O nó górdio do desenvolvimento: livre fluxo de
capitais
A política monetária
é responsável pelo maior processo de concentração de renda da história: mais do
que na ditadura ou na República Velha.
Luís Nassif/Jornal GGN
Não se tenha dúvida: o estadista do próximo século será o presidente que
conseguir cortar o nó górdio da política monetária e transformar o crédito em
elemento central do desenvolvimento.
O Brasil está preso a essa armadilha desde a gestão Marcílio Marques
Moreira, no governo Collor. E mais ainda após o Plano Real — consolidando-se
com o regime de metas inflacionárias instituído por Armínio Fraga no segundo
governo FHC.
O modelo é fatal para qualquer processo de desenvolvimento.
O mecanismo funciona em camadas. A primeira institui uma taxa básica, a
Selic. A segunda elimina gradativamente todos os mercados que operavam com
taxas inferiores. No caso do BNDES, trocou-se a moeda de referência por outra
atrelada à Selic. Qualquer tentativa de financiamento a taxas menores passou a
ser apontada como alimentadora do déficit público — uma distorção que foge a
qualquer lógica econômica consistente, pois impede qualquer esforço de
investimento.
Gradativamente, tentou-se esvaziar o FGTS. Mais recentemente, apontou-se
para a redução progressiva, até o desaparecimento, da caderneta de poupança e
dos financiamentos habitacionais. Em paralelo, todo o financiamento do setor
público foi sendo securitizado: contratos de dívida lançados em fundos
privados, com cotas oferecidas ao mercado tendo como piso mínimo a Selic.
Sobre essa camada já exorbitante de juros, aceitou-se ainda o spread
bancários, o mais violento entre todas as economias comparáveis.
O resultado é que a política monetária se tornou o maior obstáculo a
qualquer projeto de país — e a qualquer Plano de Metas. É responsável pelo
maior processo de concentração de renda da história brasileira: mais intenso do
que no período militar, mais do que na República Velha.
Este é o capítulo inicial, a pedra fundamental de qualquer projeto sério
de reconstrução nacional.
É hora de encerrar a mitomania de que a Selic visa combater a inflação
de demanda. O que existe, na prática, é carry trade: captação de
dinheiro barato nos países centrais e aplicação nas elevadas taxas de juros de
economias periféricas como o Brasil, que obriga uma Selic permanentemente
elevada, para impedir a fuga do capital gafanhoto para outras economias
emergentes. Quando se chega a essa conclusão, fica evidente onde reside o
pecado capital que impede o desenvolvimento: o livre fluxo de capitais — e a
confusão deliberada entre o capital financeiro especulativo, o capital
gafanhoto, e o capital produtivo.
As eleições sempre foram um reflexo do seu tempo e, em 2026, esse tempo
é marcado pela ascensão vertiginosa da Inteligência Artificial. A menos de seis
meses do primeiro turno do pleito de 4 de outubro, o Brasil se prepara para
enfrentar disputas políticas que ocorrerão num ambiente em que vozes podem ser
clonadas, rostos fabricados e narrativas inteiras geradas em escala industrial
com poucos comandos. O que está em jogo, aqui, não é apenas quem vence nas
urnas, mas sob quais condições de realidade essa escolha é feita.
O Tribunal Superior Eleitoral avançou, significativamente, ao aprovar
resoluções que regulam o uso de IA nas campanhas. As novas regras – que
proíbem deepfakes, exigem rotulagem
explícita de conteúdo sintético e vedam que modelos de IA sugiram ou indiquem
candidatos ao eleitor – são um passo necessário em direção à proteção da
integridade do processo democrático.
No entanto, pessoas e organizações que atuam pela regulação das
plataformas e mídias digitais têm o dever de soar o alarme: o jogo sujo nas
redes não apenas persistirá como poderá se tornar mais sofisticado, e a atual
arquitetura de responsabilização ainda é frágil diante da velocidade das
mudanças tecnológicas e da opacidade de funcionamento dos algoritmos.
Tempestade perfeita
A preocupação não é retórica. Dados do Comitê Gestor da Internet no
Brasil (CGI.Br) revelam um cenário preocupante: 41% dos usuários relatam
contato diário com deepfakes e apenas 17% dos brasileiros têm alto desempenho
na identificação de conteúdo falso ou verdadeiro. Mais grave: um terço da
população sequer considera que vale a pena verificar a veracidade das
informações que recebe. Essa combinação de uma tecnologia generativa cada vez
mais acessível e um eleitorado desarmado criticamente é a tempestade perfeita
para a desinformação em escala industrial.
Se as últimas eleições foram assoladas pelas notícias falsas, o problema
cresce substancialmente agora com os perfis de pessoas falsas, personagens
criados inteiramente pelas IAs, com apelo pensado estrategicamente para cativar
públicos específicos e gerar credibilidade para mensagens deturpadas e sem
lastro em informações embasadas ou dados confiáveis.
Para agravar o quadro, um levantamento do Data Privacy Brasil mostrou
que conteúdos sintéticos políticos circularam sem rótulo de IA em 73% dos
posts, o que comprova que as plataformas não estão cumprindo espontaneamente as
regras do TSE. A autorregulação, mais uma vez, falha na largada.
Diante desse cenário, o Sleeping Giants Brasil acredita
que o enfrentamento ao uso manipulador da IA nas eleições exige medidas
estruturais que vão além das resoluções eleitorais. Precisamos de um marco
regulatório robusto para a Inteligência Artificial no país, e é por isso que
acompanhamos de perto a tramitação do PL 2338/2023, que institui
o marco legal da IA no Brasil. Nossa atuação se concentra em três pontos
considerados centrais para evitar que a tecnologia seja usada como arma de
manipulação em massa.
É um desafio que exigirá enorme coesão nacional. Para tanto, é urgente que a
discussão comece agora.
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Enriquecimento financeiro de 1995 a
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