08 janeiro 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Leituras de férias
Abraham B. Sicsu  

Aposentado tira férias. Quinze dias, logo depois do Natal. Faz alguns anos vamos para Tamandaré em Pernambuco. Toda a família. Filhos, netos e queridos que a vida agregou ao grupo familiar.

A rotina muda. Acorda-se para ver o alvorecer, boas caminhadas, banhos de mar, pelo menos dois ao dia, bebidinhas e tira gostos para papos demorados, a barraca do Gil é um sucesso, almoço com todos presentes, excursões à cidade de noite, para conhecer as novidades e comilanças.

Televisão é proibida. O fundamental é a rede, o sofá e as leituras. Meu filho e companheira trazem, sempre, muitos livros para nos deliciarmos. Colocar em dia a literatura que fica para trás com o dia a dia corrido.

Este ano li quatro, alguns fora da minha área habitual de concentração. Muito me disseram.

Antropologia da Compaixão de Mônica Pedrosa Rangel. Um trabalho bem escrito sobre a importância de entender o sentido da vida em conjunto. Em um mundo em que estar próximo e entender os outros se fazem necessários.

Um livro que recebemos da autora, com mais de trezentas páginas, uma tese sobre como se desenvolve e técnicas que são utilizadas para fortalecer a compassividade. 

Evidentemente, não é a minha praia. Principalmente a parte das experiências práticas desenvolvidas pela autora. Mas, gostei muito da contextualização, dos capítulos iniciais, da visão teórica.

Desconhecia os textos de Marx sobre alienação, principalmente os dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. Alienações do trabalhador que vão desde a sua separação daquilo que produz e não tem acesso, até a sua alienação nas relações sociais. Também, para um não iniciado na área como eu, entender as razões do suicídio descritas por Émile Durkheim, atreladas ao perfil da sociedade em que se dão a formação e consolidação das esperanças de vida, pareceu-me uma novidade interessante.

Tinha recebido no amigo secreto da família. Queria ler. Brasil no Espelho de Felipe Nunes. Uma leitura não de um cientista social, como crítica bem estruturada de um artigo que li na revista Será?, mas como curioso pelas características do país em que vivemos.

O volume de informações impressiona. A maioria ratificando aquilo que já sabemos, muito bom ter dados para confirmar. Os capítulos finais, do oitavo ao décimo, trazem as observações e conclusões do autor, mais palatáveis para o público em geral.

Dois aspectos me chamam a atenção e ressalto. Um que fica muito claro, qualquer generalização que se faça sobre a sociedade brasileira se incorre em erro. Somos muito díspares, social e regionalmente. Temos perfis de formação e de identificação muito diferentes.

Com isso, análises superficiais que geralmente são feitas e generalizam as conclusões que são tiradas, pouco dizem sobre a realidade concreta que iremos enfrentar. Isso fica mais claro quando se está preocupado com o quadro eleitoral que teremos de enfrentar muito em breve.

Um segundo ponto, com o qual me identifiquei, é a estratificação geracional que assume. Detesto a sopa de letrinhas usuais dos textos alienígenas, principalmente os vindos dos Estados Unidos da América, assumida pelos nossos pseudo intelectuais como caracterização de nossa sociedade. Nada me dizem geração X,Y e Z.

Acho que definir quatro grupos, partindo no qual me incluo, o Bossa Nova, geração hoje com mais de 60 anos, passando pelo grupo que se formou na Ditadura Militar, indo para o que tem suas bases no período da redemocratização e chegando à geração viciada em internet, os jovens de hoje, parece bem mais próximo do que somos.

Claro, todas as gerações brasileiras são conservadoras, mas com características muito diferentes. Entender a geração .com deu-me um pouco de alento, uma geração mais aberta nos costumes, mais disposta a compreender seus semelhantes, que convive bem com o progresso técnico que se faz presente. Tenho convicção que esse perfil pode ser um ponto de partida para mudanças futuras para um Brasil mais sadio mentalmente.

Se alguém mereceu o Nobel de literatura, não tenho dúvidas, foi Han Kang. A escritora coreana tem uma prosa poética que encanta, que faz com que tenhamos sonhos de um mundo melhor.

Li “O Livro Branco”. A história da irmã que não conheceu, que morreu ao nascer, que provavelmente, se tivesse sobrevivido, não daria espaço ao surgimento da autora. O simbolismo do branco, em toadas as suas dimensões. Do luto, em alguns países, ao frio das geleiras, das plantas aos pássaros que representa. Um texto que vai construindo imagens que ficam na alma, que faz a memória recordar tempos que vivemos ou poderíamos ter vivido.

Com leveza, com sabedoria de quem entende os detalhes, com paixão ao próximo que justifica nossa existência. Mais que recomendo, lerei novamente detendo-me aos detalhes, ajuda muito a enfrentar as intempéries da vida.

Fui ao último. Orbital de Samantha Harvey. Premiado, a história de seis astronautas em uma estação espacial, observando a terra e o fluir de seus pensamentos.

Acreditei que tinha algo de ficção científica. Engano meu. Muito mais um pensar de cada um dos participantes sobre sua relação com o mundo e com sua história. Tem passagens muito interessantes.

No entanto, achei um pouco hermético, diria até claustrofóbico, a solidão que todos nós enfrentamos com o dialogar com nossos pensamentos. Acredito que vale a pena no sentido de ser um texto em que o leitor se encontra com o mundo interior dos personagens que pode ser refletido em seus possíveis caminhos de vida.

As férias acabaram. Voltarei ao dia a dia. Com as leituras, às vezes, enfadonhas do mundo econômico. Com as catástrofes ecológicas, com os desvarios de poderosos, com o pessimismo habitual de quem observa o menosprezo pela empatia imperando.

Também, com uma firme convicção. Ano que vem novamente férias!!!

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