Quem vai
controlar terras raras e minerais críticos do Brasil pós-eleição 2026?
Nova política para o setor traz freios institucionais, mas não distingue
capital nacional do estrangeiro na concessão de benefícios fiscais. Com os
recursos estratégicos também em disputa nas eleições, o país precisa de uma
estratégia capaz de transformar suas reservas em indústria e tecnologia
Diógenes Breda e Iago Montalvão/Portal Grabois
Minerais críticos e estratégicos brasileiros no centro da disputa eleitoral e global
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou em 16 de setembro a Política
Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (Lei nº 15.506), aprovada pelo Senado em 2 de
setembro sem alteração de mérito no texto enviado pela Câmara dos Deputados. O
texto (PL 2.780/2024) chegou ao Planalto sob o signo da
urgência, e a urgência tem nome: Serra Verde. Em abril, a única mina de terras
raras em operação no país foi vendida à USA Rare Earth, mineradora sem nenhuma
mina operando no mundo e capitalizada, na prática, pelo governo dos Estados
Unidos, com financiamento da DFC e contrato de exclusividade de venda do
concentrado de terras raras, durante quinze anos, para os EUA, onde será
refinado por uma empresa daquele país. A operação foi apresentada como
“investimento privado”. Trata-se, porém, da extensão de uma política de Estado
estrangeira sobre o subsolo brasileiro, e escancarou a ausência de qualquer
instrumento nacional capaz de responder a ela.
Diante desse vácuo, era preciso aprovar algo, e o que se aprovou tem méritos. A
criação do Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e
Estratégicos (CIMCE), com poder de homologar mudanças de controle societário e
de decidir sobre alienação de títulos minerários, é o primeiro freio
institucional a investidas do tipo Serra Verde. O texto estabelece cadastro
nacional, prazos para pesquisa mineral, rastreabilidade e prioridade ao
processamento em território nacional. Regulamenta um setor que operava sem
marco. Outros elementos que merecem destaque no texto final aprovado no Senado
são a vinculação do PNMCE à Política Nacional de Defesa (PND) e à Estratégia
Nacional de Defesa (END) (inciso X do art. 6º) e, também, a menção explícita à
obrigação de realização de consulta livre, prévia e informada (art. 7º, § 1º,
IV).
Limites da nova política mineral
Mas o
núcleo da lei continua sendo o que era desde a origem, quando foi redigida com
participação do próprio setor mineral, um pacote de isenções e benefícios sem
contrapartidas robustas. Um estudo realizado pelo
Transforma-Unicamp demonstrou que o Brasil já testou esse
modelo por três décadas e os resultados estão nos dados fiscais. Entre 2017 e
2024, as isenções federais concedidas ao setor mineral (R$ 47,35 bilhões)
praticamente igualaram tudo o que o país arrecadou de royalties via CFEM
(Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais), R$ 46,1 bilhões.
Em 2024, cinco empresas de controle estrangeiro concentraram 93% dessas
isenções. As terras raras, das quais temos a segunda maior reserva do mundo,
renderam ao Estado brasileiro R$ 3,4 milhões em oito anos. Ou seja, isenção sem
contrapartida financia a exportação de minério bruto, não a indústria.
A nova
lei repete os mesmos vícios. Não distingue capital nacional de estrangeiro para
fins de benefício, o que significa subsidiar com recursos públicos a estratégia
industrial de outros países. Fixa uma meta de P&D de 0,3% da receita bruta,
subindo a 0,5% após seis anos, abaixo da média empresarial brasileira e muito
distante do que praticam China ou Estados Unidos. Mantém uma definição de
“mineral estratégico” ampla o bastante para incluir o minério de ferro, abrindo
caminho para que as grandes mineradoras, já beneficiárias da Lei Kandir,
recebam ainda mais. Prioriza licenciamento ambiental em um setor marcado por
tragédias como as que ocorreram em Mariana e Brumadinho. Além disso, cria o
Fundo Garantidor da Atividade Mineral, que compromete R$ 2 bilhões públicos
como colateral de risco privado, admite cotistas estrangeiros sem restrição e
delega toda contrapartida a regulamentos futuros. Em última instância, esse
modelo continua a socializar o risco, enquanto privatiza os ganhos.
A
política de isenções atravessa ainda um outro grave problema para esse tipo de
estratégia: o Brasil não tem empresas nacionais capazes de competir nesse
setor. Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), todas as empresas que
atuam em terras raras no país são controladas por capital externo. Uma política
de subsídios pressupõe um empresariado nacional que os receba e verticalize a
produção. Esse ator não existe. Sem ele, a lei acaba financiando quem já está
aqui. E quem já está aqui responde a estratégias de outros Estados. Esse último
ponto é crucial: em um contexto de acirrada disputa pelo domínio de tecnologias
estratégicas, os Estados nacionais dos países centrais tendem a exigir de suas
empresas a concentração das etapas de maior valor agregado e poder de barganha
geopolítica dentro de seus territórios.
Diante
dessa conjuntura, os países do Sul Global detentores de reservas de minerais
estratégicos devem, caso queiram internalizar etapas mais complexas dessas
cadeias, estabelecer condições mais duras para o investimento dessas empresas
em seus territórios. Joint Ventures com empresas públicas, restrições à
exportação de mineral de baixo processamento, divisão equitativa dos lucros e
royalties, entre outras medidas de caráter nacionalista. Em todo caso, trata-se
de “cobrar caro” pelo acesso às nossas riquezas naturais.
O
financiamento de R$ 77,5 milhões aprovado pelo BNDES para a Viridis, subsidiária
de uma mineradora australiana, em Poços de Caldas (MG), é mais um caso
ilustrativo. A chamada BNDES-Finep é a iniciativa pública mais avançada até
agora, e com um propósito legítimo, mas uma estratégia que pode gerar
resultados negativos. Na prática, o financiamento com dinheiro público vai para
uma empresa estrangeira cujo projeto prevê retirar milhões de toneladas de
argila por ano em um município que já enfrenta estresse hídrico, com o Estudo
de Impacto Ambiental contestado e a população organizada, a exemplo da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca,
denunciando fragmentação de pedidos de licença e ausência de diálogo real com
as comunidades.
Minerais críticos entram na disputa eleitoral
Tudo
isso, porém, é discussão sobre os limites de um caminho. A eleição de outubro
coloca em disputa se haverá caminho.
Em 12 de
setembro, veio a público um “memorando
estratégico” de 22 páginas, em inglês, com o logotipo “Flávio
Bolsonaro 2026 Campaign” na capa e o slogan Prosperity Partnership em
todas as demais. Elaborado em março por André Marinho, filho do suplente de
Flávio no Senado e articulador de uma célula brasileira da rede trumpista
Rockbridge, o documento propõe que um governo Flávio Bolsonaro posicione o
Brasil como “principal fornecedor e polo de processamento de minerais críticos
alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental”, integrado a um “clube de
minerais críticos” liderado pelos Estados Unidos, com aceleração de reformas na
legislação minerária e no licenciamento.
A
mensagem final, dirigida a “interlocutores americanos”, resume o espírito: “O
Ocidente não tem um problema de minerais. Tem um problema de execução. O Brasil
é a solução.”
Marinho
nega vínculo com a campanha. Mas nove dias depois de o documento ser produzido,
Flávio Bolsonaro discursou na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC,
na sigla em inglês), no Texas, dizendo:
“O Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por
minerais críticos, especialmente terras raras.“
Em maio,
Flávio Bolsonaro esteve com Trump, Vance e Rubio em Washington. O tema da pauta,
segundo ele próprio: terras raras.
Não são
apenas especulações, mas um projeto explícito de transformar o patrimônio
geológico brasileiro em moeda de troca por alinhamento geopolítico num momento
extremamente sensível. A China detém 92% da capacidade mundial de refino de
terras raras e vem usando controles de exportação como arma. Os Estados Unidos
dependem de importações para 80% de sua demanda e definiram, na Estratégia de Segurança Nacional de 2025, que os
recursos do Hemisfério Ocidental devem ser desenvolvidos com “parceiros
hemisféricos” e longe de rivais. O Brasil, com 23% das reservas de terras
raras, quase 90% das de nióbio e a segunda posição em grafita, é o único país
das Américas capaz de alterar esse tabuleiro. Isso nos dá um poder de barganha
imenso, ou o transforma em território de disputa.
Um
governo que entregue esse ativo em troca de “alinhamento” não estará apenas
abdicando de renda. Estará abdicando da grande janela de neoindustrialização
disponível ao país neste século, aquela que liga terras raras a ímãs
permanentes, motores elétricos, turbinas, ônibus elétricos, semicondutores e,
portanto, a uma transição ecológica com base produtiva própria. O que restaria
é um novo ciclo de fornecimento de matéria-prima, agora sob o rótulo de
“extrativismo verde”, onde o Brasil exporta o carbonato, outro país fabrica o
ímã, e nós importamos o motor.
O que falta para uma estratégia brasileira
Por isso,
a primeira prioridade é clara: derrotar esse projeto nas urnas. Mas a vitória
eleitoral é condição necessária, não suficiente. O modelo de isenções e
subsídios sem contrapartidas não produzirá a indústria que promete.
Realizada
essa condição, será preciso ir muito além da lei que se sanciona agora:
– Uma empresa estatal de pesquisa, lavra e refino, ancorada na expertise já
existente no Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), na INB (Indústrias Nucleares
do Brasil) e na memória industrial da Nuclemon;
– Reforma da renda minerária, com ampliação da CFEM e taxação progressiva da
exportação de minério não processado;
– Contratos de compra pública (offtake) pelo Estado brasileiro como
âncora de demanda, exatamente o instrumento que os Estados Unidos usam contra
nós;
– Participação do BNDESPar no capital de empresas estratégicas para impedir que
sejam adquiridas por capital estrangeiro;
– Exigência de conteúdo local em concessões e financiamentos; controle público
das exportações;
– Investimento em ciência e tecnologia com o espaço fiscal que hoje lhe é
negado; e
– Um elemento ainda pouco comentado, mas fundamental: uma participação forte da
Petrobras.
O Brasil
reúne as duas condições mais difíceis de obter: o recurso geológico e
capacidade de desenvolvimento de conhecimento técnico e científico para
alcançar a fronteira do conhecimento. O que está em jogo em outubro é se terá a
terceira, a decisão política de não repetir, mais uma vez, a trajetória de sua
história de colônia extrativista.
Diógenes Breda é
economista, professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da
Universidade Federal de Uberlândia. Pesquisador do Transforma Economia/Unicamp.
Iago Montalvão é economista, doutorando em
economia no Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Transforma/Unicamp
e do Grupo de Pesquisa Novo Ciclo de Desenvolvimento Social da
Fundação Maurício Grabois.
Leia também: Marie Curie no Brasil e as contradições da modernidade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/historia-ciencia.html

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