14 setembro 2014

Uma crônica para descontrair

Bolero em chão de barro batido
Luciano Siqueira, no livro “O Vermelho é Verde-Amarelo”
 
Os festejos natalinos não tinham o colorido habitual nos duros dias de militância clandestina, no início dos anos 70. Longe de nossas famílias, disfarçávamos a saudade alimentando uma postura aparentemente severa e fria como convinha aos bons revolucionários. Porém, no íntimo, sentíamos muito, a sensibilidade à flor da pele, pronta para derramar emoção.
É o que aconteceu naquela noite próxima ao 25 de dezembro, na Levada, bairro miserável da região central de Maceió, à época, anos 70, citado na imprensa como detentor do índice mais elevado de mortalidade infantil do País. Na companhia de Oswald Barroso, hoje premiado poeta, dramaturgo e jornalista cearense, então dirigente regional do PCdoB, resolvemos jantar no “Bar e Restaurante Ideal”, tosco barraco de madeira sobre chão de barro batido. No cardápio, a sopa gordurosa acompanhada de meio pão francês e um café pequeno fraco e doce, acessível aos dois jovens comunistas que viajavam quase lisos. Nada mal para quem havia almoçado pão crioulo com caldo de cana na praia da Avenida.
Conversávamos em voz baixa, simulando naturalidade, os olhos atentos à porta de entrada: estaríamos sendo seguidos? Teríamos despertado a atenção de algum policial?
Mal começamos a nos servir, entra um motorista de ônibus, sacola a tira-colo, calça azul marinho e camisa branca, põe uma ficha na radiola e aos primeiros acordes do bolero Perfume de Gardênia na voz lancinante de Ângela Maria, convida a garçonete:
- “A senhorita me concede?”
- “Virgem! Tas metido a gente fina, homem?”
Movimentos graciosos no exíguo espaço disponível. Leveza. Os dois dançarinos bailam em grande estilo, quase flutuam.
Interrompemos a refeição, suspendendo nossa conversa conspirativa, deixando-nos embevecer pela performance da garçonete e do motorista, que nem astros de uma grande companhia de danças em deslumbrante ribalta. Percebendo o sucesso diante da diminuta platéia, sorriem felizes a exibir em suas faces vincadas pelo sofrimento a mais comovente alegria.
- Incrível como nosso povo consegue ser feliz numa situação dessas! - observa Oswald, os olhos marejados.
- Sim, fascinante, uma lição de vida. Imagine a festa que será a Revolução num país que tem um povo assim.
Impossível lembrar sobre o que conversávamos naquela noite. Permaneceu, porém, a convicção de que no drama ou na alegria há muito que aprender com o nosso povo. Basta observar. E ter a sensibilidade para perceber.

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