A
continuidade do golpismo em ação na Suprema Corte
A essência do bolsonarismo é a tentativa de golpe permanente
contra a República
João Cear de Castro Rocha/Liberta
Clausewitz dos trópicos?
O
general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) desenvolveu uma reflexão
muito importante sobre o conceito de guerra, em seu livro Vom
Kriege (Da Guerra), publicado
postumamente em 1832. Autêntico tratado, tão completo quanto ambicioso, em sua
obra, Clausewitz cunhou a célebre fórmula: a guerra é a continuidade da política
por outros meios.
O
sentido precisa ser esclarecido. Muitos veem a guerra como um evento
excepcional, uma ilha de ânimo bélico cercada por um dia a dia definido por
períodos pacíficos. Clausewitz desmontou essa ilusão com precisão germânica: na
verdade, a guerra é antes o espírito dominante; afinal, a política não seria a
sublimação do conflito por meio da mediação das instituições? Quando deixam de
funcionar a contento, a guerra se impõe, como recordou Paulo Lins numa
das epígrafes do romance Cidade de Deus.
Falha a fala
Fala a bala.
O
bolsonarismo é uma ilustração involuntária do princípio; involuntária porque,
certamente, os bolsonaristas nunca leram o livro de Carl von Clausewitz. No
caso brasileiro, a fórmula conheceria uma metamorfose sintomática: o golpismo é
a continuidade da política por outros meios. Em outras palavras, a verdadeira
essência da política para o capitão e seus cúmplices é o peculato
desavergonhado, o conluio miliciano, o arranjo entre amigos, o saqueio do
erário público.
(Golpe
permanente contra a própria ideia de República.)
Há
de tudo um pouco nas vinhas do capitão: de golpes vulgares, como colocar no
bolso o dinheiro de combustível com recursos do mandato de deputado federal, a
golpes mais articulados, as célebres rachadinhas, assumidas pelo faz-tudo
Fabrício de Queiroz; de franquia de chocolate a uma miríade de imóveis
comprados com dinheiro vivo; de campanhas de Pix a calendários com fotos das
cirurgias do ex-presidente. Para tudo acabar na sexta-feira da rede
internacional de lavagem de dinheiro propiciada pelo filme Dark Horse.
(O
operador financeiro da franquia Bolsonaro à frente do esquema – Flávio, o
Breve.)
DNA
golpista
De
1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022, o DNA golpista do bolsonarismo
exercitou sua musculatura retórica sem trégua, a fim de fomentar a explosão do
8 de janeiro de 2023. O golpe falhou, mas somente porque o Poder Judiciário
manteve as rédeas do processo eleitoral, apesar da pressão assustadora do Poder
Executivo. Se não fosse a firme conduta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e
do Supremo Tribunal Eleitoral (STF), você não estaria agora lendo este artigo,
pois o golpe planejava instaurar uma ditadura bolsonarista e muitos de nós não
estaria vivo ou, no mínimo, estaria preso ou exilado.
Nesse
caso, o que fazer? Ora, se o golpe fracassou porque o TSE impediu ações como o
bloqueio das estradas no Nordeste e o STF assumiu a guarda não apenas da
Constituição Federal, como também da jovem democracia brasileira, por que não
inverter os termos da equação? Isto é, por que não manietar o Judiciário e só
então dar o golpe?
Eis
o móvel da ação excêntrica do ministro André Mendonça. Sua missão, nada
secreta, é fomentar o caos, a fim de desmoralizar o Poder Judiciário.
Desse modo, busca acertar dois alvos com um gesto.
De um lado, se o STF perder toda a
sua credibilidade, como sustentar a correção dos julgamentos relativos à
tentativa de golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023? Ou seja, o objetivo
nunca mudou: contestar a condenação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro
para reintegrar o capitão ao processo político.
De outro lado, se o STF tiver sua
legitimidade comprometida, o ministro André Mendonça vestiria os trajes do
(anti)ministro da Defesa, José Múcio, pois tal atitude equivale a “abrir o
portão” para uma intervenção dos Estados Unidos no processo eleitoral
brasileiro.
Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html

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