Raimundo Rodrigues Pereira, presente!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Uma amizade de cinco
décadas alimentada a conta-gotas, muito menos pela frequência (esporádica) com
que nos víamos, mais pela dimensão do diálogo em nossos encontros — de 1977 a
anos recentes.
Ex-preso político
empenhado na reorganização do PCdoB em Pernambuco e próximo da conclusão do
curso médico, tornei-me responsável pela sucursal do jornal Movimento em
momento de efervescência política: a anistia, o retorno de Miguel Arraes,
Francisco Julião e outros tantos exilados, os primeiros impulsos do movimento
sindical que se reorganizava, as batalhas travadas pelo então MDB nas últimas
eleições sob a ditadura...
Algumas vezes, em
reunião do jornal em São Paulo e semanalmente por correspondência, a partir do
copião que enviava dando conta dos fatos mais relevantes cá na província, que
poderiam ou não, a critério do editor Raimundo, ensejar matérias.
Nos anos que se
seguiram, aqui e acolá nos vimos em diversas circunstâncias.
Aparecia
esporadicamente em Pernambuco para contatos políticos, oportunidade em que nos
encontrávamos.
Algumas vezes, o
governador Miguel Arraes me convidou para almoço com Raimundo.
— Vamos conversar,
dizia Arraes.
— De que se trata?
— Deve ser um
projeto novo dele...
Sim, bem sabemos,
Raimundo persistiu em projetos sucessivos: após Opinião e Movimento,
Retrato do Brasil, Editora Manifesto...
Também aconteceu da
mesma forma, anos depois, com o governador Eduardo Campos: almoço em palácio
para ouvir Raimundo.
Numa das vezes,
tratava-se de reportagem em construção sobre a privatização da água nos centros
urbanos. Terminado o almoço, nos despedimos e ele permaneceu para uma primeira
entrevista com o engenheiro João Bosco, presidente da Companhia Pernambucana de
Saneamento, trazido à nossa presença pelo governador.
Quando vice-prefeito
do Recife, reservava um expediente inteiro para recebê-lo, manhã ou tarde.
Cabia tudo: literatura, imprensa e, naturalmente, a conjuntura política.
Numa das
oportunidades, promovemos um debate público no auditório da Prefeitura em que
ele discorreu sobre a situação política no mundo e no Brasil.
Para mim sempre um
aprendizado. Concordando ou eventualmente divergindo, impressionava o absoluto
rigor com que ele tratava as informações no exercício do jornalismo.
Na epidemia do Zika vírus (2015-2016), a seu pedido, consegui que fosse recebido no Instituto
Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), hoje Instituto de Medicina Integral
Professor Fernando Figueira, para entrevistas com um núcleo de pesquisadores.
Mais de um mês após
me enviou por e-mail a primeira versão da reportagem contendo a ausculta de
especialistas de vários centros de pesquisa e lavrada com a rigorosa
objetividade de sempre.
Nos anos recentes
não tivemos mais contato, mas em inúmeras oportunidades me referi às nossas
conversas e, sobretudo, à histórica aventura do jornal Movimento.
Como escreveu Carlos
Azevedo no Portal Grabois, Raimundo morreu! Raimundo vive!
*Texto da minha coluna semanal no Portal Vermelho
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