8 de Março: a
verdadeira origem da data que celebra as mulheres
Depois da chegada dos bolcheviques ao poder, o dia
internacional de luta das mulheres foi oficializado entre os soviéticos como o
que deu início ao processo revolucionário. Em 1975, a data foi reconhecida
também pela ONU.
Portal Vermelho
Se você já participou de alguma conversa sobre o
que originou o dia internacional de luta das mulheres, provavelmente já ouviu a
história de que surgiu em homenagem a trabalhadoras estadunidenses que, em
greve, foram trancadas dentro de uma fábri ca têxtil em chamas.
Houve greve e houve incêndio, mas a versão – que às
vezes remete a 1857, às vezes a 1908 – de que seria esse o embrião do 8 de
março é falsa. O dia internacional foi proposto pela primeira vez em um evento
que reuniu mul heres socialistas de todo o mundo em 1910, na Dinamarca.
As origens que consolidaram o 8 de março, no
entanto, não se explicam apenas com esse marco. Elas estão conectadas com uma
série de eventos históricos relacionados à luta de mulheres da classe
trabalhadora na Rússia, nos Estados Un idos e em países europeus no início do
século 20.
O incêndio na fábrica têxtil de Nova Iorque
Era sábado à tarde, 25 de março de 1911, quando a
Triangle Shirtwaist Company, na esquina das ruas nova-iorquinas Greene e
Washington Place, pegou fogo. Já fazia um ano que o dia internacional de luta
das mulheres havia sido proposto, na capital dinama rquesa. De acordo com a
socióloga Eva Blay no artigo “8 de março: conquistas e controvérsias”, a
fábrica empregava 600 pessoas, em sua maioria mulheres imigrantes de 13 a 23
anos.
Com algumas portas trancadas e um ambiente com
tecidos e chão de madeira, facilitando a propagação do fogo, muitas pessoas não
conseguiram escapar. O saldo foi de 125 mulheres e 21 homens mortos. “A comoção
foi imensa. No dia 5 de a bril houve um grande funeral coletivo que se
transformou numa demonstração trabalhadora. Apesar da chuva, cerca de 100 mil
pessoas acompanharam o enterro”, narra Blay. Hoje, o local onde houve o
incêndio é a Universidade de Nova Iorque.
A greve e o “Dia da Mulher” nos EUA
Na ocasião do incêndio da Triangle Shirtwaist
Company, que repercutiu de maneira a fortalecer sindicatos estadunidenses, as
trabalhadoras não estavam em greve. Esse mito é, na realidade, a mistura de
dois fatos que aconteceram pouco tempo antes. Em nove mbro de 1909 foi feita
uma greve de trabalhadoras da indústria têxtil de Nova Iorque, que durou até
fevereiro do ano seguinte e também ficou conhecida como “o levante das 20
mil”.
Uma de suas lideranças, na época com 23 anos, foi a
ativista ucraniana e judia Clara Lemlich. Ela participou da diretoria do
histórico sindicato International Ladies Garment Workers (União Internacional
de Mulheres da Indústria Têxtil), um dos maiores dos EUA e o primeiro do país
composto somente por mulheres.
No ano anterior, em fevereiro de 1908, mulheres
socialistas dos Estados Unidos organizaram uma manifestação por melhores
condições de trabalho e pelo direito ao voto. O ato foi chamado de “Dia da
Mulher”. Em 1909 repetiram a passeata que, s egundo Blay, reuniu duas mil
pessoas em Manhattan. Possivelmente essa experiência influenciaria a proposta
de uma data internacional unificada entre as socialistas, que seria aprovada em
1910 na Dinamarca.
O Congresso das Mulheres Socialistas em 1910
Foi em Copenhagen, durante o 2º Congresso
Internacional de Mulheres Socialistas, que se formalizou a ideia de um dia para
a realização de atos em defesa dos direitos das mulheres em escala global.
Figura central sempre atrelada à proposição do 8 de março é a marxista alemã
Clara Zetkin. Dentro do movimento operário, Zetkin se dedicava à luta pelo que
na época se chamava de “igualdade entre os sexos”. Daí o nome Igualdade com
o qual foi batizada a revista por ela fundada e dirigida ao longo de 16 anos.
O documento que propôs o “Dia da mulher”,
ratificado pelas congressistas em 1910, é assinado por Zetkin, mas também pela
menos conhecida Käte Duncker. Ambas militavam juntas no Partido Comunista
Alemão. “As mulheres socialistas de todas as nacionalidades devem organizar a cada
ano um Dia da Mulher, que deve promover, acima de tudo, a agitação pelo
sufrágio feminino”, propuseram Zetkin e Duncker. “O Dia da Mulher deve ter
caráter internacional e ser preparado cuidadosamente”, escreveram.
A ideia foi aceita, mas ainda sem data definida.
De acordo com Ana Isabel González no livro As Origens e a Comemoração
do Dia Internacional das Mulheres (editora
Expressão Popular), o 8 de março aconteceu internacionalmente pela primeira vez
em 1914, na Alemanha, na Suécia e na Rússia.
O impulso da Revolução Russa
Mas foi em 1917, em meio a 1ª Guerra Mundial, que o
dia de luta das mulheres tomou outras proporções. Em 8 de março daquele ano (23
de fevereiro no calendário Juliano, que vigorava na Rússia czarista), russas
tecelãs e familiares de soldados do exército tomaram as ruas de Petrogrado
(hoje São Petersburgo).
A despeito do inverno congelante, marcharam por
“pão e paz”, reivindicando o fim da guerra, denunciando a fome que assolava o
país e convocando o operariado russo a derrubar a monarquia. Convocando mesmo:
batendo nas fábricas de porta em porta.
A mobilização se alastrou. Depois da chegada dos
bolcheviques ao poder, o dia internacional de luta das mulheres foi
oficializado entre os soviéticos como o que deu início ao processo revolucionário.
Em 1975, a data foi reconhecida também pela ONU.
Hoje
Mais de um século depois,
para alguns o 8 de março é, como publicidades insistem em veicular, um dia para
dar uma flor, um presente ou dizer “parabéns” a uma mulher. As lutas
antissistêmicas da data, no entanto, não são esquecidas. Ao contrário: em todo
o planeta, elas são atualizadas de acordo com os (não menores) desafios destes
tempos.
8
de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html

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