A pedalada de Campos Neto em Abu Dhabi
Como Campos Neto usou a rede que construiu no Banco Central para
viabilizar a migração do Nubank das Ilhas Cayman para os Emirados Árabes
Luís Nassif/Jornal GGN
Os Emirados Árabes se tornaram o ponto de encontro de todo o universo bolsonarista. No contexto das investigações que envolvem o clã Bolsonaro, o ecossistema Master e operadores financeiros ligados ao crime organizado, o país exerce uma função estrutural: é o ponto de convergência entre capital ilícito em fuga, investimento soberano com apetite por ativos subavaliados e proteção política a operadores que precisam de jurisdições opacas.
Os Emirados Árabes Unidos, embora
rejeitem oficialmente o rótulo de paraíso fiscal, oferecem ausência de imposto
de renda para pessoas físicas, inexistência de tributaç&at ilde;o sobre herança
ou ganho de capital, facilidade para abertura de empresas e contas bancárias e
possibilidade de residência de longo prazo sem vínculo empregatício. O emirado
foi incluído em lista internacional de observação por falhas no combate à
lavagem de dinheiro em 2022 e, apesar de avanços recentes, especialistas
apontam que o sistema ainda oferece brechas para ocultação patrimonial e evasão
fiscal.
Esse modelo não é acidental. Dubai
foi projetado como polo de atração de capitais globais sem excessivo escrutínio
sobre sua origem — o que o torna, na prática, uma plata forma de circulação de
riqueza que, quando cruzada com investigações de fraude, invariavelmente
aparece como pano de fundo.
A visita de Campos Neto a Abu Dabi
No dia 7 de abril de 2026, a Agência
de Notícias dos Emirados Árabes (WAM) publicou uma nota protocolar: o Príncipe
Herdeiro de Abu Dhabi, Xeique Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, havia se
reunido com David Vélez, fundador e CEO do Nubank, para discutir oportunidades
de investimento nos Emirados. O comunicado registrava, entre os presentes,
Roberto Campos Neto, Vice-Chairman e Chefe Global de Políticas Públicas do
Nubank. O resultado: o banco confirmaria sua nova sede global no Abu Dhabi
Global Market (ADGM).
Para o noticiário financeiro internacional,
foi mais um movimento da expansão global do maior neobank da América Latina.
Para quem acompanha de perto a trajetória de Campos Neto desde o Banc o
Central, a cena foi outra: a culminação de uma arquitetura de relacionamentos
construída ao longo de seis anos no comando da autoridade monetária brasileira
— e agora colocada inteiramente a serviço de uma empresa privada com sede em
paraíso fiscal.
A engrenagem
Campos Neto chegou ao Nubank em julho
de 2025, após cumprir os seis meses de quarentena determinados pela legislação
brasileira. Seu cargo — Vice-Chairman e Chefe Global de Políticas P úblicas —
descrevia com precisão a função: abrir portas regulatórias que o banco,
sozinho, não conseguiria abrir.
No Brasil, a rede que construiu
durante a presidência do Banco Central alcança desde o senador Ciro Nogueira
até o governador Tarcísio de Freitas. Frequentemente convidado ao Palácio d os
Bandeirantes para assistir a jogos do campeonato brasileiro, Campos Neto mantém
com Tarcísio uma proximidade que transcende o protocolo institucional — foi a
ele que o governador desabafou, com um palavrão, ao saber que Flávio Bolsonaro
se lançara candidato à presidência. A relação com Ciro Nogueira, por sua vez,
ajuda a explicar a facilidade com que o BC permitiu a venda do Banco Master a
Daniel Vorcaro, cuja reputação — inclusive junto às autoridades policiais — já
era conhecida.
Mas a rede não se limita ao círculo
bolsonarista. Ela se estende aos Estados Unidos de forma pessoal e familiar. A
esposa de Campos Neto mantém proximidade com a mulher do senador republicano
Marco Rubio — os filhos frequentam o mesmo bootcamp nas férias. Um dos membros
do conselho do Nubank nos EUA é irmão de um senador republicano de Ohio. O cônsul
americano Kevin Murakami convida Campos Neto regularmente para jantares e
almoços.
Não apenas isso. Campos Neto é uma
personalidade essencialmente ideológica, que mantém relações estreitas com a
ultradireita do continente, incluindo Milei, na Argentina, Nayib Bukele, em El
Salvador, Santiago Peña, presidente do Paraguai, e os Bolsonaro no
Brasil, além de Marco Rubio.
Essa rede produziu resultados
concretos. Em janeiro de 2026, o Nubank recebeu aprovação condicional para uma
licença bancária nacional nos Estados Unidos — tornando-se o primeiro grand e
banco digital nascido na América Latina a obter autorização para operar no
mercado americano. Sem Campos Neto, segundo fontes próximas às negociações, a
operação não teria saído do papel. Mais do que isso: Campos Neto
conseguiu colocar um ex-membro do OCC — o Office of the Comptroller of the
Currency, principal regulador bancário americano — no conselho do banco.
A extensão dessa influência ficou
clara em novembro de 2025. Enquanto o governo Haddad não conseguia estabelecer
contato com Washington no pico da crise diplomática gerada pelas tarifas impos
tas por Trump, Campos Neto se reunia com Scott Bessent — o secretário do
Tesouro americano — na mesma semana.
Das Ilhas Cayman a Abu Dhabi
A mudança de sede para o Abu Dhabi
Global Market não é um simples movimento de expansão geográfica. A Nu Holdings,
holding controladora do Nubank, está domiciliada nas Ilhas Ca yman — jurisdição
amplamente reconhecida como paraíso fiscal. A transferência para Abu Dhabi
obedece a uma lógica de pedalada fiscal: as vantagens tributárias
dos Emirados, combinadas com o prestígio regulatório do ADGM, oferecem ao banco
uma plataforma politicamente mais palatável que a atual — sem abrir mão do
essencial.
O ADGM é um centro financeiro
offshore dentro de Abu Dhabi, com jurisdição própria baseada na lei inglesa,
regulação independente e tributação zero sobre lucros c orporativos. Para o
Nubank, significa manter a arquitetura fiscal de holding offshore enquanto
ganha um endereço mais respeitável — e acesso direto aos fluxos de capital do
Golfo Pérsico, da Ásia Central e dos mercados africanos em expansão.
É nesse contexto que a reunião de 7
de abril com o Príncipe Herdeiro — onde Campos Neto estava sentado à mesa —
ganha seu verdadeiro significado. Não foi uma visita comerc ial ordinária. Foi
o ex-presidente do Banco Central do Brasil abrindo, em nome de uma empresa
privada, o mesmo tipo de canal diplomático que conduzia em nome do Estado
brasileiro.
Não é irrelevante o contexto
emiradense. O Xeique Khaled é membro da família Al Nahyan, cuja rede de
relacionamentos com o Brasil foi construída nos anos Bolsonaro — incluindo a
aquisição da Refinaria de Mataripe (antiga Landulpho Alves), na Bahia, pelo
fundo Mubadala, e a promessa de investimentos bilionários em Angra dos Reis,
através de seu irmão Tahnoun. O episódio das joias apreendidas na Receita
Federal, oriundas de Abu Dhabi, fez parte do mesmo período.
A porta giratória em rotação máxima
O caso Campos Neto-Nubank foi
descrito pelo movimento sindical dos servidores do Banco Central como “o mais
escandaloso caso de porta giratória da história do Brasil”. A acusação tem
fundamento estrutural.
Durante sua gestão na autoridade
monetária, Campos Neto foi o arquiteto de políticas que beneficiaram
diretamente as fintechs brasileiras: o Pix, o Open Finance, a regulamentação do
m ercado de criptoativos, o Drex. O Nubank foi um dos maiores beneficiários dessas
políticas — e o contratou imediatamente após o fim da quarentena.
Mas o problema não se esgota na
questão ética. Há dimensões mais concretas. O próprio anúncio da contratação
foi formalizado a partir de Grand Cayman &mdas h; território offshore,
domicílio da Nu Holdings. O banco que ele regulou opera a partir de um paraíso
fiscal. O ex-regulador trabalha para essa empresa. E agora usa contatos
institucionais construídos com dinheiro público, em nome do Estado brasileiro,
para viabilizar a migração da holding para outro paraíso fiscal com melhor
marketing.
O acordo enterrado
Em paralelo, corre na Justiça um
processo que revela outra faceta da gestão de Campos Neto. Após deixar o Banco
Central, ele firmou um acordo sigiloso com a instituição, no qual pagou R$ 300
mil de multa sem reconhecer formalmente as infrações que motivaram a
penalidade.
O acordo foi publicado brevemente no
portal do Banco Central — e em seguida removido. Um link que chegou às mãos de
jornalistas e foi divulgado resultou em ação judicial movida por Cam pos Neto
contra o divulgador. Na primeira audiência, o ex-presidente do BC sequer
compareceu.
O que o acordo contém, e por que foi
retirado do portal público da autarquia, são perguntas que o processo judicial
— e a imprensa — ainda precisam responder.
A crise que o mercado ainda não viu
Por trás da expansão internacional,
há uma realidade interna que o Nubank cuida para não vazar. A saída do CTO em
julho de 2025 — por discordâncias com David Vélez sobre a obsessão com
inteligência artificial — desencadeou uma sangria de talentos técnicos que
ainda não terminou.
O retorno obrigatório ao escritório,
anunciado em novembro de 2025, afetou desproporcionalmente engenheiros
contratados durante o boom do trabalho remoto em cidades fora de São Paulo.
Profissionais casados com servidores públicos, instalados em outras regiões,
simplesmente pediram demissão. O resultado: em um único mês, três dos seis
diretores-gerais de engenharia do banco — metade da liderança técnica — saíram.
A Chief Communications Officer também deixou o cargo.
O Nubank é, em sua essência, um banco
de tecnologia. Uma crise na engenharia não é um problema de RH — é um risco
operacional.
Há outros sinais de alerta. Nos
últimos tempos, o banco expandiu sua carteira aceitando clientes recusados por
outras instituições — um perfil de risco que, em condições de estresse, pode se
mostrar mais oneroso do que o crescimento justifica.
E há a aposta americana. O Nubank
instalou-se nos Estados Unidos pretendendo repetir, junto às comunidades latinas,
o modelo brasileiro de crédito com margens elevadas. O problema é que o am
biente regulatório americano pode não comportar essa estratégia: em janeiro de
2026, Donald Trump anunciou ofensiva para estabelecer um teto de 10% nos juros
do cartão de crédito. Em fevereiro de 2025, os senadores Bernie Sanders e Josh
Hawley — numa aliança incomum entre esquerda e direita — já haviam apresentado
proposta para limitar os juros do cartão a 10% por cinco anos. A taxa média
americana era de 22,3% ao ano em novembro de 2025. Se o teto for aprovado, o
modelo de negócio do Nubank nos EUA precisará ser inteiramente reconfigurado.
Coda
Na reunião de 7 de abril em Abu
Dhabi, enquanto o Príncipe Herdeiro e David Vélez discutiam a nova sede global
do Nubank, Roberto Campos Neto estava sentado à mesa. Era o arquiteto da
opera& ccedil;ão — o homem que abriu os contatos nos Emirados, que
articulou a licença americana, que colocou reguladores nos conselhos do banco.
Ele construiu essa rede enquanto presidia o Banco Central do Brasil.
Agora ela rende dividendos para uma empresa privada domiciliada em paraíso
fiscal — que está de saída para outro paraíso fiscal com melhor reputação.
O Brasil pagou pela construção. O
Nubank colhe os frutos. E o Estado brasileiro, que deveria zelar pela
integridade dessas fronteiras, ainda não encontrou os instrumentos para impedir
que a rotação continue.
[Ilustração: imagem em IA]
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Leia também: A política de juros do Banco Central é um desastre < i>https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/bolsa-banqueiro-x-bolsa-familia.html

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