A subversão da ordem no futebol
Meio-campo não é mais dividido entre volantes
marcadores o camisa 10 armador. Tenho muito orgulho de ter sido um coadjuvante
na seleção de 1970
Tostão/Folha
de S. Paulo
Raphinha vive seu melhor momento no
Barcelona e no futebol,
atuando na posição de centroavante, o que nunca tinha ocorrido, pois sempre foi
um atacante pelas pontas ou um meia ofensivo centralizado e próximo à área.
Além de dar
excelentes passes para gols, Raphinha marcou 14 vezes em oito jogos na atual
temporada. Diferentemente dos clássicos centroavantes que atuam centralizados,
fixos, Raphinha se movimenta por todo o ataque e aproveita muito bem suas
excepcionais qualidades: a velocidade para receber a bola entre os zagueiros e
as precisas finalizações. Ele subverte a ordem, o previsível.
Muitos
perguntam por que Raphinha não brilha na seleção. Entre vários motivos, o mais lógico
é porque no Barcelona ele atua próximo a Lamine Yamal
e à frente de um excepcional meio-campo, formado por Rodri, um pouco mais
recuado, e dois meio-campistas (Pedri e Olmo ou Fermin), todos da seleção da
Espanha. Os dois estão, com frequência, próximos a Raphinha e à área.
Ancelotti
convocou o meio-campista Martinelli
para o lugar do centroavante João Pedro, cortado por contusão,
por que vai escalar Raphinha de centroavante nos amistosos contra Austrália e
Índia?
Na história do
futebol, vários jogadores se destacaram muito em seus clubes e não brilharam na
seleção, enquanto outros menos elogiados jogaram na seleção melhor que em seus
times. Há muitos motivos para isso; técnicos, físicos e emocionais. Outra razão
é o precoce endeusamento da mídia a alguns jogadores que atuam bem em seus
clubes, ainda mais se forem artilheiros. Basta fazerem alguns gols para pedirem
suas convocações.
No auge de Pelé, a cada semana pediam um novo
artilheiro para atuar ao seu lado na seleção. Eram convocados, não jogavam bem,
em parte pela dificuldade de acompanhar o talento do Rei, e depois não voltavam
à seleção.
Perto da Copa de 1970, o técnico Zagallo, depois de convocar e experimentar os artilheiros
Dario e Roberto, me chamou e disse que ia me escalar desde que eu não recuasse
tanto para receber a bola, que atuasse à frente de Pelé e Jairzinho. Respondi a
ele que não haveria problemas, que eu jogaria como fazia o centroavante Evaldo
no Cruzeiro. Eu, que no Cruzeiro era um protagonista ao lado de Dirceu Lopes,
fui na seleção um facilitador, um coadjuvante. E tenho muito orgulho disso.
Antes de a bola
chegar, Pelé me dizia, com os movimentos do corpo e com o olhar, o que faria.
Tentava acompanhá-lo. A comunicação analógica é menos exata, porém mais
inventiva. Assim como os grandes escritores, em um estalo, acham a palavra
certa, os craques no gramado descobrem novos caminhos.
A diminuição
progressiva de contratação de jogadores de outros países, medida adotada pela
CBF e pelos clubes, deve pressionar a formação de melhores jogadores, desde que
se mudem os conceitos e a maneira de ensinar. As outras equipes precisam
aprender com o Palmeiras. Espanha, França e Inglaterra formam os melhores
jogadores do mundo e não têm limites na contratação de estrangeiros.
Escuto dezenas
de vezes que o problema da seleção é a falta de um clássico camisa 10, seguindo
a ideia ultrapassada de que o meio-campo é dividido entre os dois volantes em
linha que marcam e um camisa 10, responsável por toda a armação de jogadas. O
futebol mudou.
A espetacularização do futebol brasileiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/futebol-aparencia-e-essencia.html

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