20 setembro 2026

Evangélicos nas eleições

O rosto disforme dos evangélicos no Brasil
Pelo acúmulo da última década entendemos que há um padrão no comportamento eleitoral evangélico de sufragar majoritariamente candidatos da direita em geral e do bolsonarismo em particular. Mas quem é esse evangélico? É importante destacar, outra vez, que esse grupo religioso não é uma massa única
Nilza Valeria Zacarias e Josué Medeiros*/Le Monde Diplomatique   

Os evangélicos crescem, ocupam novos espaços e ajudam a mudar o rosto religioso do Brasil. No entanto, ainda são vistos de longe, quase sempre comprimidos em pesquisas eleitorais, manchetes apressadas e rótulos que os apresentam como um bloco conservador, uniforme e previsível.

Dez anos de caminhada da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e quarenta grupos focais realizados desde 2023 contam outra história. Por trás da expressão “voto evangélico” existe um povo diverso, formado majoritariamente por mulheres, pessoas negras e pobres, que pede saúde, segurança, educação, renda e presença do Estado. Um povo desconfiado da política, mas não distante da democracia; marcado pela desinformação, mas não inteiramente capturado por ela; aberto a um diálogo que o Brasil já não pode adiar.

O país atravessa uma intensa transformação religiosa, um movimento que parece não ter volta. Os crentes estão cada vez mais presentes nas cidades, nas periferias, nas famílias e na vida pública. Os números ajudam a contar essa história. Em 1991, ano em que foi realizado o Censo previsto para 1990, os evangélicos eram cerca de 13,2 milhões de pessoas, ou 9% da população. Em 2000, já somavam 26,2 milhões, o equivalente a 15,4%. Dez anos depois, chegaram a 42,3 milhões, ou 22,2%.

No Censo de 2022, que divulgou os dados sobre religião considerando a população com 10 anos ou mais, 47,4 milhões de brasileiros se declararam evangélicos, o equivalente a 26,9% da população. Estimativas atualizadas do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves indicam que os evangélicos podem representar aproximadamente 30,4% da população em 2030, 34,7% em 2040 e 38,6% em 2049, aproximando-se dos católicos.[1]

Um crescimento inevitável, diálogos marcados por um conjunto de preconceitos contra as pessoas evangélicas, caracterizadas como conservadoras, fundamentalistas, “massa de manobra”, entre outros adjetivos pejorativos e que indicariam uma dificuldade inata de pertencimento ao regime democrático. O fato é que o termo “evangélico” virou, nos últimos anos, mais do que um pertencimento religioso. Ele tem sido usado como um carimbo que, na maioria das vezes, determina que aquela pessoa deve ser tratada com suspeição, que não tem autonomia para fazer as próprias escolhas, sendo capturada por projetos políticos antidemocráticos. Esse destaque é fundamental para explorar nossos achados e a leitura deste texto.

A Frente surgiu em 2016 justamente para provar que o segmento evangélico não é um bloco único, uma única massa. Assim, quando nos posicionamos denunciando o golpe contra a presidenta Dilma, causamos impacto na esquerda e fomos atacados pela extrema direita. Desde então, a Frente integra mobilizações das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e participa de conselhos ligados à Presidência da República e a ministérios, além de realizar pesquisas para compreender a diversidade, as experiências e as demandas da população evangélica. Entre suas iniciativas está o Papo de Crente, programa de rádio, TV e internet que aborda direitos e políticas públicas pelo viés da fé evangélica. Há também revistas de estudos bíblicos, abordando os mesmos temas, distribuídas gratuitamente pelo Brasil afora.

Debate público, trabalho e preconceito

Apesar dessa década de trabalho pesado e avanços da Frente e de outros grupos do segmento, o debate público segue com os mesmos marcadores. Por exemplo, no dia 21 de agosto, o Datafolha lançou uma pesquisa sobre as eleições presidenciais de 2026. As manchetes primeiro giraram em torno das intenções de voto em cada um dos candidatos, com destaque obviamente para a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Em um segundo momento, as reportagens se voltaram para as segmentações demográficas e geográficas. As manchetes sintetizaram o resultado do levantamento de intenções de voto da seguinte maneira: “Lula lidera entre mulheres e mais pobres; Flávio, entre os evangélicos”. E, abaixo da chamada no site da Folha, a reportagem complementa que “Lula lidera entre os pretos”, enquanto o “senador lidera entre eleitores com renda acima de dois salários mínimos”.

Entre os evangélicos, os números do Datafolha são os seguintes: Flávio com 62% e Lula com 29% em um eventual segundo turno. Aqui, apresentamos dois problemas. Não há nenhuma ressalva na análise de dados que a Folha e o conjunto da imprensa fazem sobre o que é projetar um cenário de segundo turno. Trata-se de uma etapa que ainda não está ocorrendo, e temos, tradicionalmente, exemplos de mudança do cenário eleitoral entre um turno e outro, a depender de quem passa para essa segunda volta.

Quando o jornal analisa o primeiro turno, os números sobre os evangélicos desaparecem. A matéria diz o seguinte: “No mais, os padrões seguem inalterados em macrogrupos. O petista vai melhor entre dois grupos que representam metade da população: mulheres (41% a 29%) e os mais pobres (46% a 27%). Registra desempenho superior também entre mais velhos (45% a 32%), nordestinos (53% a 25%) e católicos (46% a 29%). O senador, por sua vez, derrota o petista entre quem fez ensino médio (38% a 33%), quem tem diploma superior (37% a 33%), sulistas (38% a 33%) e entre evangélicos” (Folha de S.Paulo, 21 ago. 2026).

Os números finalmente aparecem em uma matéria da GloboNews: no primeiro turno, Flávio teria 48% contra 23% de Lula entre os evangélicos. Mesmo com os dados, há ainda outra ponderação que precisa ser feita: a margem de erro desse tipo de segmentação é maior que a margem de erro do conjunto do levantamento. Isso ocorre por causa do tamanho da amostra, que no geral é de 2 mil entrevistas e vai sendo reduzida por segmento. E a própria Folha assume, ao falar do segundo turno, que a margem de erro do segmento católico é de 3% para mais ou para menos, enquanto no segmento evangélico a margem é de 4% para mais ou para menos. Parece pouco, mas é aquele detalhe que faz toda a diferença.

O que explica essa diferença é o tamanho da amostra, menor entre os crentes. Mas não é só isso: os dados demográficos já consolidados mostram que os evangélicos são em sua maioria mulheres, pobres e negros. Justamente os segmentos em que Lula lidera!

Diante dessa sobreposição de características sociodemográficas – a maioria da população evangélica é composta de mulheres, pobres e pessoas negras –, o mínimo que esperamos é um olhar crítico para a manchete “Flávio lidera entre os evangélicos”. Sim, pelo acúmulo da última década entendemos que há um padrão no comportamento eleitoral evangélico de sufragar majoritariamente candidatos da direita em geral e do bolsonarismo em particular. Mas quem é esse evangélico? Importante destacar, outra vez, que esse grupo religioso não é uma massa única.

Comportamento eleitoral, voto evangélico e grupos focais

Ao mesmo tempo, é evidente que, desde o governo Bolsonaro, há uma mudança nesse comportamento eleitoral, com aumento de rejeição ao bolsonarismo e abertura para um diálogo e uma atuação com outros campos políticos. A posição de uma liderança como o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) não é um raio luminoso em céu azul.

As pesquisas qualitativas com pessoas evangélicas que conduzimos desde 2023 nos dão ainda mais segurança em afirmar que há, sim, essa possibilidade de construção entre a democracia e o povo evangélico.

Desde o primeiro ano do atual governo Lula, realizamos 40 grupos focais, sendo 26 entre abril e junho de 2026. Trata-se, portanto, de uma amostra significativa, com mais de 250 crentes de doze capitais brasileiras em 2026, que nos permitiu analisar consistentemente o comportamento político dos evangélicos.

É importante destacar a nota metodológica: os grupos focais presenciais são uma metodologia qualitativa, sem pretensão de precisão estatística. Eles são feitos por meio de um recrutamento aleatório (assim como ocorre com as pesquisas quantitativas) e levam em conta os dados do IBGE e do TSE sobre a composição do eleitorado, com paridade de gênero e proporcionalidade de raça e religião. A principal contribuição dessa metodologia é desenvolver percepções, valores e questões, diferentemente das pesquisas Quaest e Datafolha, que aparecem de modo estático, sem nuances e reflexões.

Com base nesses destaques, o primeiro ponto a considerar é que não há nenhum tipo de voto evangélico unificado. As pessoas declaradas crentes são também homens e mulheres, brancos, pardos e pretos, trabalham formal e informalmente em inúmeras ocupações distintas, moram nos mais variados bairros de suas cidades, são de idade e escolaridade diversas. Vivenciam, portanto, os prazeres e problemas do dia a dia de múltiplas formas e formam suas opiniões com base em um sem-número de combinações. O maior ou menor impacto de seu pertencimento de fé no comportamento político depende de todas essas variáveis e não pode nem deve ser cristalizado e estigmatizado – assim como com qualquer outra pessoa, de qualquer outra religião.

Isso se expressa em como as pessoas evangélicas respondem de modo espontâneo nos grupos focais sobre sua vida. A maioria das e dos crentes relata os problemas que afligem toda a população, como mobilidade urbana, segurança pública, renda e poder de compra e saúde. Não há um problema unificado, e a religião não aparece centralmente nessas respostas. Assim como ocorre com todos os demais grupos de nosso povo – e isso é ainda mais forte em ano eleitoral –, as pessoas evangélicas responsabilizam os políticos por essas dificuldades, apresentando uma visão bem negativa sobre a política.

A soma do conjunto dos problemas vividos pelas pessoas com a crítica à política gerou, a partir de 2014, um forte sentimento antissistema, que foi capturado pela extrema direita e pelo bolsonarismo. Os evangélicos foram, de modo particular, tragados por essa onda reacionária nas eleições de 2016 e 2018. A boa-nova é que isso começou a mudar na pandemia de Covid-19, tanto no conjunto da população como para os crentes.

Nos grupos focais e em diversas plenárias de mobilização que a Frente organizou em 2025, com a presença da primeira-dama, Janja da Silva – foram sete reuniões com mulheres evangélicas no Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Caruaru, Manaus, Belém e Distrito Federal –, capturamos diversas falas das pessoas, sobretudo entre as mulheres, que se colocam em uma posição que classificamos como desconfiadas com as instituições e, ao mesmo tempo, demandam políticas públicas diversas e mais presença do Estado em sua vida.

Temas como violência contra a mulher, ampliação do acesso à educação, com destaque para o programa Pé de Meia, geração de renda e de crédito – nesse tópico, o programa Desenrola foi bastante citado –, acesso à saúde e mais segurança pública são os que predominam entre as pessoas que entrevistamos e mobilizamos. De cada dez participantes dos grupos focais, apenas um se enquadra no perfil típico da extrema direita, que difunde as fake news mais conhecidas e prioriza temas que reforçam a visão conservadora sobre direitos reprodutivos e a visão meritocrática sobre economia e Estado.

Esquerda e direita: o pêndulo da fé

As pesquisas nos deram a certeza de que 90% dos evangélicos são pessoas que convergem para as diferentes formas de ver o mundo que marcam a democracia. Não significa que sejam de esquerda e progressistas, assim como não o são a maioria dos católicos, por exemplo. Mas estão dentro do escopo do debate democrático e podem ser convencidos por um projeto de combate às desigualdades e de promoção da cidadania.

Abordar o tema das vacinas foi exemplar. As pessoas evangélicas estão mais expostas à terrível politização da imunização que o bolsonarismo promoveu, mais do que em outros grupos segmentados pesquisados. Todavia, mesmo com as opiniões afetadas pela desinformação, o apoio às vacinas foi de 80% no universo pesquisado. E os 20% restantes não são necessariamente contrários à imunização, mas têm uma postura desconfiada em relação às vacinas novas, com as da Covid, gripe e dengue. O argumento dos céticos é que essas vacinas teriam sido produzidas com pouco tempo de estudo e acabariam por piorar o quadro de saúde de quem as toma. Detalhe: mais de 90% dos participantes tomaram pelo menos uma dose da vacina contra Covid, contrariados ou não.

Desconfiança, mas não rejeição. Insatisfação com a política, mas sem adesão ao antissistema radical. O espaço para diálogo com as pessoas evangélicas está aberto e é fundamental para derrotar o bolsonarismo em 2026 e consolidar um novo ciclo da democracia brasileira nos próximos anos. E, sendo o diálogo uma via de mão dupla, é importante para quem acredita que o país pode vencer seus problemas entender como é a nova religiosidade do Brasil.

*Nilza Valeria Zacarias, jornalista, é coordenadora executiva da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, escritora e autora do livro de contos A casa da Rita (Malê, 2025); e Josué Medeiros, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é coordenador do Observatório Político e Eleitoral (Opel).

[1]José Eustáquio Diniz Alves, “A transição religiosa no Brasil: 1872-2049”, EcoDebate, 9 jun. 2025.

Militantes digitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0905367849.html 

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