22 junho 2026

Minha opinião

A Copa do Mundo agora e no passado 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Esquisito o que experimento agora em relação à Copa do Mundo de futebol: em nada me entusiasma e ao mesmo tempo não encontro termos de comparação com torneios passados.

A esquisitice está é precisamente no fato de que gosto e sempre gostei de futebol e cheguei a vibrar em momentos ímpares da seleção canarinho.

Sabia de memória a escalação do nosso escrete nas cinco vezes em que ganhou a taça e em outras tantas não bem sucedidas. Agora, lembro o time de 1958 e o de 1970. Não mais do que isso. 

Não sou dado a mergulhar na própria alma na busca de explicação para fenômenos assim. A memória é por natureza criativa, segundo a escritora Nélida Piñón, autora de festejada obra do gênero. 

Em todo caso, ainda sou capaz de recordar com razoável grau de precisão jogos marcantes — como o Brasil 4 x1 Checoslováquia, em 1970, que assisti juntamente com o camarada Rui Frazão, na Praça Moleque Namorador, em Maceió, em aparelho de TV destinado ao numeroso público.

Também a partida final, quando o Brasil derrotou a Itália por 4 a 1 e sagrou-se campeão, que vi novamente com o camarada Rui e meu irmão Airton, na casa da minha mãe no bairro de San Martin, Recife — cometendo certa indisciplina em matéria de segurança, pois já vivia a militância clandestina, sob a ditadura militar. 

Agora, até que me esforcei, mas não me emocionei, no jogo contra o Marrocos, em que empatamos por 1 X 1, correndo risco de perder; e nos 3 a 0 sobre o Haiti, sem nenhum brilho. 

Estranho é que costumo ver na TV alguns dos melhores jogos do campeonato brasileiro da série A e, sempre que posso, partidas da Premier League inglesa. Por puro deleite.

Se nesse instante estivesse sob cuidados psicanalíticos — nunca estive —, certamente teria por onde compreender essa incrível incompatibilidade de gênios entre mim e a celebrada maior Copa do Mundo de futebol de todos os tempos.

Nelson Rodrigues dizia que a seleção brasileira era a pátria de chuteiras. Sem tamanho exagero, prometo me esforçar no cumprimento do dever patriótico de ver os próximos jogos com algum interesse e, quem sabe, um pingo de emoção.

[Ilustração: Candido Portinari]

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