07 junho 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

No embaralhar da vida
Abraham B. Sicsu    

Não, não quero falar de política. Nem, também, das contradições de uma sociedade desigual e contraditória. Meu tema é outro. Ligado ao cotidiano. Coincidências que confundem, que vão esgarçando os princípios que nos orientam, que tornam a vida mais complexa.Velho gosta de tudo previsto, nada de surpresas, nada de situações inusitadas. Algo fora de lugar, ou que exija novas iniciativas, o atordoam, o deixam “aperreado”.

Tornam a vida um problema, um inferno a ser enfrentado, mesmo que sejam apenas coisas pontuais, que têm boas perspectivas para serem resolvidas, de solução previsível.

Pior, quando o ritmo de solução não depende de nós, quando se é obrigado a esperar que o outro tome uma atitude, assuma a dianteira. Isso é terrível, angustiante, aguardar o outro traz um sufoco nada suportável.

Tive que fazer uma retificação na minha declaração de imposto. Todos os dias abro o computador para ver se já processaram. Frustração diária já sabida. Tive que comprar uma passagem com pontos do programa fidelidade e recursos financeiros, um problema insolúvel, apenas equacionado por meu filho. Fazem os “APPs” incompreensíveis para idosos.

Fiz alguns trabalhos e a remuneração não entra na conta. Não faz falta, tenho certeza que sairá, mas incomoda. Uma infiltração de água numa parede. Não se descobre a origem, chamo especialistas, nada dizem de concreto. Outro motivo para agonia. Um conserto numa esquadria. Depende de um dia de sol. Faz uma semana de chuva. Nova decepção.

Isso falando apenas do material, não vou entrar aqui no emocional, mas pequenas atitudes, pequenos contratempos, reações um pouco diferentes das esperadas, levam a uma tristeza profunda. Ninguém gosta mais de mim? Ou, eu quero um tratamento individualizado impossível no mundo atual?

Expectativas não realizadas são um problema. Também, divergências de opiniões. A quebra da rotina traz motivos para um questionamento infindável, sem propósito reconheço, mas concretamente sentido.

Tenho um grupo de estudos que se reúne todas as quartas, das 15 às 16. Quatro amigos que trabalharam juntos, que tem interesses comuns, que gostam de ler textos sobre economia e se divertem debatendo. É virtual desde a pandemia, mas nunca deixou de acontecer.

Semana passada um dos participantes, o mais afeto à área de Cultura, indica um livro, uma biografia de um jornalista que sempre muito admirei. Diz da maravilha do texto e da facilidade do seu fluir. Terminada a reunião, vou ao Amazon e compro. Adoro livros, adoro biografias. Chega no dia seguinte.

Começo a leitura. Empolgado. Nas primeiras páginas, referindo-se à infância e formação da personagem, encontro a frase:

“Como lembrou Pierre Bourdieu, na construção dessa espécie de artefato socialmente irrepreensível que é a história da vida e, em particular, no privilégio concedido à sucessão longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como a história em relação ao espaço social na qual se realizam não é em si mesma um fim. Ela conduz à noção de trajetória como série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente num mesmo espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações.”

Entenderam? Fiquei um bom tempo relendo e me “encucando” pela minha total falta de compreensão de texto tão “facilmente” compreensível. Brincadeira à parte, o livro é muito bom e recomendo a leitura, “De Milton a Millôr” de Andrea Cristina Queiroz.

Todo sábado é obrigação. A passagem em uma venda para tomar uma ou duas, de preferência três. Se tiver uma carninha ao molho com um pãozinho fatiado, melhor ainda. Amigos que se encontram para jogar conversa fora, lá pelas dez da manhã. Neste, na mesa, fora os itinerantes que sempre se aproximam, um artista plástico e um engenheiro florestal.

Começaram discutindo Recife e o esvaziamento do turismo advindo dos ataques de tubarões. Posições controversas que me eram incômodas. Diziam das placas de aviso existentes e que a culpa era das pessoas, irresponsáveis que não seguiam as recomendações. Contra-argumentei, mas não é tema para este texto. Como disse no início, também não é tema a política e suas consequências, papo que também rolou. O problema surge ao se falar de futebol.

A dita seleção e o momento em que vivemos. A apatia reinante e a falta de poder acreditar que, pelo menos, exista um ópio ou qualquer narcótico que desejarem para aliviar as mazelas reinantes. A falta de esperança como saída para um continuar vivendo, mesmo sendo massacrados, principalmente os mais oprimidos.

Tentei argumentar que algo melhorou, que temos avançado, que é verdade que todos estão endividados, mas se tenta minorar o sofrimento. Qual nada, ninguém escuta, com detalhes mostram como “o mundo sempre foi, sempre será uma porcaria, sim senhor, no quinhentos foi e no dois mil será”,... ou já é.

Descrença, sentimento que impera naqueles que sempre lutaram por acreditar que tudo vai melhorar.
Desilusão, aqueles que ainda acreditam, que se sentem pressionados, se sentem impotentes mesmo na contraposição, contra-argumentação.

Diria o poeta: 

“Desilusão, desilusão
Danço eu, dança você
Na dança da solidão”

[Ilustração Genaro de Carvalho]

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Leia também: Abraham Sicsu aborda a intolerância nas relações humanas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/uma-cronica-de-abraham-b-sicsu_14.html 

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