Cem anos de uma profecia política
Marcelo
Barros*
Nesta quinta-feira, 13 de agosto, no mundo
inteiro, comunidades e movimentos populares celebram o centenário de nascimento
de Fidel Castro Ruz, um dos líderes máximo da revolução cubana. Fidel foi um
profeta que mostrou ao mundo que, mesmo na perigosa proximidade do império
estadunidense, é possível organizar a sociedade humana de modo mais justo e
igualitário.
Aparentemente, é estranho chamá-lo de profeta
porque ele se declarava não religioso. Em geral, até hoje, profecia ainda soa
como palavra religiosa. Profeta ou profetiza seria a pessoa que exerce a função
de porta-voz do próprio Deus. No entanto, na história bíblica e em outras
tradições espirituais, frequentemente, profetas e profetizas, profetas e profetizas
foram perseguidos por líderes religiosos e muitos foram martirizados, como
hereges e como ateus.
Na realidade, há profetas que se assumem como
mensageiros ou mensageiras de Deus. São profetas assumidos. Embora não se use
essa palavra nas tradições hinduístas, o Mahatma Gandhi foi assumido como
profeta do Hinduísmo. O Pastor Martin-Luther King, o bispo Oscar Romero e a
Irmã Dorothy Stang foram profetas do Cristianismo.
No entanto, há também profetas não
religiosos. Estes não se assumem como profetas, mas, por sua vida, tornam-se
testemunhas e porta-vozes do projeto divino de justiça ecossocial para o mundo.
Assim foi, na África do Sul, a figura de Nelson Mandela; em Angola, o
testemunho do mártir Patrice Lumumba e aqui no Brasil, Zumbi dos Palmares, ou
mais recentemente Chico Mendes, profeta da defesa da floresta e Marielle
Franco, profetiza da dignidade da Política. Nunca se apresentaram, ou pensaram
em si mesmos como profetas, mas o são.
Ao lembrar dessas figuras, é importante não
idealizar profetas e profetizas, porque isso seria desumanizar a profecia.
Todas essas pessoas tinham defeitos pessoais e fragilidades. Nem por isso,
deixam de ser profetas do projeto divino no mundo. As pessoas não precisam
estar de acordo com todas as ações e todas as palavras de Fidel Castro para
reconhecer nele uma profecia social e política. É à medida que são humanos e,
portanto, passíveis de erros, que os profetas e as profetizas testemunham que a
Palavra Divina se faz carne e manifesta-se em nossa humanidade como ela é.
Nesse centenário do nascimento de Fidel
Castro, crentes e não crentes devemos aprofundar qual foi e é a profecia de
Fidel, não apenas para a Cuba, ameaçada e atacada pela desumanidade do império,
mas para o mundo e, principalmente, para o nosso continente afrolatíndio.
Sem dúvida, um elemento importante da
profecia de Fidel foi ajudar o heroico povo cubano a mostrar ao mundo que um
país pequeno e pobre do Caribe pede ser referência de solidariedade
internacional, em áreas como saúde, educação e cultura.
Hoje, a profecia de Fidel torna-se cada vez mais coletiva. É a de todo um povo que resiste e, sem se isolar, encontra formas de preservar sua forma própria de se organizar, em um mundo sempre mais excludente e desigual. Há mais de 65 anos, Cuba colocou-se como o primeiro território livre das Américas. Hoje, apesar de todos os ataques e do bloqueio genocida do império estadunidense, o povo cubano, mesmo ferido e tão fortemente atacado, continua fiel à sua profecia de liberdade e nos interpela sobre o que fazemos para que todo o continente possa ser libertado.
Nos primeiros anos da revolução cubana, a
maioria do clero e da hierarquia católica posicionaram-se de forma reacionária
e oposta à causa dos oprimidos, o movimento revolucionário cubano defendia o
ateísmo e considerava a religião como essencialmente alienada e aliada aos
opressores. A partir da década de 1970, por toda a América Latina, cristãos e
cristãs, padres e pastores, participavam de movimentos sociais de libertação.
Por todo o continente, floresciam comunidades eclesiais de base. A Teologia da
Libertação era ensaiada, em ambientes católicos e evangélicos. Ao testemunhar
isso, o governo e a sociedade cubana abriram-se mais ao diálogo com o
Cristianismo da Libertação e com outros grupos religiosos. Testemunha disso foi
o diálogo e a amizade formada entre Fidel Castro e Frei Betto. O livro “Fidel e
a Religião” foi traduzido em muitos idiomas e percorreu o mundo inteiro.
Uma vez, em São Félix do Araguaia, um jovem
procurou o bispo Pedro Casaldáliga e lhe disse: “Bispo, eu sou ateu”. O bispo
lhe respondeu:
- De qual deus você é ateu? Dependendo de
qual for, eu também sou.
Para ser profeta ou profetiza do projeto
divino no mundo, é importante rejeitar o deus do império, aquele do qual as notas
de dólar afirmam: Nós acreditamos em Deus. Devemos ser ateus em relação a um
Deus que se confunde com poder e legitima injustiças estruturais, racismos,
patriarcalismos, homofobia, o genocídio do povo palestino. Até hoje, esse deus
é invocado por fascistas que dizem: deus acima de tudo!
Conforme o evangelho, no julgamento final,
Jesus não perguntará às pessoas se foram religiosas ou não. O único critério
será a ética e a solidariedade humana: “Tive fome e me destes de comer, tive
sede e me destes de beber...” “O que, em meu nome, fizestes a um desses pequeninos, foi a mim
que o fizestes” (Mt 25).
Desde ao menos a última década do século XX e
hoje, parece que cada vez mais, grupos religiosos e grande parte da Igreja
Católica e também de outras Igrejas cristãs tornam-se cada vez mais
autocentrados. Fecham-se ao diálogo com as culturas contemporâneas. Assim,
mostram-se incapazes de testemunhar o projeto divino da liberdade e da
amorosidade social, assim como de colaborar com a parte melhor da humanidade, para
construirmos uma sociedade mais justa e fraterna.
Diante dessa realidade, torna-se urgente
insistir no testemunho profético da Boa Notícia de Jesus Cristo, para além dos
templos, com as comunidades eclesiais de base, em um novo modo de ser Igreja,
como ensaio de nova forma da humanidade organizar-se.
Junto com todos os movimentos populares e
grupos da sociedade civil, celebremos o centenário de Fidel Castro para
aprendermos a ser mais fieis ao profeta Jesus de Nazaré e a todos os profetas e
profetizas de um novo mundo necessário, urgente e possível.
*Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo
da Libertação e escritor.
O mundo gira https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Nenhum comentário:
Postar um comentário