07 março 2026

Trump base dividida

Ataque contra irã abre mal-estar na base radical do trumpismo 
Ultraconservadores cobram promessa eleitoral do presidente de não envolver EUA em guerras
Jamil Chade/Liberta    

 

Donald Trump passou parte de sua campanha prometendo que, se vencesse as eleições de 2024, ele iria retirar os EUA de conflitos pelo mundo. Ganhou o apoio de milhares de americanos que acreditavam que seu país não deveria ser a “polícia do mundo”. Agora, diante de mais uma guerra – desta vez no Irã –, o republicano está sendo obrigado a iniciar uma verdadeira campanha de sedução para tentar convencer seu eleitorado mais radical de que sua operação militar faz sentido.

Desde o último fim de semana, porém, o movimento ultraconservador nos EUA foi tomado por um profundo mal-estar. Talvez um dos sinais mais claros disso tenha sido a ofensiva de Tucker Carlson, um podcaster de extrema direita, para convencer a Casa Branca a não ir à guerra. Em apenas um mês, ele se reuniu com Trump três vezes no Salão Oval e fez um apelo: “Você precisa se opor a Israel, ou você será destruído e o país também”.

O alerta ecoa, principalmente, num momento delicado para Trump, com as eleições legislativas no final do ano indicando que ele poderia perder sua maioria no Congresso.

Teste de lealdade

As pesquisas de opinião também revelam que o país não quer uma nova guerra. Um mês antes dos ataques, um levantamento do site Politico indicou que 45% dos americanos disseram que os EUA não deveriam tomar medidas militares contra o Irã.  Menos de um terço, 31%, disse que deveriam.

Entre os apoiadores de Trump, uma maioria de 61% dos eleitores do republicano chancelaram a ofensiva. Mas isso ocorreu antes da constatação de que o Irã resistiria e responderia com ataques e mortes contra americanos.

Uma nova pesquisa conduzida pela The Economist/YouGov e realizada no último fim de semana também constatou ampla oposição pública à ação militar contra o Irã. Entre os democratas, a rejeição ao ataque chegava a 76% dos entrevistados.

Mas é dentro do movimento ultraconservador e no Partido Republicano que a batalha será travada. Para muitos, Trump irá colocar a teste a lealdade de seus apoiadores, principalmente de candidatos no Congresso que precisam garantir votos de seus distritos e hoje enfrentam duras questões de seus eleitores.

Para os analistas dentro do movimento conversador, será a duração do conflito que irá determinar o apoio ou não ao presidente. Se caixões com soldados americanos se proliferarem e se a guerra se arrastar, o impacto pode ser importante.

Outro indício é a insatisfação do eleitorado diante do que acredita ser um foco exagerado de Trump com a política externa. Numa outra pesquisa realizada pelo site Politico, em fevereiro, 47% dos americanos se queixaram da pouca atenção dada por Trump a assuntos domésticos.

Não ajudou o fato de que, por dias, o governo Trump não explicou o motivo pelo qual a guerra foi lançada contra o Irã. Na última segunda-feira, uma fala de Marco Rubio, secretário de Estado, ampliou as críticas. Ele sugeriu que a entrada dos EUA na guerra ocorreu por conta da informação que tinham recebido de que Israel atacaria Teerã. Ou seja, Washington teria sido tragada para a guerra por Benjamin Netanyahu.

“Sabíamos que haveria uma ação israelense” contra o Irã, disse Rubio a repórteres no Capitólio, na segunda-feira (2/2). “Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas” pelo regime iraniano. “E sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas… E então estaríamos todos aqui respondendo a perguntas sobre por que sabíamos disso e não agimos”, continuou Rubio.

Para muitos na base trompista, isso vai na contramão de um dos princípios e slogans do movimento MAGA: “America First (America Primeiro)”.

Momento de choque

Nas redes sociais, a indignação foi explícita. Matt Walsh, do The Daily Wire, escreveu no X: “Então, ele está nos dizendo abertamente que estamos em guerra com o Irã porque Israel nos forçou a isso. Esta é, basicamente, a pior coisa que ele poderia ter dito.”

Mike Cernovich, uma figura proeminente pró-Trump nas redes sociais, qualificou a fala de Rubio como “um momento de choque”. “Ele disse o que a maioria já suspeitava. O fato de ele ter dito isso em voz alta representa uma mudança radical na política externa. Haverá muitos pedidos para que ele recue”, disse.

Megyn Kelly, apresentadora e comentarista política, disse que tem “sérias dúvidas sobre o que estamos fazendo”. Erik Prince, fundador da empresa de segurança Blackwater e um importante doador da campanha de Trump, alertou que a decisão “abriria uma caixa de Pandora de caos e destruição”.

O ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, expressou perplexidade em seu podcast War Room. “Se sabíamos que Israel atacaria e o Irã retaliaria contra nós, onde estava a coordenação?”, questionou Bannon. “Precisamos de uma explicação estratégica.”Nick Fuentes, o influente nacionalista branco que se opõe a Trump por seu apoio a Israel, escreveu no domingo: “Esta é uma guerra de agressão contra Israel.  (…) Americanos morrerão em ataques terroristas e em ataques com mísseis para que Israel possa expandir suas fronteiras em todas as direções. Trump, Vance e Rubio nos traíram”, disse Fuentes.

A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que chegou a ser uma aliada de Trump, denunciou a incoerência da Casa Branca. “O governo Trump realmente perguntou em uma pesquisa quantas baixas os eleitores estariam dispostos a aceitar em uma guerra com o Irã??? Que tal ZERO, seus mentirosos doentes? Nós votamos por ‘América Primeiro’ e ZERO guerras”, disse ela, nas redes sociais.

Ela ainda denunciou os ataques contra uma escola de meninas no Irã, que deixou 165 mortos. “Eu não votei nisso, nem nas eleições, nem no Congresso. Isso é de partir o coração e uma tragédia. E quantos inocentes mais morrerão? E quanto aos nossos militares? Não era isso que pensávamos que o MAGA representava. Que vergonha!”.

Para ela, o movimento MAGA chegaria ao fim se Trump atacasse o Irã.

O mal-estar na base trompista ainda ficou escancarado quando a ex-deputada chamou Laura Loomer, aliada de Trump, de “puta” nas redes sociais por conta de sua posição no Irã.

Conhecida islamofóbica, Loomer publicou que “Trump entrará para a história como um protetor da humanidade. Espero que este seja o início de sua repressão ao Islã no Ocidente.”

Não faltaram também vozes da ultradireita recuperando o posicionamento de Charlie Kirk, morto no final do ano passado. Em 17 de junho de 2025, Kirk descreveu a ideia de “mudança de regime” como “patologicamente insana”.

A frase ecoa ainda neste momento pelos movimentos mais reacionários dos EUA, para desespero de Trump.

Por tarifas, Trump admite que EUA estão quebrados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/eua-imbroglio-finaneiro.html

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