Ataque contra irã abre mal-estar na base radical do
trumpismo
Ultraconservadores cobram promessa eleitoral do presidente de
não envolver EUA em guerras
Jamil
Chade/Liberta
Donald Trump
passou parte de sua campanha prometendo que, se vencesse as eleições de 2024,
ele iria retirar os EUA de conflitos pelo mundo. Ganhou o apoio de milhares de
americanos que acreditavam que seu país não deveria ser a “polícia do mundo”.
Agora, diante de mais uma guerra – desta vez no Irã –, o republicano está sendo
obrigado a iniciar uma verdadeira campanha de sedução para tentar convencer seu
eleitorado mais radical de que sua operação militar faz sentido.
Desde o último
fim de semana, porém, o movimento ultraconservador nos EUA foi tomado por um
profundo mal-estar. Talvez um dos sinais mais claros disso tenha sido a
ofensiva de Tucker
Carlson, um podcaster de extrema direita, para convencer a Casa
Branca a não ir à guerra. Em apenas um mês, ele se reuniu com Trump três vezes
no Salão Oval e fez um apelo: “Você precisa se opor a Israel, ou você será
destruído e o país também”.
O alerta ecoa,
principalmente, num momento delicado para Trump, com as eleições legislativas
no final do ano indicando que ele poderia perder sua maioria no Congresso.
Teste
de lealdade
As pesquisas
de opinião também revelam que o país não quer uma nova guerra. Um mês antes dos
ataques, um levantamento do site Politico indicou que 45% dos americanos
disseram que os EUA não deveriam tomar medidas militares contra o Irã.
Menos de um terço, 31%, disse que deveriam.
Entre os
apoiadores de Trump, uma maioria de 61% dos eleitores do republicano
chancelaram a ofensiva. Mas isso ocorreu antes da constatação de que o Irã
resistiria e responderia com ataques e mortes contra americanos.
Uma nova pesquisa
conduzida pela The
Economist/YouGov e realizada no último fim de semana também
constatou ampla oposição pública à ação militar contra o Irã. Entre os
democratas, a rejeição ao ataque chegava a 76% dos entrevistados.
Mas é dentro
do movimento ultraconservador e no Partido Republicano que a batalha será
travada. Para muitos, Trump irá colocar a teste a lealdade de seus apoiadores,
principalmente de candidatos no Congresso que precisam garantir votos de seus
distritos e hoje enfrentam duras questões de seus eleitores.
Para os
analistas dentro do movimento conversador, será a duração do conflito que irá
determinar o apoio ou não ao presidente. Se caixões com soldados americanos se
proliferarem e se a guerra se arrastar, o impacto pode ser importante.
Outro indício
é a insatisfação do eleitorado diante do que acredita ser um foco exagerado de
Trump com a política externa. Numa outra pesquisa realizada pelo site Politico,
em fevereiro, 47% dos americanos se queixaram da pouca atenção dada por Trump a
assuntos domésticos.
Não ajudou o
fato de que, por dias, o governo Trump não explicou o motivo pelo qual a guerra
foi lançada contra o Irã. Na última segunda-feira, uma fala de Marco Rubio,
secretário de Estado, ampliou as críticas. Ele sugeriu que a entrada dos EUA na
guerra ocorreu por conta da informação que tinham recebido de que Israel
atacaria Teerã. Ou seja, Washington teria sido tragada para a guerra por
Benjamin Netanyahu.
“Sabíamos que
haveria uma ação israelense” contra o Irã, disse Rubio a repórteres no
Capitólio, na segunda-feira (2/2). “Sabíamos que isso precipitaria um ataque
contra as forças americanas” pelo regime iraniano. “E sabíamos que, se não os
atacássemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos mais
baixas… E então estaríamos todos aqui respondendo a perguntas sobre por que
sabíamos disso e não agimos”, continuou Rubio.
Para muitos na
base trompista, isso vai na contramão de um dos princípios e slogans do
movimento MAGA: “America First (America Primeiro)”.
Momento
de choque
Nas redes
sociais, a indignação foi explícita. Matt Walsh, do The Daily Wire, escreveu no
X: “Então, ele está nos dizendo abertamente que estamos em guerra com o Irã
porque Israel nos forçou a isso. Esta é, basicamente, a pior coisa que ele
poderia ter dito.”
Mike
Cernovich, uma figura proeminente pró-Trump nas redes sociais, qualificou a
fala de Rubio como “um momento de choque”. “Ele disse o que a maioria já
suspeitava. O fato de ele ter dito isso em voz alta representa uma mudança
radical na política externa. Haverá muitos pedidos para que ele recue”, disse.
Megyn Kelly,
apresentadora e comentarista política, disse que tem “sérias dúvidas sobre o
que estamos fazendo”. Erik Prince, fundador da empresa de segurança Blackwater
e um importante doador da campanha de Trump, alertou que a decisão “abriria uma
caixa de Pandora de caos e destruição”.
O ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, expressou
perplexidade em seu podcast War Room. “Se sabíamos que Israel atacaria e o Irã
retaliaria contra nós, onde estava a coordenação?”, questionou Bannon.
“Precisamos de uma explicação estratégica.”Nick Fuentes, o influente
nacionalista branco que se opõe a Trump por seu apoio a Israel, escreveu no
domingo: “Esta é uma guerra de agressão contra Israel. (…) Americanos
morrerão em ataques terroristas e em ataques com mísseis para que Israel possa
expandir suas fronteiras em todas as direções. Trump, Vance e Rubio nos
traíram”, disse Fuentes.
A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que
chegou a ser uma aliada de Trump, denunciou a incoerência da Casa Branca. “O
governo Trump realmente perguntou em uma pesquisa quantas baixas os eleitores
estariam dispostos a aceitar em uma guerra com o Irã??? Que tal ZERO, seus
mentirosos doentes? Nós votamos por ‘América Primeiro’ e ZERO guerras”, disse
ela, nas redes sociais.
Ela ainda denunciou os ataques contra uma escola de
meninas no Irã, que deixou 165 mortos. “Eu não votei nisso, nem nas eleições,
nem no Congresso. Isso é de partir o coração e uma tragédia. E quantos
inocentes mais morrerão? E quanto aos nossos militares? Não era isso que
pensávamos que o MAGA representava. Que vergonha!”.
Para ela, o movimento MAGA chegaria ao fim se Trump
atacasse o Irã.
O mal-estar na base trompista ainda ficou
escancarado quando a ex-deputada chamou Laura Loomer, aliada de Trump, de
“puta” nas redes sociais por conta de sua posição no Irã.
Conhecida islamofóbica, Loomer publicou que “Trump
entrará para a história como um protetor da humanidade. Espero que este seja o
início de sua repressão ao Islã no Ocidente.”
Não faltaram também vozes da ultradireita
recuperando o posicionamento de Charlie Kirk, morto no final do ano passado. Em
17 de junho de 2025, Kirk descreveu a ideia de “mudança de regime” como
“patologicamente insana”.
A frase ecoa ainda neste momento pelos movimentos
mais reacionários dos EUA, para desespero de Trump.
Por tarifas, Trump admite que EUA estão quebrados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/eua-imbroglio-finaneiro.html

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