21 novembro 2019

Cena política


Por onde podemos ir?
Luciano Siqueira

Miguel Arraes — com quem convivi politicamente por 24 anos — costumava sintetizar uma ideia em frase curta:

— Não é por aí, para manifestar discordância.

Ou concluindo a defesa de uma determinada opção tática:

— É por aí.

Fosse vivo certamente encararia a atual situação do país com um misto de preocupação e sagacidade tática.

Em quase 60 anos de vida pública, o ex-governador de Pernambuco sempre pautou sua conduta por uma firme percepção da centralidade da soberania nacional e uma enorme sensibilidade para com os problemas que afligem o cotidiano do nosso povo.

Contrastando com o jeito simples de se portar e de falar, era um intelectual, estudioso dos problemas geopolíticos e atento a inovações tecnológicas que pudessem ser postas a serviço da melhoria das condições de vida da população.

Sempre foi um homem de frente, ou seja, na resistência à ditadura militar e quando se elegeu prefeito do Recife e governador de Pernambuco (por três vezes) viabilizou o êxito eleitoral através de ampla e diversificada conjugação de forças.

Certamente uma boa referência para todos nós que, no campo democrático, resistimos ao governo de extrema direita do capitão Bolsonaro e à onda conservadora que contamina a sociedade brasileira.

Diante de tão grave situação, nada mais primário do que condutas exclusivistas na construção de projetos eleitorais, mirando o pleito do ano que vem e o provável embate presidencial de 2022.

Aos que detém alguma fatia de poder nos planos estadual e municipal não se pode negar o bom exercício da hegemonia — que implica incessante diálogo e consideração devida dos interesses e do papel dos aliados.

Hegemonia se conquista e se afirma na pluralidade e na amplitude; enquanto o “hegemonismo” é o caminho mais curto para a perda da hegemonia.

Se é certo que eleições municipais são por natureza dispersivas — porque estimulam naturalmente candidaturas majoritárias próprias (e agora mais ainda para favorecer a formação de chapas competitivas às câmaras municipais, sob legislação impeditiva de coligações), isto não quer dizer necessariamente que coalizões pré-existentes sejam desfeitas e se instale como irrevogável a linha do “cada um por si”.

Entre os pleitos de 2020 e 2022 há uma resistência imediata que requer convergência e robustez, sob pena de um avanço rápido da agenda ultraliberal que atropela os direitos do povo, o estado democrático e a soberania do país.

Por enquanto, pelo comportamento dos principais partidos de oposição na esfera nacional, a dispersão tende a ser a regra e a convergência, a exceção.

Como diria Miguel Arraes, não deve ser por aí. E ainda há tempo para convergências.

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