A Copa do Mundo agora e no
passado
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Esquisito o que experimento agora em relação à Copa do Mundo de futebol:
em nada me entusiasma e ao mesmo tempo não encontro termos de comparação com
torneios passados.
A esquisitice está é precisamente no fato de que gosto e sempre gostei
de futebol e cheguei a vibrar em momentos ímpares da seleção canarinho.
Sabia de memória a escalação do nosso escrete nas cinco vezes em que
ganhou a taça e em outras tantas não bem sucedidas. Agora, lembro o time de
1958 e o de 1970. Não mais do que isso.
Não sou dado a mergulhar na própria alma na busca de explicação para
fenômenos assim. A memória é por natureza criativa, segundo a escritora Nélida Piñón, autora de festejada
obra do gênero.
Em todo caso, ainda sou capaz de recordar com razoável grau de precisão
jogos marcantes — como o Brasil 4 x1 Checoslováquia, em 1970, que assisti juntamente
com o camarada Rui Frazão, na Praça Moleque Namorador, em Maceió, em aparelho de
TV destinado ao numeroso público.
Também a partida final, quando o Brasil derrotou a Itália por 4 a 1 e
sagrou-se campeão, que vi novamente com o camarada Rui e meu irmão Airton, na
casa da minha mãe no bairro de San Martin, Recife — cometendo certa indisciplina
em matéria de segurança, pois já vivia a militância clandestina, sob a ditadura
militar.
Agora, até que me esforcei, mas não me emocionei, no jogo contra o
Marrocos, em que empatamos por 1 X 1, correndo risco de perder; e nos 3 a 0
sobre o Haiti, sem nenhum brilho.
Estranho é que costumo ver na TV alguns dos melhores jogos do campeonato
brasileiro da série A e, sempre que posso, partidas da Premier League inglesa.
Por puro deleite.
Se nesse instante estivesse sob cuidados psicanalíticos — nunca estive
—, certamente teria por onde compreender essa incrível incompatibilidade de
gênios entre mim e a celebrada maior Copa do Mundo de futebol de todos os
tempos.
Nelson Rodrigues dizia que a seleção brasileira era a pátria de
chuteiras. Sem tamanho exagero, prometo me esforçar no cumprimento do dever
patriótico de ver os próximos jogos com algum interesse e, quem sabe, um pingo
de emoção.
[Ilustração: Candido Portinari]
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