Não esqueçamos de Gaza
Ainda há tempo para que a
solidariedade humana salve os sobreviventes palestinos
Eloisa Vilela/Liberta
Mark
Perlmutter, judeu-americano, é cirurgião ortopédico e trabalhou em vários
hospitais da Faixa de Gaza durante o genocídio em curso. Recentemente, ele
relatou ter testemunhado o momento em que dois soldados israelenses enterraram
vivas duas crianças palestinas. O médico ouviu os gritos das crianças, debaixo
da terra, até elas se calarem e morrerem.
A
denúncia, além de dolorosa e profundamente revoltante, apesar de
monstruosamente real, é também uma metáfora. Quem escutou os gritos dos
palestinos por justiça, por humanidade, por direito à vida? E quem ouve, faz o
que com essa angústia, com esse desespero?
A
Voz de Hind Rajab, dirigido pela tunisiana Kaouther Ben
Hania, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2026. A voz da
menina de cinco anos pedindo socorro em Gaza correu o mundo. O carro de passeio
em que ela estava com os tios e quatro primos, em janeiro de 2024, foi alvo de 335
disparos de um tanque das tropas de ocupação. Durante mais de três horas, ela
pediu socorro pelo celular e os médicos do Crescente
Vermelho tentaram, desesperadamente, chegar a ela. Mas
também foram assassinados pelos soldados israelenses.
Apartheid
dos dias atuais
A
voz da pequena Hind deveria ecoar incessantemente em nossos ouvidos.
Agora,
no dia 15 de julho, o jovem prefeito de Nova York, Zohran Mandani, levantou a
própria voz e usou o cargo para fazer um apelo à sanidade durante o discurso de
abertura do Fórum Nelson Mandela de líderes mundiais. Sim, sanidade, porque não
se mexer diante das imagens que há quase três anos contínuos chocam a
humanidade só pode ser falta de equilíbrio mental básico. Coletivo. Mandani
falou diretamente da terra que financia o genocídio. O genocídio do presente,
bárbaro e descarado, e o lento e gradual, que se arrasta há décadas.
Conectando
Mandela, líder da luta contra o apartheid do passado, à necessidade de
desmontar o apartheid dos nossos dias, Mandani destacou que quase todo mundo
vai, no futuro, dizer que foi contra as injustiças que hoje são praticadas sem
cerimônia. “Mas a justiça não se mede pelo lugar que ocupamos depois que a
história já deu seu veredito. Ela se mede por onde estamos quando o veredito
ainda não foi entregue”. E prosseguiu:
–
Por que devemos esperar que outros mil pais enterrem seus filhos, até que
outros percam suas pernas e braços, suas casas, seu futuro, para que nos
juntemos para insistir pela liberdade dos palestinos? Por que o doutor Hussan
Abu Safiya espera por mais de 18 meses por liberdade num centro de
detenção israelense, depois que o mundo o viu ser sequestrado quando
deixou seu hospital e o vê definhando na prisão?
Mandani
fez o que outros políticos em posição de poder se recusam a fazer: cobrar ação
efetiva das lideranças mundiais e solidariedade e humanidade de todos nós. É
fácil, hoje, olhar as fotos dos campos de concentração nazistas e condenar o
Holocausto. Deveria ser ainda mais fácil condenar o genocídio palestino que não
se esconde. Pelo contrário, se exibe em mídias sociais com representantes do
atual governo de Israel festejando novas medidas para garantir o assassinato,
por enforcamento, dos palestinos presos indefinidamente nas masmorras do
colonizador terrorista.
O
mesmo doutor Perlmutter descreveu o que registrou como médico em Gaza.
Especialmente, o tratamento dado a médicos e enfermeiros do país, que faria
inveja aos torturadores da ditadura militar brasileira. Não apenas nos métodos
bárbaros que aplicam, mas no alcance, no número de vítimas.
Em
depoimento à Organização Árabe de
Direitos Humanos, na Grã-Bretanha, Perlmutter contou o que
escutou de médicos e enfermeiros em Gaza. Perdão pelos detalhes, mas um
enfermeiro foi arrancado da sala de cirurgia, preso e torturado, passou 45 dias
com os olhos vendados até ser levado para Khan
Yunis com feridas abertas e cheias de larvas. Um cirurgião
foi torturado, acusado de saber que o Hamas estava no porão do hospital onde
ele trabalhava. Um hospital que nem porão tinha. Mesmo assim, os soldados
usaram alicates para quebrar as pontas de todos os dedos desse cirurgião. E o
doutor Perlmutter viu as imagens dos exames de Raio X.
Genocídio em curso
Quando
estive na Cisjordânia, no segundo mês da descabida reação Israelense à
operação do Hamas, em 7 de outubro de 2023, visitei cidades e campos de
refugiados onde a população, apesar da vida difícil, do cerco permanente e do
controle total de deslocamentos e do acesso à comida e água, ainda respirava.
Conseguia mandar os filhos para a escola e formar toda uma geração que estava
mais do que preparada para assumir as rédeas de um futuro país.
Mas
todos os sinais já estavam evidentes. O genocídio em curso não iria se limitar
à Faixa de Gaza. A Cisjordânia não escaparia, como não escapou, da ganância por
terras e do total descaso pela vida palestina do governo de Netanyahu, já
declarado um criminoso de guerra.
A
minha observação, tornada pública naquela época, me assustava. Estávamos
assistindo a um verdadeiro teste da nossa humanidade, eu pensava e dizia
naquele novembro de 1923. O mundo não se levantou, não impediu a violência
extrema. Não ouviu os gritos das meninas enterradas vivas, de Hind Rajab e de
milhares de outras crianças. Fomos reprovados vergonhosamente na prova.
Mas
ainda há tempo para que a solidariedade humana proteja o que resta. Recolha os
cacos e salve a si e aos sobreviventes palestinos.
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comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html