13 setembro 2014

Desfazendo inverdades

O dia em que os entrevistadores foram obrigados a se explicar para Dilma
Luis Nassif, em seu blog

Em geral, entrevistas com autoridades visam obrigar o entrevistado a sair da zona de conforto das afirmações não questionadas. Na entrevista de hoje, ocorreu o contrário: Dilma obrigou os colunistas do jornal a saírem da zona de conforto das afirmações reiteradas que, pela força da repetição - e da falta de contraponto -, tornaram-se verdades acabadas para seus leitores.
Além disso, entrevistas ao vivo reduzem o poder de manipulação da edição, do uso de frases tiradas do contexto.
Por exemplo:
Energia
Mostrou que o aumento da energia este ano está ligado à seca, a maior da história, não à redução tarifária imposta no ano passado.
Defendeu a revisão tarifária, pelo fato das usinas já estarem depreciadas. Se a renovação da concessão não é onerosa, não haveria porque incluir nas tarifas itens como depreciação - que a encareciam.
Rebateu a ideia de que a manutenção da oferta este ano tivesse qualquer ligação com as termelétricas construídas no período FHC.
Rebateu enfaticamente os que afirmaram que o setor elétrico está quebrado. Quebrado é quem não pode honrar seus compromissos. Não é o caso do setor elétrico que está com problemas apenas de descompasso de caixa.
Nenhum de seus argumentos foi rebatido, porque as críticas sempre focaram os pontos errados.
Na atual crise sobressaem as seguintes questões:
Coloca em xeque o modelo elétrico desenvolvido pela própria Dilma, enquanto Ministra das Minas e Energia. Pelo modelo há contratos de longo prazo e o mercado à vista. Quando a geradora não consegue entregar a energia combinada, tem que ir no mercado à vista se suprir. Em tempos de escassez profunda de água, como o atual, há uma explosão no mercado à vista que desequilibra financeiramente o sistema. Esse mecanismo precisa ser revisto.
O erro da renovação dos contratos de concessão não estava no conceito mas no valor arbitrado para a antecipação dos contratos. As companhias estaduais não aceitaram. A Eletrobras foi obrigada a engolir e, com isso, o governo feriu gravemente um dos grandes pilares de investimento no setor.
Além disso, não há clareza suficiente, no novo modelo, sobre o que é de responsabilidade da concessionária e do governo.
Casamento homossexual
Mais claro, impossível.
O governo é a favor da criminalização da homofobia, do casamento civil homossexual, da união estável e da adoção. Mas só pode arbitrar na parte que lhe cabe: os contratos civis.
Na condição de Estado laico, não compete ao governo interferir no casamento religioso, que depende de cada religião. A César o que é de César... Algo tão óbvio e que tem sido mascarado nas manchetes de jornais.
Reajuste de combustíveis
Dilma mostrou que nos seu governo, o reajuste do preço da refinaria foi superior ao do IPCA no período.
Quando se levantou o bordão de que os preços internos de combustível teriam que acompanhar os preços internacionais, liquidou a questão com o caso norte-americano do gás de xisto. Nos Estados Unidos, cobram-se US$ 4 dólares; no mercado internacional, é US$ 12 a US$ 15. Por que não se igualam os preços? Porque a prioridade é a recuperação da indústria siderúrgica e da petroquímica norte-americana, garantindo empregos e recuperação da economia.
Ninguém contraditou seus argumentos.
A questão central sequer foi abordada: a análise do fluxo de caixa da Petrobras versus os compromissos assumidos com o pré-sal.
Sobre as CPIs
Pretender que a presidente responda pela ineficácia das CPIs é demais. Lembra o filho de uma amiga que, cada vez que o carro para em um semáforo, brada: "É culpa da Dilma!". Assim como na cobrança sobre o apoio de Sarney e Collor, parece faltar aos jornalistas a noção sobre independência dos poderes, sobre as atribuições do presidente da República.
Os jornalistas - velhas raposas políticas - sabem disso. Mas sabem que atribuir tudo à presidente tem eficácia junto aos leitores. Desde que a presidente não esteja ao vivo para rebater. A resposta foi óbvia. As CPIs tem na maior parte das vezes apenas interesses políticos. A oposição é representada. E não cabe à presidente interferir em outro poder.
Destaque para o tratamento respeitoso conferido à entrevista, sem os bordejos televisivos, de muito jogo de cena agressivo e pouco conteúdo.

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