27 setembro 2018

O poder do rentismo

O “mercado” defende os seus
André Araujo, Jornal GGN

Nos países centrais do capitalismo, Estados Unidos e Reino Unido, não passa pela cabeça de um jornalista político de primeira linha procurar saber a opinião de um rapaz da bolsa sobre eleições para chefe de governo ou chefe de Estado. O “mercado” "NÃO" é um ator politico.
A política se define no mundo político, não na bolsa, o espaço da política é muito mais importante e não se sustenta nos “mercados” e sim em plataformas mais altas.
A pobreza da vida política brasileira, desde o Governo Collor, fez desaparecer o time dos políticos de primeira linha e com isso subiram ao pódio atores secundários, coadjuvantes, simples figurantes, a quem ninguém no passado pedia opinião porque essa não tinha importância alguma, faltava a sabedoria, a qualidade, a legitimidade.
Hoje nos comentários políticos chama-se o “mercado” a opinar, como se fossem deuses.
Mas qual mercado? Há muitos e variados e eles não falam uma só língua. O agronegócio tem sua lógica, os caminhoneiros tem outra e contraria, qual prevalece?  Quem  é importador tem um tipo de interesse, quem exporta tem outro, quem fabrica quer uma politica, quem distribui quer outra, o construtor de imóveis quer crédito barato, o aplicador quer juro alto.
Nos anos Vargas e JK o que hoje se chama “mercados” eram então as CLASSES PRODUTORAS.
Eram os grandes industriais e comerciantes, que se contrapunham à CLASSE TRABALHADORA.
Tratava-se de figuras de peso e consistência, capitães de indústria como se falava, experientes, sofisticados, refinados muitas vezes, suas mulheres eram as mais elegantes, gente traquejada nos negócios e na vida. Eram ouvidos com respeito, mas o mundo da politica era outro e não se movia a não ser lateralmente por essas vozes e nem girava em torno delas.
Hoje a mídia econômica trata o mercado pelo que ele não é, o mercado NÃO é a plataforma onde se administram os interesses do País, nem os “investidores” que o mercado representa, o que no Brasil se considera “o mercado” são agentes dos investidores e não os próprios. Esse ente coletivo NÃO tem a compreensão e nem a dimensão de todos os interesses do Pais, quem vê o País como um todo, como um conjunto de interesses, valores e estratégias é o ESTADO.
Quando Trump, certo ou errado, age contra as exportações chinesas ele está visando o interesse do País como um todo e não apenas o interesse das companhias globalizadas que preferem um mercado americano aberto ao que vem de suas fábricas na China. Não é problemas dessas empresas os desempregos que os produtos chineses geram dentro dos Estados Unidos, mas é problema do Presidente, ele foi eleito por causa desse problema.
Não tem sentido se tentar no Brasil colocar “o mercado” como árbitro de eleição. É uma diminuição, um apequenamento da questão nacional,  muito maior que o “mercado”, que nesse contexto é apenas a plataforma de capital volátil que circula pelo mundo e dá uma parada no Brasil. NÃO é definitivamente a estação onde desembarcam as empresas da economia produtiva que interessam ao Brasil e que aqui aportaram mesmo nos momentos de mais alta inflação MAS com crescente demanda de seus produtos no Pais. Algumas empresas como GM, Ford, Siemens, Lever, Goodyear, Abbott, Lilly, Exxon, Shell, estão no Brasil a bem mais de CEM anos, esse é o investidor que interessa ao Brasil e que não é entrevistado pelos comentaristas econômicos da mídia ignorante, esse investidor não está todo dia em eventos frequentados pela mídia, não é disponível para dar entrevistas a qualquer hora.
Então a mídia se encosta nas corretoras, gestoras e bancos de investimento como SE esses personagens fossem a economia do Pais. ELES NÃO SÃO, é apenas um pedaço visível e nunca o maior da economia, muito mais complexa do que a Av. Faria Lima e o Leblon.
Hoje os comentaristas econômicos alardeiam aos quatro ventos que foram a eventos onde ouviram o que pensa o mercado sobre esse ou aquele candidato, sua opinião pesa  enormemente, não é apenas uma cortesia ouvi-los. Que pequenez, que pobreza, que coisa micha, minúscula, medíocre, de pé de chinelo, a politica cruzando talheres com cambistas.
QUAL É O MERCADO QUE SE OUVE?
O chamado “mercado” consultado com reverência pela mídia é o MERCADO ESPECULATIVO de ações e câmbio, são os “rapazes da bolsa” cujo ÚNICO interesse é o deles, só eles.
Não estão nem ai para o País, para os desempregados, para os pobres biscateiros, para as periferias, para o futuro dos jovens sem futuro, nem para o País que legarão a seus filhos.
A “meta” (eles adoram metas) deles é ganhar os tubos no mercado aqui e dar o “bye bye Brazil”, mudando eles e suas peruas para Miami, com o dinheiro lavado aqui.
Não lhes passa pela cabeça e não tem o mínimo interesse pela indústria e empregos no Brasil, pela educação no Brasil, pelo sistema de saúde publica no Brasil, pelas carências de saneamento e infra estrutura no Brasil, nada disso interessa, o negócio deles é o “eu mesmo”.
É esse o mercado aloprado, badalado e consultado pelas Veras, Elianes, Andreias, Denises, é a opinião deles sobre os candidatos que elas querem ouvir. Pobre Brasil, um grande País que se encolheu na mão de gente pequena e insignificante, inculta, sem grandeza e sem visão.
Enquanto isso, Rússia, China e Índia crescem como potencias porque o Estado deles é respeitado, a visão de Pais e de povo é central na politica, a sociedade se orgulha de sua cultura, de seus costumes, de sua língua, de sua música, de seus projetos de Pais. O Brasil está ameaçado de cair na lata do lixo da História, acontecimento que será reportado pela GLOBONEWS com direito a luzes e show de tolices, enquanto o mercado especula com a desgraça do Brasil menor, trilha de passagem dos fundos especulativos globais.
O Brasil está na categoria dos grandes países continentais com projeção de poder estratégico por sua expressão territorial, demográfica, econômica, cultural e ecológica, é preciso que haja consciência de sua dimensão muito acima e além de ser apenas um simples mercado.
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Humor de resistência

Miguel Paiva vê a ameaça fascistoide no pleito presidencial.

Questão crucial


Reservas internacionais e autonomia de política macroeconômica
DANIELA MAGALHÃES PRATES, MARYSE FARHI E SAULO ABOUCHEDID

Estoque brasileiro é superior ao necessário? Benefícios em termos de ganho de autonomia superam os custos da estratégia precaucional.

Um dos temas econômicos do debate eleitoral entre os candidatos à presidência refere-se ao direcionamento de parte das reservas internacionais, seja para o pagamento da dívida pública, seja para o financiamento de investimentos no setor de infraestrutura. Essas propostas têm em comum a hipótese que a economia brasileira teria atualmente um estoque de reservas internacionais superior ao necessário.
Este artigo não pretende discutir a pertinência ou não desse direcionamento, mas chamar atenção para alguns aspectos negligenciados nesse debate que dizem respeito às justificativas para a necessidade de acúmulo de reservas internacionais e às métricas utilizadas para mensurar o seu nível adequado e, portanto, seu suposto excesso.
No sistema monetário e financeiro internacional contemporâneo, caracterizado pela alta mobilidade de capitais e por uma hierarquia de moedas na qual o dólar é a moeda-chave, as reservas internacionais são um “colchão de segurança” que reduz o risco de crises cambiais provocadas pela saída maciça de divisas em países que não emitem moedas aceitas internacionalmente e que possuem um elevado grau de abertura financeira. A necessidade de constituir esse colchão tornou-se evidente após as crises financeiras das economias emergentes nos anos 1990. Após essas crises, os governos de várias dessas economias, dentre os quais a brasileira, passaram a perseguir a estratégia que ficou conhecida como “demanda precaucional por reservas”. Todavia, essa estratégia tem um custo que equivale ao diferencial entre a taxa de juros externa que remunera as reservas (predominantemente aplicadas em títulos do Tesouro norte-americano) e a taxa de juros interna que incide sobre as chamadas operações de esterilização do impacto monetário da aquisição de divisas pelo banco central de cada país. Vale lembrar que no caso Brasil esse custo foi muito expressivo até recentemente devido ao patamar da nossa taxa de juros básica, em geral a primeira ou segunda mais elevada entre os países emergentes.
Exatamente em função desse custo, emerge a questão do tamanho suficiente desse colchão de liquidez em dólares. Existem diferentes formas de medi-lo. As diferentes métricas comparam esse estoque com fontes potenciais de demanda por divisas, como meses de importações, dívida externa de curto prazo e percentuais dos meios de pagamento ampliados e/ou dos investimentos estrangeiros de portfólio no país. No entanto, tais indicadores – inclusive o mais abrangente utilizado pelo FMI – subestimam o nível de reservas necessário para proteger um país contra crises financeiras. Esse nível deveria considerar todas as fontes potenciais de demanda pelas reservas, que incluem o resultado em conta corrente, a dívida externa de curto prazo, as amortizações de dívida externa de longo prazo nos próximos doze meses e o valor total desses investimentos aplicados em ações e títulos de renda fixa. No início de setembro, a soma dessas fontes superava em cerca de 50% o valor das reservas brasileiras (US$ 381 bilhões). Contudo, também existe uma imprecisão nessa métrica, pois esses investimentos (atualmente a principal fonte potencial de demanda de divisas) estão denominados em reais e uma liquidação das posições pelos investidores não residentes resultaria em queda dos preços das ações e desvalorização cambial e, consequentemente, na redução do seu valor em dólares.
Como não há uma métrica precisa e inquestionável, no caso de um país como o Brasil – emissor de uma moeda não aceita internacionalmente, com um elevado grau de abertura financeira, mercados financeiros líquidos, déficit em conta corrente e pauta de exportações concentrada em commodities – é melhor pecar por prudência na avaliação do nível adequado de reservas do que subestimá-lo.
Também é preciso chamar atenção para outros motivos, não capturados por essas métricas, que justificam o acúmulo de reservas internacionais por um país com essas características. Por um lado, a constituição de um colchão de liquidez internacional impacta igualmente o chamado rating soberano atribuído pelas agências de classificação de risco de crédito. O aumento desse rating também foi um dos objetivos da estratégia precaucional adotada pelo Brasil e outros países emergentes no período de boom de fluxos de capitais que precedeu a crise financeira global. Isso porque, além do efeito reputação positivo, ratings mais elevados possibilitam que títulos desses países sejam adquiridos por investidores institucionais com perfil menos especulativo, como fundos de pensão. Por outro lado, a detenção desse colchão é um dos elementos cruciais considerados pelos investidores globais na avaliação da situação de vulnerabilidade externa desses países; ao influenciar as expectativas desses agentes, ele também tem repercussão no risco-país avaliado pelo mercado. Finalmente, as reservas constituem um ativo em moeda estrangeira dos governos, que deve ser contraposto aos seus passivos em (ou denominados em) moeda estrangeira. Como o Tesouro aproveitou aquele período para pré-pagar grande parte da sua dívida externa e reduziu para praticamente zero o estoque de títulos indexados à taxa de câmbio (NTN-cambiais), desde 2006 o setor público brasileiro tem uma posição líquida positiva em dólares. Com isso, no momento do efeito-contágio da crise, a forte desvalorização cambial teve impacto positivo sobre as contas públicas, aumentando o raio de manobra para a adoção de políticas contracíclicas, ao contrário do observado nas crises cambiais precedentes. Se subtrairmos o valor atual do passivo em (ou denominados em) dólares – swaps cambiais (US$ 67 bilhões) e dívida externa pública (US$ 123 bilhões) – do valor das reservas, essa posição equivale hoje a cerca de US$ 190 bilhões, valor que não parece excessivo considerando as características da economia brasileira mencionadas acima. Ademais, esse impacto positivo também deve ser considerado na avaliação do custo do acúmulo de reservas.
Se levarmos em consideração todos os motivos pelos quais um país como o Brasil deve deter um estoque expressivo de reservas internacionais (mas cujo nível adequado é de difícil mensuração), pode-se afirmar que esse estoque amplia a autonomia da política macroeconômica num contexto de elevado grau de abertura financeira, reduzindo sua vulnerabilidade aos ciclos de boom-bust de fluxos de capitais comandados pela política monetária do emissor da divisa-chave, os Estados Unidos. Mesmo que o principal instrumento de política cambial sejam os swaps, um derivativo cambial liquidado em reais – em função das características do mercado de câmbio brasileiro – e as reservas sejam pouco utilizadas na prática, a redução do seu estoque afeta negativamente as expectativas dos investidores. Elas possibilitam, igualmente, o uso de leilões de linha (venda de divisas no mercado à vista com acordo de recompra) que foram utilizados novamente pelo Banco Central no início de setembro deste ano e funcionam como contrapartida dos swaps no balanço patrimonial do setor público brasileiro.
Não há dúvida que os benefícios em termos de ganho de autonomia superam os custos da estratégia precaucional. No entanto, há alternativas mais eficazes e menos onerosas para atingir esse objetivo. A principal delas é a redução da abertura financeira mediante a regulação dos fluxos de capitais e dos derivativos de câmbio para reduzir a volatilidade e evitar pressões tanto de depreciação como de apreciação cambial (que reduz a competitividade externa, contribuindo para tornar nossa pauta exportadora ainda mais dependente das commodities, bens com preços voláteis e de menor valor agregado). Nesse contexto, os impactos das mudanças das expectativas dos investidores sobre as taxas de câmbio e de juros seriam minimizados, abrindo espaço para a redução das reservas internacionais (e, consequentemente, do seu custo) e conferindo maior grau de liberdade no seu uso. 
*Daniela Magalhães Prates, Maryse Farhi e Saulo Abouchedid são, respectivamente, professora associada do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora do CNPq, professora doutora do Instituto de Economia da Unicamp e doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp e professor da Facamp. > Publicado em Le Monde Diplomatique
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Poesia sempre

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Arte é vida

Pierre-Auguste Renoir

Fissura

‘Ao defender o fim do decimo terceiro salário, Mourão gera nova crise na campanha de Bolsonaro, que quer silenciá-lo’ [Imagine se viessem a governar o Brasil!?]

Uma luz no horizonte