Lula defende multilateralismo, soberania das nações e sustentabilidade
Reunido com o primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, presidente fecha parcerias e defende o acordo Mercosul-UE, a diversificação energética e o desenvolvimento sustentável
Priscila Lobregatte/Vermelho
Em visita à Alemanha nesta segunda-feira (20), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o primeiro-ministro Friedrich Merz e assinou acordos de cooperação. Após o encontro, foi realizada uma entrevista coletiva com os dois líderes nos quais foram tratados temas relevantes da agenda global e entre os dois países.
O governo informou que foram fechados acordos nas áreas de defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia e pesquisa oceânica e climática.
Um dos pontos destacados da entrevista foi a entrada em vigor, a par5ir de 1º de maio, do acordo Mercosul-União Europeia. Na avaliação de Lula, trata-se de um passo importante para a diversificação das relações comerciais e para o fortalecimento da resiliência econômica, mas também do ponto de vista dos direitos humanos e do meio ambiente.
“Depois de 25 anos de negociações, nossas regiões disseram sim à integração para criar uma zona de livre comércio que reúne 720 milhões de pessoas e que soma um PIB de 22 trilhões de dólares”, declarou.
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Lula acrescentou que o acordo “abre espaço para uma parceria abrangente, que vai muito além do livre comércio. Estamos falando de um modelo de cooperação que valoriza e protege os trabalhadores, os direitos humanos e o meio ambiente”.
Ao falar da parceria entre Brasil e Alemanha, Friedrich Merz ressaltou que tal relação ganha ainda mais importância em um contexto marcado por tantas transformações em nível global.
“Fico muito agradecido ao Brasil porque é um dos poucos países com quem temos esse status. Com o Brasil, temos uma parceria estratégica robusta e dinâmica e conseguimos fomentar essa parceria nesses últimos dias. Essa proximidade é mais importante do que nunca, nesses tempos de tanta mudança na ordem mundial”, afirmou.
Clima e energia
No que diz respeito à a agenda climática, o presidente brasileiro enfatizou o compromisso do País com a preservação ambiental e o combate ao desmatamento, com meta de zerar a prática até 2030, apresentando os resultados já alcançados e destacando a cooperação com a Alemanha nessa área.
“Até agora, já reduzimos em 50% os índices de desmatamento na Amazônia e em 32% no Cerrado. Restabelecemos e ampliamos nossa cooperação ambiental com a Alemanha no Fundo Amazônia, aliada desde sua constituição em 2008”, registrou Lula.
Quanto à questão energética, Lula defendeu a diversificação das matrizes e criticou as resistências ainda existentes na Europa ao uso de biocombustíveis.
“Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora de a Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis”, disse, apontando-os como opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transportes.
Além disso, Lula enfatizou a experiência brasileira na produção de etanol e biodiesel: “Com conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de floresta”.
Ao tratar da exploração de minerais críticos, o presidente declarou que “nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país, que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities”.
Soberania digital
Na coletiva, o presidente também tratou da agenda digital, ressaltando a convergência entre Brasil e Alemanha na promoção da soberania tecnológica, no desenvolvimento de infraestrutura digital e na regulação de plataformas e da inteligência artificial.
“Estamos comprometidos com o desenvolvimento de infraestruturas digitais, como data centers, computadores de alto desempenho e semicondutores. Não queremos mais permanecer dependentes de empresas estrangeiras que enriquecem às custas dos dados de nossos cidadãos, sem garantias de privacidade e segurança”, disse Lula.
Ele defendeu a proteção de dados, a segurança digital e o equilíbrio entre liberdade de expressão e direitos humanos. “Há convergências entre as diretrizes do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e a política alemã para o tema, como a ênfase no desenvolvimento de capacidades locais. Alemanha e Brasil são aliados na regulação das plataformas virtuais e do uso da inteligência artificial”, disse Lula.
Guerras e multilateralismo
A guerra no Oriente Médio e a inação da ONU frente aos vários conflitos e intervenções recentes também foram temas abordados durante a coletiva.
“A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada”, opinou Lula.
Além disso, o presidente brasileiro afirmou que “entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança”.
Lula reafirmou sua posição contrária à sanção dos EUA a Cuba, bem como a intervenções unilaterais, prática que tem sido rotineira durante o mandato de Donald Trump. “Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não”, disse.
Ele também criticou o bloqueio econômico imposto pelos EUA a Cuba há quase 70 anos. “Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo”, completou.
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"Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html

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