20 setembro 2026

Bolsonarismo

A continuidade do golpismo em ação na Suprema Corte
A essência do bolsonarismo é a tentativa de golpe permanente contra a República
João Cear de Castro Rocha/Liberta     

Clausewitz dos trópicos?

O general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) desenvolveu uma reflexão muito importante sobre o conceito de guerra, em seu livro Vom Kriege (Da Guerra), publicado postumamente em 1832. Autêntico tratado, tão completo quanto ambicioso, em sua obra, Clausewitz cunhou a célebre fórmula: a guerra é a continuidade da política por outros meios.

O sentido precisa ser esclarecido. Muitos veem a guerra como um evento excepcional, uma ilha de ânimo bélico cercada por um dia a dia definido por períodos pacíficos. Clausewitz desmontou essa ilusão com precisão germânica: na verdade, a guerra é antes o espírito dominante; afinal, a política não seria a sublimação do conflito por meio da mediação das instituições? Quando deixam de funcionar a contento, a guerra se impõe, como recordou Paulo Lins numa das epígrafes do romance Cidade de Deus.

Falha a fala

Fala a bala.

O bolsonarismo é uma ilustração involuntária do princípio; involuntária porque, certamente, os bolsonaristas nunca leram o livro de Carl von Clausewitz. No caso brasileiro, a fórmula conheceria uma metamorfose sintomática: o golpismo é a continuidade da política por outros meios. Em outras palavras, a verdadeira essência da política para o capitão e seus cúmplices é o peculato desavergonhado, o conluio miliciano, o arranjo entre amigos, o saqueio do erário público.

(Golpe permanente contra a própria ideia de República.)

Há de tudo um pouco nas vinhas do capitão: de golpes vulgares, como colocar no bolso o dinheiro de combustível com recursos do mandato de deputado federal, a golpes mais articulados, as célebres rachadinhas, assumidas pelo faz-tudo Fabrício de Queiroz; de franquia de chocolate a uma miríade de imóveis comprados com dinheiro vivo; de campanhas de Pix a calendários com fotos das cirurgias do ex-presidente. Para tudo acabar na sexta-feira da rede internacional de lavagem de dinheiro propiciada pelo filme Dark Horse.

(O operador financeiro da franquia Bolsonaro à frente do esquema – Flávio, o Breve.)

DNA golpista

De 1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022, o DNA golpista do bolsonarismo exercitou sua musculatura retórica sem trégua, a fim de fomentar a explosão do 8 de janeiro de 2023. O golpe falhou, mas somente porque o Poder Judiciário manteve as rédeas do processo eleitoral, apesar da pressão assustadora do Poder Executivo. Se não fosse a firme conduta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Eleitoral (STF), você não estaria agora lendo este artigo, pois o golpe planejava instaurar uma ditadura bolsonarista e muitos de nós não estaria vivo ou, no mínimo, estaria preso ou exilado.

Nesse caso, o que fazer? Ora, se o golpe fracassou porque o TSE impediu ações como o bloqueio das estradas no Nordeste e o STF assumiu a guarda não apenas da Constituição Federal, como também da jovem democracia brasileira, por que não inverter os termos da equação? Isto é, por que não manietar o Judiciário e só então dar o golpe?

Eis o móvel da ação excêntrica do ministro André Mendonça. Sua missão, nada secreta, é fomentar o caos, a fim de desmoralizar o Poder Judiciário.  Desse modo, busca acertar dois alvos com um gesto.

De um lado, se o STF perder toda a sua credibilidade, como sustentar a correção dos julgamentos relativos à tentativa de golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023? Ou seja, o objetivo nunca mudou: contestar a condenação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro para reintegrar o capitão ao processo político.

De outro lado, se o STF tiver sua legitimidade comprometida, o ministro André Mendonça vestiria os trajes do (anti)ministro da Defesa, José Múcio, pois tal atitude equivale a “abrir o portão” para uma intervenção dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro.

Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html 

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