Sobre presidentes e narcotraficantes, pesos e medidas
Enio Lins
VENEZUELA AGREDIDA é a bola da vez. O mundo se agita por conta da overdose autoritária do governo Trump. Enquanto isso, em Nova Iorque está montado um circo jurídico para tentar justificar o sequestro do presidente Nicolás Maduro, acusando-o ilegalmente, pelas normas do direito internacional, de “narcotraficante”. Depois de iniciado o julgamento, a principal acusação, de “chefe do Cartel de Los Soles”, foi retirada pelo governo Trump, mas o teatro segue com outras acusações menores.
AINDA EM NOVA IORQUE outro espaço se projeta como picadeiro: o Conselho de Segurança da ONU, reunido para analisar e se posicionar sobre a agressão sofrida pela Venezuela. Ao longo dos tempos, esse órgão tem sido anulado, em suas decisões mais importantes, pelo poder de veto exercido pelos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, na condição de membros permanentes. Qualquer um desses cinco países, por seu próprio e único voto, pode cancelar qualquer posição da maioria. Com o veto garantido dos americanos e de seus aliados, este caso venezuelano se anuncia mais uma desmoralização das Nações Unidas.
DO PONTO DE VISTA LEGAL, como tem sido abordado pela mídia aqui e alhures, não se sustenta a ação do governo americano em nenhum item do Direito Internacional. Ademais, rapto de Maduro escancara uma grave contradição da Casa Branca, pois os Estados Unidos se recusam a aplicar decisões do Tribunal Penal Internacional, principal órgão do gênero no mundo, quando essas alcançam criminosos que têm apoio americano, como no caso de Benjamin Netanyahu. O genocida israelense é detentor de um mandado de prisão por crimes de guerra contra a população civil palestina, emitido pelo TPI em 21 de novembro de 2024. Em pleno vigor, esse documento legal perfeito é ignorado pelo governo estadunidense, que tem acolhido o criminoso Bibi depois dessa ordem de captura, por várias vezes, no Salão Oval e na mansão do atual presidente, em Mar-a-Lago (a recepção mais recente, foi há apenas nove dias). E os crimes comprovadamente cometidos por Bibi são escandalosamente maiores que os atribuídos a qualquer narcotraficante em qualquer ponto do planeta.
ISSO SEM FALAR QUE, até agora, não foi apresentada evidência de que Nicolás Maduro tenha ligações com o narcotráfico, ao contrário do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández. Processado e julgado nos Estados Unidos por comandar “uma das maiores e mais violentas conspirações para o tráfico de drogas do mundo”, Hernández foi preso em 2022, em sua residência, na cidade de Tegucigalpa, depois de terminar seu segundo mandato presidencial. Foi detido pela polícia local, cumprindo determinação da Justiça de Honduras, e extraditado legalmente para os Estados Unidos “onde foi condenado, em 2024, a 45 anos de prisão e pagamento de multa de US$ 8 milhões. Segundo os promotores, ‘ele pavimentou uma estrada de cocaína para os EUA, com o apoio de metralhadoras’. Gravações exibidas no tribunal mostraram diálogos explícitos com traficante: em um deles, disse que queria ‘enfiar drogas nos narizes dos gringos’ nos EUA” –entre aspas, trechos de reportagem publicada n’O Globo há três dias.
EM 2 DE DEZEMBRO, um mês antes de sequestrar Maduro, Donald Trump perdoou o narcotraficante Juan Orlando Hernández, liberando-o da prisão e autorizando sua permanência em território americano, pois o ex-presidiário não poderia voltar imediatamente a seu país, pois lá lhe esperam outras condenações. Um dos objetivos do inquilino da Casa Branca foi possibilitar ao notório narcotraficante liberdade e condições de articular remotamente seus cúmplices no crime organizado para os momentos finais das eleições presidenciais em Honduras. Em 24 de dezembro, Nasry Asfura, candidato direitista, apoiado por Trump e Hernández, foi declarado vencedor num pleito suspeito, recheado por denúncias de fraude no processo de apuração, que se arrastou por três semanas, na contagem manual – “auditável” – do s votos. Simples assim.
Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html

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