Ai de nós vítimas da burocracia!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Na fila, o cidadão negro, idade avançada, cabelos grisalhos, aparência pobre, envelope de papel madeira gasto à mão, na fila do cartório.
Cerca de 40 minutos de espera, enfim o atendimento:
- O senhor trouxe os comprovantes que solicitamos? — pergunta a funcionária, o olhar fixo na tela do computador.
- Trouxe, sim, dona. Está tudo aqui.
- Falta um comprovante de residência atualizado, serve a conta de luz deste mês.
- A desse mês ainda não chegou, taí a do mês passado.
- Não serve.
Era 4 de fevereiro.
- Tem contas de três meses encarrilhados, o endereço é o mesmo...
- Não posso aceitar, senhor. Tenho cumprir a lei.
Vivi algo assemelhado quando vice-prefeito do Recife por 16 anos.
Mesmo quando todos os serviços passaram ao sistema digital, aqui e acolá vinha ao meu gabinete alguém se queixando de exigências descabidas.
Já não havia mais o “despachante” informal, que se plantava próximo aos guichês e se oferecia para agilizar o processo em troca de uma comissão.
A quase totalidade dos funcionários, adaptada à agilidade cibernética, apenas esclarece e orienta, sem maiores exigências.
Assim mesmo eventualmente acontecia a dificuldade burocrática inexistente em troca de algo do usuário. Resquício do passado.
Cunhei a expressão “o que é bom para o burocrata é ruim para todo mundo”.
E é mesmo.
O burocrata dorme sonhando com carimbos, prazos, taxas, protocolos, números de controle e mais três vias autenticadas.
Mas a ciência e a tecnologia e a vontade política reduzem progressivamente o terreno de atuação dos amantes da burocracia mal intencionados.
A partir deste ano, a declaração de Imposto de Renda de pessoas físicas a gente já encontra preenchida no portal gov.br. É só conferir e com um toque na tecla do computador, enviar.
Ainda assim, ao cidadão humilde e pouco letrado, em cartórios ou órgãos públicos a nível local, a burocracia segue fazendo seus males.
Se comentar, identifique-se.
Saudade do glamour imaginário da infância https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/tempos-idos.html

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