produtos” palatáveis ao gosto mais conservador de faixas do eleitorado, e vice-versa com os antimulticulturalistas. O efeito beira ao nonsense.

Enquanto isso o Brasil não discute os seus problemas fundamentais nas áreas de saúde, educação, a retomada fundamental do crescimento econômico sem o que nada se resolve, o narcotráfico transnacional que fez do País a sua escala global, daí a nossa gravíssima tragédia da segurança interna.

Não existe uma proposta que indique a retomada de um projeto nacional de desenvolvimento estratégico, de investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia de ponta, educação voltada aos rumos necessários, o combate às profundas desigualdades sociais etc. E se existe, ninguém percebeu ou se encontra no fundo das gavetas.

Não há clima de eleição democrática no País e nem poderia haver porque o objetivo não é democrático mas de uma Guerra Híbrida. Onde a política foi antecipadamente destruída através de corporações do Estado, que agem autonomamente à revelia dos interesses do Estado nacional, ou contra ele, e agora, essas mesmas corporações passam a ser elogiadas por todos.

A insanidade mental, quase esquizofrênica, em que o País mergulhou não é espontânea. Tem como objetivo a fratura da sociedade nacional em campos irreconciliáveis como se fosse uma guerra entre povos distintos e inimigos Históricos, seculares. E nada disso tem a ver com marxismo ou luta de classes.

Esse é o objetivo central da Guerra Híbrida em curso, contra as amplas liberdades democráticas, as nossas imensuráveis riquezas naturais, o papel geopolítico estratégico de nação continental, a quinta maior do planeta. Essa Guerra Híbrida vem sendo promovida especialmente pelo Mercado Financeiro, os megaespeculadores globais que agem em todo o mundo. E o País é um tesouro muito especial nessa pirataria internacional.

Mas o Brasil é inevitável. E vamos vencer essa batalha tremenda assim como superamos outros períodos dramáticos enquanto jovem nação. Faltam-nos lideranças, Estadistas à altura desse momento Histórico.

Mas a própria História indica que é da necessidade que surgem novas ideias e líderes à altura dos acontecimentos impostos aos povos. Até porque a Guerra Híbrida não vai se encerrar com estas eleições. Vem mais coisa por aí.

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A poesia e as cores da luta do povo

21 outubro 2018

Cobiça entreguista

Venezuela, por que Venezuela?

Luiz Carlos Azenha, em seu blog

A fixação de Bolsonaro com a Venezuela obedece a vários objetivos: oferecer o Brasil como plataforma de lançamento terrestre para os Estados Unidos rumo ao óleo da bacia do Orinoco; fixar a ofensiva diplomática no eixo Bogotá-Brasília; dar ao fascista um inimigo externo.
O inimigo externo é essencial para todo regime fascista.
Assim Bolsonaro pode atacar os inimigos internos como traidores da Pátria, associados a interesses estrangeiros.
Fica mais fácil entregar o pré-sal a “aliados” se a Pátria “corre risco” de ser contaminada pela Venezuela.
Portanto, quem pensa que essa ofensiva contra a Venezuela na campanha é coisa de estúpido, para tirar proveito de eleitores mal informados, é muito mais que isso.
No Brasil joga-se o xadrez geopolítico, com óbvios interesses de longo prazo de Washington.
Considerando que o principal objetivo da derrubada de Dilma Roussef, depois de ser espionada pela NSA, foi se apossar do pré-sal, a instalação de Bolsonaro como peão contra a Venezuela, em busca da maior reserva do planeta, na bacia do Orinoco, é a continuação natural do jogo.
Dizem que o petróleo da bacia do Orinoco, por ser pesado, não presta. Também diziam que o pré-sal não prestava, lembram-se? Agora, que está na mão das multinacionais, vale ouro!
Lembrando que é política de Estado dos norte-americanos, que independe do governo de turno, reduzir a dependência do país do petróleo do Oriente Médio, alcançando reservas mais próximas e mais fáceis de proteger militarmente — é só olhar o mapa para entender.
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Ao som dos tambores e clarins

Já são mais de 70 agremiações carnavalescas comprometidas em desfilarem hoje à tarde, em Olinda, em defesa da democracia. É o modo alegre de lutar, na melhor tradição do povo pernambucano. O ponto de encontro, a partir das 15h, será no Largo do Guadalupe.

Emocionado depoimento militante

Inamara Mélo
Carta aos meus familiares
Inamara Mélo, no Facebook

“Li não. Vou esperar virar filme”. Essas palavras ficaram dias ecoando em minha cabeça. Foram a resposta de um primo no zap a um texto sobre o risco de eleger um candidato que apoia a tortura. Depois de ver o noticiário, com as pesquisas eleitorais apontando que só um grande acontecimento será capaz de mudar o que parece ser o nosso destino, me peguei pensando que tudo isso um dia pode mesmo virar filme. E com certo medo, percebo que posso estar nele.

Já não tenho a ambição de mudar o voto de familiares que, para minha tristeza, se mostram convictos em sua preferência eleitoral. No entanto, senti uma enorme necessidade de saber se estes meus queridos familiares - aqui sem nenhuma ironia, pois são pessoas às quais nutro um grande afeto - se dão conta de que sou uma militante comunista. De que meu companheiro é dirigente nacional de um partido comunista. De que entre os nossos amigos, gente que frequenta a nossa casa, estão pessoas que foram presas e torturadas pelo regime militar. Trabalhamos juntos. Conhecemos sua integridade e a justeza de suas ideias. Comungamos com elas. Será que meus familiares desconhecem que o que aconteceu à gente como Alanir Cardoso não foi filme? Poderia ter sido... Alanir - ex-presidente estadual do PCdoB, sucedido justamente por meu companheiro - foi encapuzado, colocado dentro de uma veraneio por homens armados com metralhadoras e levado para os porões do DOI-CODI, no Recife, e depois para um quartel do Exército localizado em Brasília, locais em que durante 74 dias foi alvo de sessões de tortura, de choque elétrico a pau-de-arara. Viveu anos de uma rotina de sofrimento. No presídio na Ilha de Itamaracá, ficou preso por quatro anos e meio. O crime por ele cometido foi lutar pela democracia. Sabe o que ele, a sua companheira e outros camaradas que um dia foram perseguidos se diferem do que somos e pensamos? Apenas o momento...

Alguém pode dizer que estou apelando, pois no plano de governo de Bolsonaro não inclui a tortura. Ou que a sua eleição não significa que teremos de volta a ditadura. Sobre isso, pergunto: será mesmo que meu medo não tem razão de ser? Eu, comunista que sou, não deveria temer a eleição de um militar que exalta os torturadores e diz que o problema é que eles “deviam ter matado uns 30 mil ao invés de torturar”? Será mesmo que um militar, que diz que vai compor o governo com outros generais, tratará de se manter num regime democrático, respeitando os direitos civis de quem a ele se opuser? 

Com a curiosidade de quem busca entender, procurei ver o que estes meus familiares compartilham em suas redes sociais e o que justificaria o apoio destemido ao ex-capitão. Encontrei, num post de uma amada tia, de que são os infratores os que temem seu governo. Por isso, a ela me reporto aqui. Tia, não compactuo com o mal feito. Nem com a corrupção. Não faço parte de uma organização criminosa. Nestes onze anos de convivência com meu companheiro, do que mais me orgulho são a sua retidão e hombridade. Não somos infratores, nem defensores do mal, como as palavras por você publicadas nos fazem parecer. Somos gente solidária. Que preza pelo coletivo e pelo bem comum. Que respeita os outros e trabalha duro. Não entendo o comunismo como religião e muito menos sou seguidora do diabo. Acredito nos valores cristãos e tento praticá-los cotidianamente.

Hoje chego à conclusão de que o que fizemos de errado nossa vida inteira, eu e meus companheiros, foi não nos fazer entender. Há quase 20 anos participo de governos progressistas. Neles, nunca assisti nada que se parecesse a uma proposta de tornar o Brasil uma Venezuela. Vi, sim, muitos projetos que ajudaram a melhorar a vida do povo. Assisti também políticos de direita e de esquerda que erraram e se corromperam. Não em um partido, mas em vários. Pela TV, vi casos escandalosos de malas de dinheiro que infelizmente ficaram impunes. Sou mais uma brasileira a repudiar esse tipo de política. Mas como foi que o conceito de gênero, aceito e adotado pela ONU em acordos internacionais por 170 países para explicar tão somente as razões da opressão das mulheres, passou a ser tratado no Brasil como “ideologia de gênero”, como se em algum momento quiséssemos alterar a sexualidade das crianças? Trabalho na Secretaria da Mulher e nunca ouvi falar do kit gay.

Sabe, tia...Fico pensando o que sentiram as bruxas queimadas pela inquisição. Os judeus mortos na câmara de gás. Os políticos perseguidos pelo regime militar. Como eles devem ter se sentido incompreendidos e injustiçados! Todos eles tinham parentes que certamente choraram seus mortos... Parece um tempo distante, mas a história é cíclica. E em todos os períodos em que a humanidade misturou a religião ao poder do Estado, a razão foi suplantada pelo dogma. Do que lhe adianta dizer que simplesmente não existe nenhum projeto da esquerda que obriga as igrejas a casarem homossexuais? O tal projeto fala de um direito civil, não religioso. Você acha que eu não deveria tratar com respeito e dignidade uma pessoa homossexual? 

Não propomos estatizar os veículos de comunicação para proibir narrativas contrárias ao partido. Sou jornalista. Na Universidade a gente aprende que o jornalismo deveria buscar a imparcialidade, tentando traduzir para a opinião pública as diferentes opiniões de uma sociedade. Assim como acontece em outros países capitalistas. É isso que defendemos.

Meu texto já se alonga e não dei conta de pontuar tudo que me chamou atenção em sua timeline. Vejo-me na obrigação de pontuar apenas duas coisas: Assim como você, desejo ver o país livre de tantas injustiças. E não queremos criminalizar o cristianismo. Temos o maior orgulho por ser um deputado do meu partido o autor da Lei de liberdade de culto, escrita na Carta Magna em 1946, depois anexada ao Art. 5º da Constituição de 1988. Temos profunda convicção sobre a necessidade do respeito às mais diferentes religiões, assim como aos diferentes posicionamentos políticos, para o avanço da civilidade. Mas tenho muito medo de regimes onde o direito de pensar diferente não seja respeitado. 

Por isso não temos segurança sobre qual será o futuro com a eleição de Bolsonaro. Daqui a alguns anos, talvez possamos conversar sobre essa carta. Ou não, se essa história um dia virar filme e eu não puder assisti-lo com você.

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Hoje, agora

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Poesia sempre


Tuas mãos
Pablo Neruda

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

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