29 abril 2026

China x Estados Unidos

Como a China contornou o tarifaço
Sanções de Trump ajudaram a redesenhar o comércio chinês, que buscou outros mercados e atingiu marca recorde de exportações em 2025. Política industrial e autonomia tecnológicas foram estimuladas. E país ampliou os níveis de consumo interno
Carlos Aguiar de Medeiros/Outras Palavras      

Na segunda década do novo milênio, diversas transformações ocorreram na economia chinesa, decorrentes de pressões e desafios externos e internos. Entre os fatores externos, os principais foram a grande crise financeira de 2008, a desaceleração do crescimento do comércio mundial e o aprofundamento do protecionismo e das sanções americanas ao acesso a semicondutores avançados. Entre os fatores internos, os principais foram o boom imobiliário, a expansão dos salários reais, a implementação de uma abrangente política industrial voltada à redução da dependência tecnológica – as metas do Made in China 2025, lançadas em 2015 – e à diversificação energética, e a construção de uma ampla rede egional de comércio e investimentos (o BRI foi lançado em 2012). Estes movim entos iniciaram um deslocamento relativo das fontes de crescimento da economia chinesa, com a contração da parcela das exportações no PIB – hoje em torno de 20% –, a favor do consumo e dos investimentos em infraestrutura, e da mudança na estrutura do produto e do emprego, com forte expansão dos serviços. (Medeiros, Majerowicz, 2024).

Nos últimos anos, diversos eventos e circunstâncias, como a pandemia da Covid-19 e a guerra da Ucrânia, reforçaram o movimento voltado à redução da dependência externa e à autossuficiência em insumos e equipamentos essenciais. No primeiro ano do novo governo Trump, um novo choque tarifário foi implementado, e a utilização geopolítica do poder econômico do mercado americano, visando enquadrar aliados e atingir a China, foi ampliada. No plano interno, após a forte contração decorrente da política de Covid Zero e da crise imobiliária, a economia chinesa retomou uma taxa de crescimento superior à dos países da OCDE, ainda que inferior à dos últimos anos.
 

No 14º Plano Quinquenal (2021-5), o governo reiterou, na estratégia de “circulação dual”, publicada em 2020, a prioridade à expansão do consumo que, mesmo após um período de elevação do salário real e de transferências sociais ocorrido na última década, permanece interno – hoje cerca de 39% do PIB –, num patamar muito inferior ao das economias industriais. Sob elevadas tarifas no mercado americano e sob fortes sanções tecnológicas, os investimentos em inovação, na energia renovável, de aumento do consumo das famílias e na diversificação dos parceiros comerciais ganharam novo ímpeto. O 15º Plano quinquenal (2026-2030) prioriza a política industrial, a construção de um mercado nacional unificado e o aumento do consumo. O foco foi posto nas “Forças Produtivas de Nova Qualidade”, isto é, na modernização das indústrias tradicionais por meio da digitalização e do uso da IA, bem como no esforço científico voltado ao progresso técnico e às inovações.

As relações entre os EUA e a China possivelmente evoluirão para um tipo de acomodação (Gao, 2026) entre as duas superpotências, por meio de negociações permanentes sobre tarifas e sanções. Este movimento ficou evidente quando o governo americano, depois do choque tarifário de 150% imposto à China, adiou sua implementação e reduziu as alíquotas, após esta ter imposto fortes restrições às exportações de terras raras (reunião da APEC, na Coreia, em outubro de 2025). Tendo em vista este contexto, objetiva-se, nesta pequena nota, discutir alguns movimentos de reposicionamento das relações internacionais chinesas, como a relocalização do comércio externo, os investimentos em semicondutores e IA, a diversificação da base energética e a produção industrial de baixo carb ono. A questão da expansão do consumo das famílias, que constitui prioridade nos dois últimos planos quinquenais, está fora do escopo desta nota.

Em relação ao comércio externo, um fato notável é que, em meio ao forte protecionismo americano, as exportações globais chinesas atingiram, em 2025, um recorde histórico. Do mesmo modo, em que pese o importante crescimento das importações, o saldo comercial da China em 2025, em dólares correntes, é o maior de sua história (China Briefing, 2026). Esta corrente de comércio, entretanto, mudou de direção. O principal movimento foi a queda das exportações da China para o mercado americano. Em 2017, elas constituíam 21% das importações totais dos EUA; em 2025, já sob o regime tarifário instituído por Trump 2.0, situaram-se em 9%. (Alfaro, Chor, 2026). Sob o efeito das tarifas americanas, as exportações passaram a dirigir-se cada vez mais para outros mercados, especialmente para a ASEAN, a UE, a Améric a Latina, a Austrália e o Japão. Os países da ASEAN, especialmente Tailandia, Malásia e Vietnã, foram os principais beneficiários do desvio de comércio decorrente das tarifas impostas pelos EUA à China. Os deslocamentos das rotas de comércio que já estavam em movimento desde 2018 incluem tanto o de bens finais chineses reexportados por terceiros países para os EUA, quanto o de bens intermediários provenientes da China, contidos nas exportações dos países da ASEAN (particularmente do Vietnã) destinadas aos EUA. Estas triangulações fazem com que o declínio das exportações chinesas para os EUA não seja tão intenso quanto o indicado pelas estatísticas oficiais do comércio bilateral. Ainda que a geografia do comércio esteja em processo de mudança em direção a outros países, especia lmente os da Iniciativa Cinturão e Rota, que envolve 151 países, os principais parceiros comerciais da China são os da ASEAN, que superam tanto os EUA quanto a UE. As exportações que mais cresceram nos últimos anos são as de máquinas e equipamentos, produtos eletrônicos, painéis solares, turbinas a vento e automóveis elétricos. O deslocamento da composição setorial das exportações chinesas se dá não apenas pelo aumento da parcela de produtos de maior conteúdo tecnológico, mas também pelo fato de estes produtos possuírem marcas chinesas. Progressivamente, a principal base exportadora chinesa vem mudando de equipamentos manufaturados sob encomenda (OEM) para equipamentos manufaturados sob marca própria (OBM) (Bruh, 2024). Do lado das importações, dois movimentos centrais vieram se afirmando após a Covid-19: a forte retomada da demanda por energia, alimentos e minerais, responsável pelo crescimento do valor total das importações num período de queda dos preços das commodities, e a substituição de importações de produtos de alta tecnologia, em especial semicondutores (Outlook, 2026), que seguem sendo o principal item importado— e o petróleo, o segundo.

Associada a estas transformações nos fluxos comerciais, a China prosseguiu, ainda que em ritmo menor, suas exportações de capital sob a forma de investimentos diretos e empréstimos, especialmente destinados aos países da Iniciativa do Cinturão e Rota. Por outro lado, introduziu diversas iniciativas visando à internacionalização do RMB. Particularmente significativo foi o aumento das exportações chinesas denominadas em RMB e a sua expansão nas operações de crédito.

Em relação à questão energética e à infraestrutura, dois motores importantes para o crescimento dos investimentos chineses, os principais movimentos são a elevada expansão da capacidade de geração solar e eólica (incomparável em termos internacionais), a construção de novas usinas nucleares e, simultaneamente, tendo em vista a base energética chinesa, a expansão de novas plantas de energia a carvão. Face à demanda crescente de gás e petróleo, investimentos importantes em pipelines e em estruturas de conversão de LNG importado estão em curso. Ao lado destes investimentos, os em transportes continuam em expansão, com planos de ampliação substancial da rede de trens de alta velocidade, que já é a maior em operação na economia mundial, visando a unificar e integrar o mercado interno. ( Brüh, 2024).

Em relação a uma “innovation-driven economy” estabelecida no 14º Plano e reforçada no 15º Plano Quinquenal, o objetivo é fazer da inovação um motor central dos investimentos, por meio de estímulos ao P&D e à formação de diversos clusters industriais, visando à aproximação entre a inovação e a produção industrial. A China hoje está na liderança em algumas tecnologias críticas, especialmente associadas às energias renováveis, baterias elétricas, painéis solares, veículos elétricos e infraestrutura de telecomunicações (5G), e está muito próxima dos EUA em IA (evidente com o lançamento do DeepSeek, em 2025), computação quântica, big data, nanotecnologia e big Pharma, e vem aumentando rapidamente suas capacidades em semiconduto res, petroquímica e armamentos. O controle e as sanções estabelecidos hoje pelos EUA sobre chips sofisticados e máquinas de litografia avançadas constituem a maior ofensiva tecnológica contra a China e, ao mesmo tempo, um forte incentivo à inovação e à produção doméstica. Presentemente, a SMTC já produz chips de 7 nanômetros (e os projetos em curso são para chips menores) e as máquinas necessárias a esta produção (The Economist, 2025).

A política industrial em curso, estimulada pelas sanções e tarifas americanas, faz da inovação em tecnologias avançadas o eixo central para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, bem como para expandir a renovação dos padrões de consumo das famílias em novos bens e serviços. Desse modo, é possível dizer – já há um relativo consenso entre especialistas – que o forte aumento do protecionismo e das sanções americanas tem levado ao aprofundamento da estratégia chinesa de diversificação e regionalização dos mercados, bem como de autonomia tecnológica iniciada há uma década.

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A China e a inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/ia-no-cotidiano-da-china.html

Minha opinião

Pisando em ovos
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  
 

Quando se trata de considerações críticas ao sistema financeiro, a Folha de S. Paulo, tal como conglomerados midiáticos congêneres, pisa em ovos.

As palavras parecem sussurradas.

No editorial de hoje, a proposito do escândalo do Banco Master, considera que o crescimento acelerado do Master apenas expõe uma assimetria de fiscalização entre o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Questão de métodos e não de essência.

A governança do Master e suas complexas operações de crédito geraram alertas que não foram considerados a tempo.

O episódio serve como uma ocorrência para que ambos os órgãos revisem o compartilhamento de informações e o rigor sobre instituições de médio porte, assinala.

Em suma, um teste para a alteração dos reguladores em prevenir crises semelhantes. A necessidade de uma atuação coordenada nunca foi tão urgente para garantir a estabilidade do mercado.

A agilidade regulatória precisa acompanhar a sofisticação dos novos arranjos financeiros.

Não mais do que isso.

A Nação e o povo brasileiro que se cuidem.

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De onde vem dinheiro para a grandeza da China? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/capital-financeiro-desenvolvimento-na.html 

Celso Pinto de Melo opina

A instabilidade como método
Trump 2, a política externa da tensão permanente e a arquitetura hierárquica da nova ordem
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

Quando a previsibilidade deixa de ser virtude

Durante grande parte do pós-guerra, a política externa das grandes potências foi estruturada em torno de um princípio relativamente estável: previsibilidade gera poder. A capacidade de sinalizar intenções, sustentar compromissos e organizar expectativas não era apenas um atributo desejável – era um componente essencial da própria arquitetura da ordem internacional. Alianças, tratados e instituições multilaterais operavam como mecanismos de estabilização, reduzindo a incerteza e permitindo coordenação entre Estados com interesses divergentes.

Esse padrão começa a se alterar quando a imprevisibilidade deixa de ser percebida como risco e passa a ser utilizada como recurso. No segundo governo Trump, a política externa dos Estados Unidos parece operar sob uma lógica distinta: não a da estabilidade estratégica, mas a da instabilidade produzida. Tensões são criadas, amplificadas e mantidas não como falhas de coordenação, mas como parte do próprio mecanismo de ação.

A instabilidade, nesse contexto, deixa de ser um efeito colateral – e passa a funcionar como método.

A instabilidade como método

A ideia de que a política internacional é um campo de competição permanente não é nova. A tradição realista, por exemplo, enfatiza que Estados buscam maximizar poder em um ambiente anárquico [1]. O que muda, no entanto, é o modo como esse poder é exercido. 

Essa chave interpretativa se conecta, em outro plano, com uma reflexão que desenvolvi em “O mapa mental do poder”, texto em que procurei examinar como elites governamentais decidem em cenários complexos e como a máquina pública pode ser capturada por lógicas de confronto. O argumento aqui retoma aquele ponto de partida, mas o desloca para a geopolítica: já não se trata apenas de compreender como se decide sob pressão, e sim de entender como a própria pressão passa a ser produzida como técnica de governo [2].

No padrão tradicional, a estabilidade – ainda que tensa – era considerada funcional. No padrão emergente, a instabilidade torna-se produtiva. Ao introduzir incerteza contínua, desloca-se o centro de gravidade da ação: adversários passam a reagir em vez de agir; aliados passam a recalibrar suas expectativas; o próprio sistema entra em regime de adaptação permanente.

A política externa deixa de operar por equilíbrio e passa a operar por perturbação controlada. 

Essa perturbação não se manifesta apenas em crises pontuais. Ela se distribui no tempo e no espaço, criando um ambiente em que a exceção tende a se tornar regra. A previsibilidade, antes base de confiança, transforma-se em vulnerabilidade a ser explorada.

Uma geografia da pressão permanente

Uma das características mais marcantes desse novo padrão é a multiplicação simultânea de frentes de tensão. Não se trata de um conflito específico ou de uma crise localizada, mas de uma geografia de tensão continuada. 

No Ártico, ressurgem declarações sobre a aquisição da Groenlândia, território pertencente a um aliado da OTAN. Na América do Norte, reaparecem insinuações sobre a incorporação do Canadá como “51º estado”. No istmo centro-americano, menciona-se a possibilidade de retomada de controle do Canal do Panamá.

Na América Latina, esse padrão assume contornos ainda mais agudos. Intensificam-se as pressões sobre países como Venezuela, Cuba e México, frequentemente associadas a discussões sobre segurança e combate ao crime. No caso de Cuba, observa-se uma reativação e ampliação de políticas de cerceamento que remontam a décadas, agora acompanhadas não apenas de retórica hostil, mas de uma postura mais agressiva de intimidação explícita, elevando o nível de confronto em relação a padrões anteriores.

Em paralelo, surgem formulações difusas – mas politicamente reveladoras – sobre uma suposta “Grande América”, na qual partes do norte da América do Sul apareceriam implicitamente como área de influência direta. Mesmo gestos aparentemente retóricos, como a sugestão de renomear o Golfo do México como “Golfo da América”, cumprem função simbólica: sinalizam uma disposição de reconfigurar espaços geopolíticos consolidados. 

Esse movimento ganha densidade adicional quando se considera a possibilidade de classificação de organizações criminosas como “terroristas”. Tal enquadramento não é neutro: ele pode abrir espaço para ações extraterritoriais sob justificativas de segurança, criando riscos diretos à soberania de países da região – inclusive o Brasil.

No Oriente Médio, a relação com o Irã já evoluiu para um cenário de conflito em curso, no qual pressão econômica, ações militares e riscos de escalada coexistem de forma instável e potencialmente expansiva. No plano das alianças, questiona-se explicitamente o compromisso com a defesa coletiva da OTAN, introduzindo a incerteza no próprio núcleo do sistema de segurança ocidental.

O padrão que emerge é claro: a ameaça deixa de ser localizada e passa a ser distribuída. A política externa deixa de operar por priorização estratégica e passa a se basear na saturação do ambiente internacional. 

A ameaça como linguagem de governo

Nesse contexto, a ameaça não é apenas um instrumento ocasional – ela se transforma em linguagem de governo. Tarifas comerciais deixam de ser mecanismos econômicos e passam a funcionar como instrumentos geopolíticos. Declarações públicas assumem a forma de ultimatos. Gestos simbólicos tornam-se sinais de disposição para escalada. As próprias notas informativas oficiais da Casa Branca sobre “emergência nacional”, “reciprocidade comercial” e segurança econômica mostram como o comércio, a soberania e o poder coercitivo passam a operar em um mesmo vocabulário político e estratégico [3, 4].

Um elemento particularmente relevante é a ampliação do escopo do que é considerado o uso legítimo da força. Por exemplo, a classificação de grupos criminosos como “organizações terroristas” abre espaço para a diluição das fronteiras entre a segurança interna de uma nação e a política externa da potência hegemônica. 

Essa reconfiguração semântica tem efeitos concretos: redefine os limites da ação estatal, altera as expectativas internacionais e cria precedentes que podem, eventualmente, ser replicados por outros atores. A linguagem não apenas descreve a realidade – ela passa a organizá-la.

Cooperação ou hierarquia? A arquitetura invisível do poder

Paralelamente à produção de instabilidade e à multiplicação de ameaças, observa-se um terceiro movimento, menos visível, mas igualmente estruturante: a reorganização hierárquica do sistema internacional sob a forma de “cooperação”. 

Iniciativas contemporâneas de coordenação internacional – sejam elas voltadas à segurança, à tecnologia ou aos minerais críticos – raramente operam como estruturas horizontais. Sob a linguagem da parceria, emerge uma arquitetura funcional na qual diferentes países ocupam posições distintas.

Ilustram esse padrão arranjos como a Minerals Security Partnership, uma iniciativa liderada por economias centrais para coordenar o acesso, o financiamento e o controle sobre cadeias de minerais estratégicos, o AUKUS, um pacto de segurança e tecnologia militar entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, e a aliança de inteligência Five Eyes, um sistema altamente integrado de compartilhamento de informações estratégicas entre um núcleo restrito de países anglófonos. A literatura recente sobre minerais críticos e segurança das cadeias de suprimento reforça precisamente essa articulação entre geopolítica, tecnologia e controle de recursos [5, 6].

A chamada “Pax Silica” – entendida como a ordem emergente estruturada em torno de dados, semicondutores, energia e minerais críticos – torna essa lógica ainda mais evidente. Cadeias produtivas são organizadas para concentrar o valor agregado no topo e externalizar atividades intensivas em recursos naturais ou o impacto ambiental para a base. 

A cooperação, portanto, não elimina a hierarquia – ela a reorganiza.

Instabilidade e hierarquia: duas faces da mesma estratégia

Esses três movimentos – instabilidade, ameaça e hierarquia – não operam de forma independente. Eles se reforçam mutuamente. 

A produção de instabilidade cria um ambiente de incerteza, no qual iniciativas individuais se tornam mais difíceis, envolvendo maior risco e custos mais elevados. Nesse contexto, a adesão a estruturas de cooperação – ainda que assimétricas – passa a ser percebida como uma solução pragmática. Ao mesmo tempo, a ameaça recorrente acelera os processos de alinhamento, deslocando países para posições mais definidas dentro dessas estruturas.

A instabilidade prepara o terreno; a hierarquia fixa as posições.

O resultado é um sistema internacional que, ao mesmo tempo, se fragmenta e se reorganiza. Fragmenta-se porque perde mecanismos estáveis de coordenação. Reorganiza-se porque novas formas de hierarquia emergem, sob a linguagem da cooperação. 

Quando a pressão em múltiplas frentes reorganiza o sistema

Há momentos históricos em que a política externa deixa de operar por equilíbrios e passa a funcionar por testes sucessivos de limite, em múltiplas direções. Na Europa do final dos anos 1930, a Alemanha nazista promoveu pressões escalonadas sobre diferentes países – da anexação da Áustria à desestabilização da Tchecoslováquia e, posteriormente, à invasão da Polônia – explorando sistematicamente a hesitação das potências europeias.

Esse padrão não deve ser lido como uma equivalência histórica, mas como uma referência analítica: há precedentes em que a produção deliberada de incerteza e a multiplicação de frentes de pressão funcionaram como instrumentos para deslocar adversários para posições reativas. Em tais contextos, a aparente “irracionalidade” da potência dominante não é um desvio, mas um recurso estratégico. 

Nesse sentido, a instabilidade como método não é uma inovação absoluta, mas sim uma reconfiguração contemporânea de práticas já observadas em momentos críticos da história internacional.

O risco sistêmico: quando todos reagem ao imprevisível

Quando a instabilidade se torna método, seus efeitos deixam de ser controláveis no médio prazo. Aliados passam a interpretar imprevisibilidade como risco de abandono. Adversários passam a interpretar sinais ambíguos como ameaça potencial, elevando a probabilidade de escalada. 

O sistema internacional, por sua vez, perde capacidade de coordenação. Mecanismos de confiança são erodidos, compromissos tornam-se mais frágeis e aumenta a margem para o mal-entendido. Em um ambiente assim, decisões tomadas de forma abrupta podem ser interpretadas como sinais estratégicos, desencadeando respostas desproporcionais.

A incerteza deixa de ser apenas um instrumento de poder – e passa a ser uma fonte autônoma de risco.

O Brasil entre risco e oportunidade 

Para o Brasil, esse cenário não é neutro. A ampliação do escopo de possíveis intervenções sob o argumento de combate ao terrorismo global pode abrir precedentes perigosos para ações externas no território nacional. Ao mesmo tempo, a reconfiguração hierárquica das cadeias globais – particularmente na economia de minerais críticos e energia – tende a reforçar o papel tradicional de países como o Brasil como fornecedores estratégicos, e não necessariamente como protagonistas tecnológicos.

Há, contudo, uma janela de oportunidade. Em um ambiente marcado por instabilidade e fragmentação, países capazes de oferecer previsibilidade, mediação e capacidade de coordenação regional ganham relevância. O Brasil, pela sua escala, posição geográfica e tradição diplomática, possui condições de exercer um papel de liderança na América do Sul e de articulação no Sul Global.

Isso exigirá, no entanto, uma estratégia ativa: fortalecimento de capacidades industriais, domínio de segmentos críticos das cadeias produtivas e uma política externa capaz de combinar autonomia com capacidade de articulação. Em um mundo organizado pela instabilidade, a estabilidade pode se tornar um ativo estratégico. 

Instabilidade como estratégia: ganhos táticos, riscos estruturais

Governar pela instabilidade pode produzir ganhos táticos. Ao deslocar adversários para posições reativas, ampliar margens de manobra e acelerar os processos de alinhamento, a estratégia oferece vantagens de curto prazo.

Mas, quando adotada como método, ela transforma o sistema internacional em um espaço em que a distinção entre estratégia e improviso se torna cada vez mais difusa. A ameaça constante desgasta a confiança; a pressão simultânea multiplica os pontos de fricção; a cooperação hierárquica consolida assimetrias difíceis de reverter. 

Talvez o efeito mais profundo da instabilidade deliberada não seja produzir mais conflito, mas alterar a própria natureza da ordem internacional. Quando a turbulência deixa de ser acidente e passa a ser tecnologia de poder, muda também o valor estratégico daquilo que antes parecia banal: previsibilidade, coordenação, confiança. Em um sistema assim, a estabilidade deixa de ser apenas condição da ordem – e passa a ser um recurso escasso, portanto geopolítico. Quem puder produzi-la, distribuí-la ou negá-la aos demais não estará apenas reagindo ao mundo: estará, em grande medida, definindo suas novas regras.

Bibliografia

1.    Mearsheimer, J.J., The Tragedy of Great Power Politics. Updated ed. 2014, New York: W. W. Norton & Company. 

2.    de Melo, C.P., O mapa mental do poder: como elites governamentais decidem em cenários complexos – e os riscos de transformar a máquina pública em arma de guerra cultural. 2026.  https://celsopdemelo.substack.com/p/o-mapa-mental-do-poder.

3.    White House, Fact Sheet: President Donald J. Trump Declares National Emergency to Increase our Competitive Edge, Protect our Sovereignty, and Strengthen our National and Economic Security. 2025. https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/04/fact-sheet-president-donald-j-trump-declares-national-emergency-to-increase-our-competitive-edge-protect-our-sovereignty-and-strengthen-our-national-and-economic-security/?utm_source=chatgpt.com.

4.    White House, Fact Sheet: President Donald J. Trump Announces “Fair and Reciprocal Plan” on Trade. 2025. https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/02/fact-sheet-president-donald-j-trump-announces-fair-and-reciprocal-plan-on-trade/?utm_source=chatgpt.com

5.    International Energy Agency, Critical Minerals Market Review 2023. 2023, IEA: Paris.https://www.iea.org/reports/critical-minerals-market-review-2023?utm_source=chatgpt.com.

6.    United States Geological Service, Mineral Commodity Summaries 2023. 2023, USGS: Reston, VA. https://www.usgs.gov/publications/mineral-commodity-summaries-2023?utm_source=chatgpt.com.


[i]   Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html

Palavra de poeta

Canção de alta noite
Cecília Meireles       

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que a noite seja andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.

[Ilustração: João Câmara]

Leia também: "Solidão", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_22.html 

Humor de resistência

Aroeira

Araruta tem seu dia de mingau https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Enio Lins opina

Odores de autoatentado pairam no ar nos Estados Unidos
Enio Lins     

TRUMP ESTÁ ABUSANDO dos atentados a favor? O fato é que ele já vai no terceiro episódio da série “tentativas de assassinato”. A mais recente aconteceu sábado, 25, quando participava de um jantar de gala oferecido aos jornalistas em Washington. Bangue-Bangue! Espocaram tiros noutro salão. Autoridades foram retiradas às pressas. Um suspeito foi detido, identificado como Cole Allen, de 31 anos, morador da Califórnia. Segundo a polícia, estaria armado com uma espingarda, uma pistola e diversas facas – seria o Adélio Bispo disfarçado? O acontecimento, que está se tornando corriqueiro, beneficiou Donald com um providencial alívio no intenso bombardeio político que tem sofrido por sua desastrosa condução na guerra – uma agressão provocada, sob o comando de Israel – contra o Irã.


NO PRIMEIRO EPISÓDIO 
da série, uma tragédia. Aconteceu em 13 de julho de 2024, durante comício de campanha em Butler, na Pensilvânia. Morreram dois: o atirador, identificado como Thomas Matthew Crooks e um espectador, o bombeiro voluntário Corey Comperatore. Outras pessoas foram gravemente feridas, de duas a oito vítimas, a depender da fonte. Segundo a Wikipédia, Crooks, apesar de supostamente ter feito uma doação para a campanha adversária, “estava registrado como filiado ao Partido Republicano no condado de Allegheny, Pensilvânia, a partir de setembro de 2021”, e é descrito como “ligeiramente inclinado à direita”. Thomas foi morto no local pela mesma equipe policial que não o viu subir num telhado e lá se postar com um potente fuzil AR-15.

NO SEGUNDO EPISÓDIO 
da série, o teatro de operações foi um campo de golfe do próprio Trump, em Palm Beach, na Flórida, também durante a campanha de 2024, num domingo de folga, 15 de setembro, apenas dois meses depois da primeira agressão. Ryan Routh, de 59 anos, foi preso no local, acusado de tentar atirar contra Donald, sendo condenado à prisão perpétua em fevereiro deste ano. Durante o julgamento, o acusado se comportou de forma errática, com declarações desconexas. Na suposta tentativa, Routh não disparou. O processo transcorreu tendo como base os relatos feitos pela equipe de segurança de Trump, que desta vez teria visto o cano de uma arma saindo de um matagal. Durante essas primeiras duas ocorrências, Donald estava em meio aos riscos de uma campanha eleitoral muito disputada, apesar de seu favoritismo. Oito dias depois do primeiro atentado, em 21 de julho de 2024, Joe Biden desistiu de tentar a reeleição, indicando Kamala Harris para a disputa. A votação presidencial, no confuso sistema americano, se deu em 5 de novembro de 2024, com o candidato Republicano chegando lá muito mais fortalecido, posando como vítima por conta de dois atentados sofridos em apenas três meses.

PARA O TERCEIRO EPISÓDIO
 da série, o local escolhido foi o Hotel Washington Hilton, endereço de outro ataque a um presidente americano, Ronald Reagan, em 30 de março de 1981. Narra o jornal O Globo: “[Reagan] estava saindo do Hilton Hotel depois de realizar um discurso para membros da AFL-CIO. O atirador, John Hinckley Jr., disparou várias vezes contra o presidente e feriu também outras pessoas, entre elas o porta-voz da Casa Branca James Brady e o agente do Serviço Secreto Tim McCarthy”. O então presidente “estava há apenas 69 dias no cargo quando o ataque ocorreu, e o episódio foi registrado por equipes de TV que cobriam o evento. Ele foi atingido por um tiro que perfurou um pulmão, mas sobreviveu após atendimento médico”. O ex-ator, além de ter sido ferido de verdade, não estava em campanha eleitoral, nem passando por situação política delicada, o que – há 45 anos – afastou suspeitas de armação. Já nos casos de Trump... até o badalado ferimento à bala (de fuzil AR-15!) na orelha, em 2024, é suspeitíssimo.

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Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html

28 abril 2026

Palavra de Luciana

Mais mulheres na ciência, mais futuro para o Brasil
Artigo defende políticas públicas para ampliar a participação feminina na ciência, reduzir desigualdades de gênero e fortalecer a inovação e o desenvolvimento do Brasil.
Luciana Santos/Vermelho 
    

A ciência brasileira só estará à altura dos desafios do nosso tempo se for, de fato, diversa, inclusiva e representativa da nossa sociedade. É com essa convicção que temos trabalhado, no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, para ampliar a presença de meninas e mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas.

Garantir igualdade de oportunidades não é apenas uma questão de justiça social, é uma estratégia para melhorar a qualidade da ciência e fortalecer o desenvolvimento do país. Mais mulheres na ciência significa mais perspectivas, mais diversidade de ideias, mais criatividade, mais capacidade de compreender problemas complexos e propor soluções inovadoras.

Ao longo da história, mulheres estiveram por trás de descobertas que transformaram o mundo e, ainda assim, sabemos que – em um país marcado pelo machismo e por desigualdades de gênero –  as estruturas sociais e institucionais nem sempre garantiram a elas o reconhecimento e as oportunidades necessárias para avançar.

No Brasil, as mulheres são maioria no ensino superior, no mestrado e no doutorado, mas ainda enfrentam obstáculos para permanecer e progredir na carreira científica, especialmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, chamadas STEM. A desigualdade se acentua nas posições de liderança e nos níveis mais altos de reconhecimento acadêmico.

É para enfrentar esse cenário que temos estruturado um conjunto consistente de políticas públicas.

Um dos marcos mais importantes dessa agenda é a Política de Empoderamento de Meninas e Mulheres na Ciência, Tecnologia e Inovação, construída ao longo de três anos de escuta e diálogo com a sociedade. 

Com esta política, o nosso esforço é materializar, em ações permanentes, o cuidado com as questões gênero e as iniciativas voltadas à inclusão, à permanência, à valorização e à ascensão de meninas e mulheres nas carreiras de ciência, tecnologia e inovação. Reunimos, assim, um conjunto articulado de instrumentos financeiros, normativos, de cultura institucional e de reconhecimento que assegurem a transversalidade e a sustentabilidade das iniciativas. 

Entre as medidas, estão a ampliação de editais, premiações e bolsas voltados para mulheres, o fortalecimento de programas de incentivo e valorização da participação feminina nas áreas científicas e tecnológicas e a implementação de ações afirmativas que garantam condições concretas para que meninas e mulheres avancem em suas trajetórias.

Iniciativas como o Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por exemplo, cumprem um papel estratégico ao reconhecer trajetórias, dar visibilidade a pesquisadoras e inspirar novas gerações. Quando valorizamos essas histórias, mostramos às meninas brasileiras que a ciência também é um lugar para elas.

Sabemos, no entanto, que os desafios vão além do acesso. A permanência das mulheres na ciência está diretamente relacionada a questões estruturais, como a divisão desigual do trabalho de cuidado e a necessidade de políticas institucionais que considerem essas realidades. Por isso, medidas como a prorrogação de bolsas em casos de maternidade e a adaptação dos critérios de avaliação acadêmica são fundamentais para reduzir desigualdades históricas.

Também instituímos o Comitê Permanente de Gênero, Raça e Diversidade no âmbito do MCTI e de suas vinculadas. Esse espaço tem um papel fundamental: assegurar que a preocupação com a equidade esteja presente na formulação, implementação e acompanhamento das políticas públicas e nas práticas institucionais de governança, de forma transversal e contínua. Trata-se de uma estrutura essencial para consolidar conquistas e garantir que elas se tornem permanentes.

Estamos construindo uma agenda que olha para toda a trajetória das mulheres na ciência, da educação básica à liderança em pesquisa, com ações integradas e compromisso de longo prazo. Esta política é, também, a contribuição do MCTI para um compromisso mais amplo do Governo Federal com as mulheres brasileiras, no enfrentamento ao desemprego, à violência, à invisibilidade e à falta de reconhecimento. 

Acreditamos que não há desenvolvimento científico pleno sem diversidade. A ciência se fortalece quando incorpora diferentes experiências, diferentes olhares e diferentes formas de compreender o mundo. É assim que produzimos conhecimento mais robusto, mais inovador e mais conectado com as necessidades da sociedade.

O Brasil tem talento, tem vocação científica e tem milhões de meninas que podem transformar o futuro do país. O que precisamos é garantir que todas tenham as mesmas oportunidades de chegar lá.

Mais mulheres na ciência é mais do que uma pauta de inclusão. É um projeto de país.

E é esse futuro que estamos construindo: com igualdade, com oportunidade e com a certeza de que uma ciência mais diversa é também uma ciência melhor para todos.

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