29 maio 2026

Editorial do 'Vermelho'

Família Bolsonaro e Trump atacam, novamente, a soberania do Brasil
A classificação de facções criminosas como organizações terroristas pelos Estados Unidos, além prejudicar o combate a essas facções, é nociva à economia nacional e expõe o Brasil à intervenção estrangeira
Editorial do 'Vermelho' 

A classificação pelo governo dos Estados Unidos do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), duas facções criminosas, como organizações terroristas tem múltiplas implicações. A decisão se deu logo após a visita do candidato a presidente da extrema direita, Flávio Bolsonaro, ao presidente estadunidense Donald Trump, que teria pedido a inclusão dessas facções na lista do Departamento de Estado daquele país. Com o candidato estavam seu irmão, Eduardo Bolsonaro, e o blogueiro Paulo Figueiredo, ambos foragidos da Justiça brasileira. A grande mídia estadunidense afirma que a decisão resultou de um “lobby agressivo dos Bolsonaros.”

De acordo com o comunicado de Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, a partir de 5 de junho o PCC e CV serão incluídos na lista de organizações terroristas estrangeiras, após notificação ao Congresso. O governo Trump classificou, desde o ano passado, mais de uma dúzia de facções latino-americanas como organizações terroristas, parte de sua investida de ingerência na região a pretexto de atingir grupos criminosos que representariam ameaça aos Estados Unidos.

Na prática, são ações da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, atualizada por Trump para reforçar o conceito de seu quintal para a América Latina. A ideia foi reforçada por Trump na cúpula Escudo das Américas, realizada em 7 de março, em Miami, nos Estados Unidos, ao anunciar cooperação militar com doze de seus aliados no chamado Hemisfério Ocidental, iniciativa também descrita como Coalizão Anticartéis das Américas.

Suas decisões causaram tensões com países como México e Colômbia, e agora estão de volta nas relações com o Brasil, após uma aproximação que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a visitar a Casa Branca. A designação de “organizações terroristas” pode servir de pretexto para os Estados Unidos realizarem operações, inclusive militares, extraterritoriais de forma unilateral, como fizeram no México, com infiltrações de agentes no país, e na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro.

O governo brasileiro argumentou que a medida abre precedentes para intromissão em assuntos internos e afronta a soberania nacional. “Não aceitamos ser tratados como moleques”, reagiu o presidente Lula. Em nota, o governo afirmou que “a soberania nacional é inegociável”. “O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o assessor especial Celso Amorim destacaram que essas facções são motivadas por lucro financeiro, e não por ideologia ou fins políticos e religiosos, contrárias ao conceito legal de terrorismo. “O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação”, disse Celso Amorim em um fórum de segurança em Moscou no final de maio de 2026. Segundo o ex-chanceler equiparar crime organizado a terrorismo não é correto e pode servir como inaceitável “pretexto para intervenção” no Brasil.

O governo também tem enfrentado, no Congresso Nacional, tentativas da extrema direita de ampliar o conceito de terrorismo para incluir organizações criminosas, medida que daria razão à ingerência do governo dos Estados Unidos, a exemplo da Lei Antifacção, que tipifica os atos violentos de facções, sem equiparação direta ao terrorismo, mas que endurece as penas e cria a categoria de “organização criminosa ultraviolenta”.

A Lei Antiterrorismo nacional, de 2016, regulamenta a Constituição Federal para conceituar, tipificar e punir os crimes de terrorismo no território nacional e exige motivação política, ideológica ou religiosa. Há ainda a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, aprovada na Câmara dos Deputados em março de 2026, que enfrenta forte resistência da extrema direita e de setores da direita para ser aprovada no Senado.

A medida do governo Trump, na verdade, ao contrário do que alardeiam os bolsonaristas, dificulta o combate às facções, porque compromete a cooperação entre as polícias do Brasil e dos Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional, narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro, envolvendo inteligência em tempo real. Com os programas Desarma e Interdição Mútua, a Receita Federal brasileira e autoridades estadunidenses realizam trocas de informações em tempo real sobre a circulação de armamento pesado, drogas e munições.

As novas regras dificultam drasticamente essa cooperação, pois nos Estados Unidos o tema irá passar à alçada da Central de Inteligência Americana (CIA) e do Pentágono, o que impõe sigilo a qualquer informação relevante e, na prática, favorece as organizações criminosas.

Criam também dificuldades para a economia, expondo o sistema bancário e financeiro à desconfiança, fato que pode resultar em perda de investimentos estrangeiros e, também, imposição de sanções draconianas. Para isto, basta a CIA apontar que circulou, em determinado banco, mesmo que sem responsabilidade direta, algum montante das facções, como já ocorreu em outros países.

Outro setor que pode ser afetado é o do turismo, contido pelo impacto no fluxo de visitantes, a começar por sua porta de entrada, o Rio de Janeiro. A imigração, os vistos estadunidenses, sobretudo de pessoas que residem em cidades onde há presença das facções, serão dificultados.

A medida é mais um ataque ao Brasil, a exemplo do que ocorreu com o tarifaço de Trump e as sanções pela Lei Magnitsky para tentar impedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse preso por orquestrar um golpe de Estado e liderar uma organização criminosa.

É também uma aberta ingerência no processo eleitoral brasileiro, num momento em que que o candidato da extrema direita está em queda pelas revelações de seu vínculo com o banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o presidente Lula avança nas pesquisas, beneficiado pelas entregas populares de seu governo, a exemplo da recente aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana, sem redução salarial. Trata-se, também, de uma de boia de salvação para Flávio Bolsonaro, uma tentativa de reavivar a competitividade de sua candidatura.

A conclusão é óbvia: Flávio Bolsonaro é um candidato totalmente subordinado ao governo Trump. Demonstra que a coordenação geral de sua campanha não está no Brasil, mas em Washigton. Um governo com o seu perfil seria tutelado por uma potência estrangeira, constatação que exige do campo democrático e patriótico, das personalidades e instituições representativas do povo, compromisso para repelir essa medida, que além de eleitoreira afronta a soberania nacional. Cabe ao campo popular, democrático e patriótico lutar para derrotar o títere de Trump e reeleger o presidente Lula.

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Soberania nacional e entreguismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/abraham-sicsu-opina.html 

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