Uberização bancária
A uberização dos serviços e a preservação da hierarquia: por
que a modernização tecnológica altera a forma de acesso ao sistema, mas não a
estrutura de poder do funding
FERNANDO
NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda
1.
A
ideia de “uberização bancária” das fintechs refere-se a
um arranjo institucional no qual muitas empresas financeiras digitais aparecem
para o cliente como “o banco”, mas a infraestrutura financeira profunda –
liquidação, funding, balanço e risco – continua
concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no transporte urbano com
plataformas digitais: a interface mudou, mas a infraestrutura subjacente
permaneceu concentrada.
No
sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por
meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e
serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo,
Nubank, Banco Inter e C6 Bank.
Na
camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária,
o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a
gestão de risco e o capital regulatório. Essa camada continua altamente
concentrada em grandes instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco,
Itaú, Caixa, Santander) conforme indicam os balanços bancários.
O
papel da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil,
foi reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora
qualquer instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos
digitais e contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.
Mas
o Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no
Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs possuem
estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.
Mesmo
oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem
estruturalmente de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de
recursos, funding de crédito e emissão de
determinados instrumentos financeiros.
Uma fintech oferece
uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura financeira. A
dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.
Quem
controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos
são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador
empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é
necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão
de risco com base em grande banco de dados.
2.
Os
grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs acabam
originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou
securitizando esse crédito para instituições maiores.
É
possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica
lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como
interface apps e como infraestrutura motoristas e
frota. O streaming tem
como interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O
comércio eletrônico tem como interface o marketplace e como
infraestrutura logística. No sistema financeiro, na camada de interface é ator
a fintech, mas no balanço e liquidez o ator é o grande banco.
Esse
arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais
competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração
financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o funding do
sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios continuam
concentrados.
O
possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir
para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open
finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com
fintechs e aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos
sistêmicos continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do
crédito e do funding.
A
“uberização bancária” significa fintechs dominarem a
interface digital com o cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço
financeiro e o crédito. Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de
acesso ao sistema, mas não necessariamente a estrutura de poder dentro dele.
No
entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras
universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode
alterar profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.
Há
uma mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de
crédito e depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados,
semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por
três transformações interligadas.
Na
primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a
conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e
transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente
todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas,
pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e
integração com aplicativos.
3.
O
fluxo de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto
mais o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar
serviços adicionais.
Há
integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros
estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do
BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix,
crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e marketplace financeiro.
Assim, o aplicativo no mobile banking (celular)
deixa de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos
serviços financeiros.
Dados
financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações
sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados
permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais
precisa e criar ofertas automáticas.
Essa
lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba
Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta
de serviços.
O
efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a
usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e
contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é
conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no
mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.
O
papel institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi
possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como
Pix, open
finance e novos tipos de instituições de pagamento.
Essas
iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também
permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais
integradas.
Isso
poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir
três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições
com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs especializadas:
empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou investimentos);
(c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance capazes
de conectarem todos os participantes.
Nesse
cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos
isolados.
Em
síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a
conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida
financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na
economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar
dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.
Por
isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas
financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande
parte das transações e serviços financeiros da economia.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.
Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
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As big techs e a teoria do Valor-Atenção https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/mais-valia-transmutada.html

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