Leituras de férias
Abraham
B. Sicsu
Aposentado tira férias. Quinze dias, logo depois do Natal. Faz alguns anos vamos para Tamandaré em Pernambuco. Toda a família. Filhos, netos e queridos que a vida agregou ao grupo familiar.
A rotina muda.
Acorda-se para ver o alvorecer, boas caminhadas, banhos de mar, pelo menos dois
ao dia, bebidinhas e tira gostos para papos demorados, a barraca do Gil é um
sucesso, almoço com todos presentes, excursões à cidade de noite, para conhecer
as novidades e comilanças.
Televisão é proibida.
O fundamental é a rede, o sofá e as leituras. Meu filho e companheira trazem,
sempre, muitos livros para nos deliciarmos. Colocar em dia a literatura que
fica para trás com o dia a dia corrido.
Este ano li quatro,
alguns fora da minha área habitual de concentração. Muito me disseram.
Antropologia da
Compaixão de Mônica Pedrosa Rangel. Um trabalho bem escrito sobre a importância
de entender o sentido da vida em conjunto. Em um mundo em que estar próximo e
entender os outros se fazem necessários.
Um livro que
recebemos da autora, com mais de trezentas páginas, uma tese sobre como se
desenvolve e técnicas que são utilizadas para fortalecer a compassividade.
Evidentemente, não é
a minha praia. Principalmente a parte das experiências práticas desenvolvidas
pela autora. Mas, gostei muito da contextualização, dos capítulos iniciais, da
visão teórica.
Desconhecia os textos
de Marx sobre alienação, principalmente os dos Manuscritos
Econômico-Filosóficos de 1844. Alienações do trabalhador que vão desde a sua
separação daquilo que produz e não tem acesso, até a sua alienação nas relações
sociais. Também, para um não iniciado na área como eu, entender as razões do
suicídio descritas por Émile Durkheim, atreladas ao perfil da sociedade em que
se dão a formação e consolidação das esperanças de vida, pareceu-me uma
novidade interessante.
Tinha recebido no
amigo secreto da família. Queria ler. Brasil no Espelho de Felipe Nunes. Uma
leitura não de um cientista social, como crítica bem estruturada de um artigo
que li na revista Será?, mas como curioso pelas características do país em que
vivemos.
O volume de
informações impressiona. A maioria ratificando aquilo que já sabemos, muito bom
ter dados para confirmar. Os capítulos finais, do oitavo ao décimo, trazem as
observações e conclusões do autor, mais palatáveis para o público em geral.
Dois aspectos me
chamam a atenção e ressalto. Um que fica muito claro, qualquer generalização
que se faça sobre a sociedade brasileira se incorre em erro. Somos muito
díspares, social e regionalmente. Temos perfis de formação e de identificação
muito diferentes.
Com isso, análises
superficiais que geralmente são feitas e generalizam as conclusões que são
tiradas, pouco dizem sobre a realidade concreta que iremos enfrentar. Isso fica
mais claro quando se está preocupado com o quadro eleitoral que teremos de
enfrentar muito em breve.
Um segundo ponto, com
o qual me identifiquei, é a estratificação geracional que assume. Detesto a
sopa de letrinhas usuais dos textos alienígenas, principalmente os vindos dos
Estados Unidos da América, assumida pelos nossos pseudo intelectuais como
caracterização de nossa sociedade. Nada me dizem geração X,Y e Z.
Acho que definir
quatro grupos, partindo no qual me incluo, o Bossa Nova, geração hoje com mais
de 60 anos, passando pelo grupo que se formou na Ditadura Militar, indo para o
que tem suas bases no período da redemocratização e chegando à geração viciada
em internet, os jovens de hoje, parece bem mais próximo do que somos.
Claro, todas as
gerações brasileiras são conservadoras, mas com características muito
diferentes. Entender a geração .com deu-me um pouco de alento, uma geração mais
aberta nos costumes, mais disposta a compreender seus semelhantes, que convive bem
com o progresso técnico que se faz presente. Tenho convicção que esse perfil
pode ser um ponto de partida para mudanças futuras para um Brasil mais sadio
mentalmente.
Se alguém mereceu o
Nobel de literatura, não tenho dúvidas, foi Han Kang. A escritora coreana tem
uma prosa poética que encanta, que faz com que tenhamos sonhos de um mundo
melhor.
Li “O Livro Branco”.
A história da irmã que não conheceu, que morreu ao nascer, que provavelmente,
se tivesse sobrevivido, não daria espaço ao surgimento da autora. O simbolismo
do branco, em toadas as suas dimensões. Do luto, em alguns países, ao frio das
geleiras, das plantas aos pássaros que representa. Um texto que vai construindo
imagens que ficam na alma, que faz a memória recordar tempos que vivemos ou poderíamos
ter vivido.
Com leveza, com
sabedoria de quem entende os detalhes, com paixão ao próximo que justifica
nossa existência. Mais que recomendo, lerei novamente detendo-me aos detalhes,
ajuda muito a enfrentar as intempéries da vida.
Fui ao último. Orbital
de Samantha Harvey. Premiado, a história de seis astronautas em uma estação
espacial, observando a terra e o fluir de seus pensamentos.
Acreditei que tinha
algo de ficção científica. Engano meu. Muito mais um pensar de cada um dos
participantes sobre sua relação com o mundo e com sua história. Tem passagens
muito interessantes.
No entanto, achei um
pouco hermético, diria até claustrofóbico, a solidão que todos nós enfrentamos
com o dialogar com nossos pensamentos. Acredito que vale a pena no sentido de
ser um texto em que o leitor se encontra com o mundo interior dos personagens
que pode ser refletido em seus possíveis caminhos de vida.
As férias acabaram.
Voltarei ao dia a dia. Com as leituras, às vezes, enfadonhas do mundo
econômico. Com as catástrofes ecológicas, com os desvarios de poderosos, com o
pessimismo habitual de quem observa o menosprezo pela empatia imperando.
Também, com uma firme
convicção. Ano que vem novamente férias!!!
Leia também: Primórdios do cinema: Lumière – a aventura continua! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/primordios-do-cinema.html

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