Rede Carrefour multada pelo Ibama em R$ 12,5 milhões por vazamento de diesel no mar de Santos. Tempo ruim para o poderoso grupo francês.
Leia: O mundo cabe numa organização de base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
Rede Carrefour multada pelo Ibama em R$ 12,5 milhões por vazamento de diesel no mar de Santos. Tempo ruim para o poderoso grupo francês.
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O ex-presidente Jair Bolsonaro criou um bordão para justificar (sic) seus repetidos ataques ao sistema democrático — "dentro das quatro linhas da Constituição" —, que agora, mergulhado até o pescoço no imenso poço de lama por ele mesmo criado, segue repetindo.
Porém para onde se olha no relatório das investigações apresentado pela
Polícia Federal o indiciando e a mais de 30 asseclas, vê-se que a ilegalidade
ou a intenção de rompê-la sempre esteve na base da conspiração golpista.
Uma peça chave seria a justificativa de que o sistema eleitoral de urnas
eletrônicas não era confiável e até se poderia indicar os mecanismos de
hipotéticas fraudes.
Agora ficou claro, segundo ligações telefônicas interceptadas cujo
conteúdo a Polícia Federal registrou devidamente, que o tal Instituto Voto
Legal, contratado pelo PL (partido do então presidente da República) para uma
auditoria rigorosa no sistema, constatara exatamente o contrário do que
pretendia: sem risco de fraude!
Entretanto no relatório que produziu afirmou que havia sim risco,
conforme a encomenda.
Criminoso e absurdamente ridículo!
[Ilustração: Charge de Leandro Assis e Triscila Oliveira/FSP]
Leia sobre uma face da trama golpista: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/uma-face-da-trama-golpista.html
O Mercado, ser invisível e muito atuante, é um ferrenho defensor dos interesses dos mais ricos e dos especuladores. Assim, sempre reage negativamente quando o governo tenta diminuir a enorme concentração de renda no País, adotando medidas que favorecem as camadas de população mais pobres, em detrimento de seus componentes. Mas é preciso lembrar que não é ele, Mercado, que governa o Brasil, mas um presidente eleito democraticamente pela vontade da maioria.
O Botafogo é campeão pela primeira vez da Libertadores. Mesmo com 10 jogadores desde o primeiro minuto de jogo, conseguiu fazer dois gols. Artur Jorge foi brilhante, o craque da partida.
Como o Atlético-MG só ataca pelos lados, cruzando bolas na área, o técnico reforçou a marcação pelos lados e o Galo, sem nenhuma criatividade no meio-campo, só criou chances de gols com bolas altas na área. Assim fez o gol no segundo tempo, porém foi insuficiente.
Muitos vão dizer que o técnico Artur Jorge fez o óbvio. Poucos fazem o óbvio.
John Textor, dono da SAF do Botafogo, disse antes do jogo que o time chegou a uma final da Libertadores antes do previsto. É o campeão com grandes chances de vencer também o Brasileirão. A equipe venceu também a desconfiança de que não suportaria a pressão psicológica por ter perdido o campeonato no ano passado quando tinha uma grande vantagem. Essas coisas só acontecem com o Botafogo.
No futebol e em todos os esportes de alta competitividade estão sempre presentes o medo dos atletas de não serem capazes e de perderem o jogo, ainda mais uma decisão. Os grandes times e atletas campeões são os que conseguem vencer essas dificuldades. Não são os que dizem estar tranquilos e que não sentem a pressão emocional.
O Botafogo parece com o Liverpool na maneira de jogar. Sem comparar a qualidade, os dois times são compactos, intensos, marcam e defendem em bloco, recuperam rapidamente a bola e unem a força física e a velocidade com o talento individual.
O Manchester City e o Real Madrid, que dominaram o futebol mundial nos últimos anos, passam por maus momentos. Diferentemente do Liverpool e do Botafogo, os dois times priorizam a posse de bola e a troca de passes até chegarem ao gol. Há vários jogadores contundidos nas duas equipes. Faltam os dois grandes meio-campistas: Rodri, que há muito tempo não joga, e Kross, que parou de jogar.
Os ótimos times atacam e defendem bem. Cruzeiro, Bahia e Grêmio trocam muitos passes, avançam com muitos jogadores, mas deixam muitos espaços na defesa. O Bahia, quase sempre, cria inúmeras chances de gols e com frequência perde, por causa dos erros de finalização e da fragilidade defensiva.
O futebol possui também lógica. Em um campeonato longo e por pontos corridos, como o Brasileirão, no final prevalecem os times com melhores elencos, com raras surpresas.
O Fortaleza, que não tem jogadores com o mesmo prestígio dos de outras grandes equipes, está entre os primeiros colocados porque se prepara há tempos para isso. O Fluminense, que luta para não ser rebaixado, não suportou a glória e a pressão do título da Libertadores.
Nesta reta final de decisões, espero que os vencedores e os perdedores não criem tumultos. É preciso saber ganhar e perder.
O Atlético-MG lutou bravamente. Após a eliminação da seleção brasileira na primeira fase da Copa de 1966, depois de ser bicampeão em 1958 e 1962, o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, escreveu uma poesia para os atletas brasileiros: "Depois da hora radiosa/ a hora dura do esporte,/ sem a qual não há prêmio que conforte,/ pois perder é tocar alguma coisa/ mais além da vitória, é encontrar-se/ naquele ponto onde começa tudo/ a nascer do perdido, lentamente".
Leia sobre as fragilidades do futebol brasileiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/02/futebol-brasileiro-impasses.html
Talvez um pouco saudosista, reconheço, sou de outra geração. Vejo avanços na sociedade, mas muitos pontos a discutir. Procurar entender o momento atual é complexo para quem não foi formado nesta cultura, para quem valores definidores de posicionamento e luta podem ser bem diversos. Talvez, os estudiosos possam melhor nos localizar e nos orientar em que rumo se pode ir.
Tenho dificuldades com a Filosofia. Fiz alguns cursos, procuro ler os principais autores, mas, minha lógica de pensamento é fortemente orientada pelo pragmatismo de formação acadêmica em ciências exatas e economia.
Nos meus alfarrábios dos cursos que frequentei, vejo que palavras de uso corrente e vulgar, hoje em dia, usadas como sinônimos, ética e moral, têm significados diferentes dos que se empregam.
A ética fortemente ligada aos modos e meios de agir, aos comportamentos e mesmo aos costumes de uma sociedade. Um código de conduta mais perene que deve direcionar estruturalmente a sociedade. Já a moral é datada. Está intimamente ligada aos costumes de uma sociedade em tempos determinados. Muda com o evoluir da sociedade, com os hábitos, com os tempos que se sucedem.
Pode-se manter o código ético, mudando ou adaptando os princípios morais que se estabelecem. Atualmente, todos se dizem éticos, não duvido, em tese, mas pouco, ou nada, se fala dos princípios morais que se renovam e trazem conflitos nítidos geracionais.
Sou de uma época em que a juventude engajada entendia que o fundamental era compreender as iniquidades e injustiças trazidas pela luta de classe. Entender como o proletariado se inseria no mundo capitalista e lutar para diminuir as desigualdades profundas de tempos de alta concentração de riqueza nas mãos do capital e seus apaniguados. Marx ainda era a referência principal. Essa era a lógica da revolta, da luta por ideais, por busca de um mundo em que queríamos viver mais dignamente junto com todos nossos semelhantes.
Os filósofos que nos orientavam, muito ligados ao estruturalismo, Sartre e mesmo Beauvoir, uma feminista muito competente, ou mais recente, pós estruturalistas como Deleuze, tinham na busca de uma sociedade mais igualitária a seu norte.
A própria questão das injustiças com as minorias surgia pelas características de uma sociedade que explora e sufoca o mundo do trabalho.
Não era um mundo segmentado, em que se viam apenas os grupos no seu isolamento e nas suas buscas individuais. Raça, gênero, opções sexuais eram vistas, sem dúvida, mas no contexto maior de um mundo em que o embate capital trabalho seria sua causa principal, sem enfrentamento deste problema, não haveria como chegar a uma sociedade mais equânime.
O mundo mudou. A moral atual baseia-se na questão do identitarismo e no corporativismo. Fracionou-se a sociedade. O relevante é um subgrupo, minoritário ou não. Mulheres, negros, LGBTQIA+, são os movimentos de engajamento. Na mesma linha, os grupos se organizam em causas muito justas, mas segmentadas. Ecologia radical, veganismo ou mesmo os interesses da dita comunidade científica, também vem apenas seu espaço, difícil compreenderem que estão inseridos numa lógica maior.
Pouco se fala do sistema, importante garantir espaço para o MEU grupo. É o meio de luta, é o meio de manter a sociedade em sua quase falta de resistência às fortes disparidades advindas da própria lógica capitalista. As corporações e os identitários se organizam e se encastelam em lutas individuais e desconectadas.
Movimentos ambientalistas conservadores criam uma visão segmentada e ultra rigorosa, para não dizer muitas vezes radical. Vem um mundo que deve unicamente ser orientada pelas questões ambientais, sem concessões, sem procurar entender as contradições advindas do econômico e do social, entender a necessidade urgente de enfrentamentos das mazelas advindas de um mundo que desconsidera a maioria da população.
Existem os ambientalistas primitivos com ideias pré-concebidas e totalmente intolerantes. Nas palavras do filósofo e político francês Luc Ferry, o radicalismo ecológico se expressa na seguinte frase: “O amor à natureza oculta o ódio aos homens”. Infelizmente, por trás de visões importantes num mundo em que a exploração não limita o destruir da natureza, ainda se encontram dogmatismos e incompreensões desviantes.
Interessante ressaltar que todos esses movimentos justificam sua luta por razões históricas de opressão. Verdades incontestes, o patriarcalismo e a expropriação alijaram segmentos importantes do usufruir do progresso técnico. O problema que surge é entender que nessa segmentação atual e na busca do resgate segmentado se oprime e muito. Pagar a herança significa oprimir o homem branco hétero que estaria, obrigatoriamente, fora da maioria desses grupos? É a causa de todos os males? Ele tem que ser sempre estigmatizado?
Fui ler um texto. Um estudo de sociologia que considerei sério. Ao analisar o casamento homoafetivo, questão que dominava a luta dos movimentos LGBTs no início deste século, mostra que todo esse processo de embate por direitos iguais, numa sociedade em que as normas morais são definidas ainda por padrões gerais orientadas pela expropriação capitalista, pouco avanço trouxe para as comunidades específicas em seu todo, como aceitação numa sociedade machista. Ou seja, sempre se resumem a lutas pontuais sem analisar a dinâmica social maior e as efetivas razões de existência das práticas opressivas. Os resultados são pouco expressivos.
Lutas pontuais são relevantes, mas não modificam a estrutura em si, fundamental a consciência dos movimentos maiores que são normativos. Elas, per si, podem ser um desvio para manter sob controle grupos que precisam e merecem espaços maiores na sociedade. Uma maneira de manter a dominação e uma civilização em que os oprimidos não conseguem fugir dessa armadilha.
O cotidiano mostra isso. As reações não se diluem. Criam-se ambientes que pouco avançam em prol de uma sociedade mais igualitária.
Quando em uma reunião em que é preciso tomar uma decisão, a direção do evento começa com a frase de que o resultado “tem que ser Mulher”, gera-se desconforto e se estabelece a cizânia. Os critérios pré-definidos de mérito ou de qualidade passam a ter validade secundária, o explicitado nas normas publicadas como orientação perde a validade.
Recentemente tive uma experiência nessa direção. Três meses de leitura de material, de conversas orientadoras, de troca de ideias com participantes do processo, uma busca meticulosa de perfis mais adequados. Uma pessoa séria e bem-intencionada, acredito, no entanto, assumidamente direcionada para um dos vieses acima expostos, no uso de seu poder institucional, que não participou nenhuma vez do processo, vem presidir a reunião final e começa com a frase, “tem que ser mulher, é um resgate da história opressiva que caracteriza nossa sociedade”. Melhor abandonar a reunião, os trabalhos árduos desenvolvidos e não participar da decisão.
Numa reunião do movimento negro, um estudioso do tema, é homem branco. Convidado para participar, em dado momento, concordando com o dito, pede a palavra inclusive para reforçar o ponto de vista apresentado. Sua palavra é caçada, não lhe é permitido se manifestar: “Aqui você não fala, por muitos anos nos impediram de manifestar o que pensávamos e agora nós não admitimos que um branco venha nos dizer qualquer coisa.”
Essa nova moral incomoda. Faz com que se gere conflito no seio dos desfavorecidos, nos meios que deveriam entender que o que gera ou gerou essas iniquidades foi uma postura que convinha aos poderosos. Cria conflito entre aqueles que devem se unir. Valorizar apenas as singularidades pouco avança numa sociedade mais justa. Perde sentido falar em movimentos de esquerda, pois não há causa unificadora.
Triste, vendo cada vez mais os movimentos identitários e corporativos assumirem a dianteira das lutas sociais, da luta daqueles que se dizem de esquerda, não vejo como mudar uma sociedade perversa se não for resgatado o princípio maior da luta que vale travar: “Avante, famélicos da terra…; Bem unidos, façamos; Nesta luta final; Uma terra sem amos, a Internacional.”
[Ilustração: Reunião da fundação da Associação
Internacional dos Trabalhadores em 28 de Setembro de 1864 | Imagem/Domínio Público]
*professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)
Leia também "O fantasma do identitarismo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/identitarismo-polissemico.htmlRealmente, "só acontece com o Botafogo": com apenas 10 jogadores desde o primeiro minuto da partida, vence o Atlético Mineiro por 3 a 1 e é o campeão da Libertadores de América.
Leia sobre os méritos de Zagallo: https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/01/minha-opiniao_9.html
Soneto do
amor total
Vinícius de Moraes
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
[Ilustração: Pablo Picasso]
Leia o "Poema circense" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/06/palavra-de-poeta-jose-paulo-paes.html