25 abril 2026

Política monetária & concentração de renda

O nó górdio do desenvolvimento: livre fluxo de capitais
A política monetária é responsável pelo maior processo de concentração de renda da história: mais do que na ditadura ou na República Velha.
Luís Nassif/Jornal GGN     

Não se tenha dúvida: o estadista do próximo século será o presidente que conseguir cortar o nó górdio da política monetária e transformar o crédito em elemento central do desenvolvimento.

O Brasil está preso a essa armadilha desde a gestão Marcílio Marques Moreira, no governo Collor. E mais ainda após o Plano Real — consolidando-se com o regime de metas inflacionárias instituído por Armínio Fraga no segundo governo FHC.

O modelo é fatal para qualquer processo de desenvolvimento.

O mecanismo funciona em camadas. A primeira institui uma taxa básica, a Selic. A segunda elimina gradativamente todos os mercados que operavam com taxas inferiores. No caso do BNDES, trocou-se a moeda de referência por outra atrelada à Selic. Qualquer tentativa de financiamento a taxas menores passou a ser apontada como alimentadora do déficit público — uma distorção que foge a qualquer lógica econômica consistente, pois impede qualquer esforço de investimento.

Gradativamente, tentou-se esvaziar o FGTS. Mais recentemente, apontou-se para a redução progressiva, até o desaparecimento, da caderneta de poupança e dos financiamentos habitacionais. Em paralelo, todo o financiamento do setor público foi sendo securitizado: contratos de dívida lançados em fundos privados, com cotas oferecidas ao mercado tendo como piso mínimo a Selic.

Sobre essa camada já exorbitante de juros, aceitou-se ainda o spread bancários, o mais violento entre todas as economias comparáveis. 

O resultado é que a política monetária se tornou o maior obstáculo a qualquer projeto de país — e a qualquer Plano de Metas. É responsável pelo maior processo de concentração de renda da história brasileira: mais intenso do que no período militar, mais do que na República Velha.

Este é o capítulo inicial, a pedra fundamental de qualquer projeto sério de reconstrução nacional.

É hora de encerrar a mitomania de que a Selic visa combater a inflação de demanda. O que existe, na prática, é carry trade: captação de dinheiro barato nos países centrais e aplicação nas elevadas taxas de juros de economias periféricas como o Brasil, que obriga uma Selic permanentemente elevada, para impedir a fuga do capital gafanhoto para outras economias emergentes. Quando se chega a essa conclusão, fica evidente onde reside o pecado capital que impede o desenvolvimento: o livre fluxo de capitais — e a confusão deliberada entre o capital financeiro especulativo, o capital gafanhoto, e o capital produtivo.

As eleições sempre foram um reflexo do seu tempo e, em 2026, esse tempo é marcado pela ascensão vertiginosa da Inteligência Artificial. A menos de seis meses do primeiro turno do pleito de 4 de outubro, o Brasil se prepara para enfrentar disputas políticas que ocorrerão num ambiente em que vozes podem ser clonadas, rostos fabricados e narrativas inteiras geradas em escala industrial com poucos comandos. O que está em jogo, aqui, não é apenas quem vence nas urnas, mas sob quais condições de realidade essa escolha é feita.

O Tribunal Superior Eleitoral avançou, significativamente, ao aprovar resoluções que regulam o uso de IA nas campanhas. As novas regras – que proíbem deepfakes, exigem rotulagem explícita de conteúdo sintético e vedam que modelos de IA sugiram ou indiquem candidatos ao eleitor – são um passo necessário em direção à proteção da integridade do processo democrático.

No entanto, pessoas e organizações que atuam pela regulação das plataformas e mídias digitais têm o dever de soar o alarme: o jogo sujo nas redes não apenas persistirá como poderá se tornar mais sofisticado, e a atual arquitetura de responsabilização ainda é frágil diante da velocidade das mudanças tecnológicas e da opacidade de funcionamento dos algoritmos.

Tempestade perfeita

A preocupação não é retórica. Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.Br) revelam um cenário preocupante: 41% dos usuários relatam contato diário com deepfakes e apenas 17% dos brasileiros têm alto desempenho na identificação de conteúdo falso ou verdadeiro. Mais grave: um terço da população sequer considera que vale a pena verificar a veracidade das informações que recebe. Essa combinação de uma tecnologia generativa cada vez mais acessível e um eleitorado desarmado criticamente é a tempestade perfeita para a desinformação em escala industrial.

Se as últimas eleições foram assoladas pelas notícias falsas, o problema cresce substancialmente agora com os perfis de pessoas falsas, personagens criados inteiramente pelas IAs, com apelo pensado estrategicamente para cativar públicos específicos e gerar credibilidade para mensagens deturpadas e sem lastro em informações embasadas ou dados confiáveis.

Para agravar o quadro, um levantamento do Data Privacy Brasil mostrou que conteúdos sintéticos políticos circularam sem rótulo de IA em 73% dos posts, o que comprova que as plataformas não estão cumprindo espontaneamente as regras do TSE. A autorregulação, mais uma vez, falha na largada.

Diante desse cenário, o Sleeping Giants Brasil acredita que o enfrentamento ao uso manipulador da IA nas eleições exige medidas estruturais que vão além das resoluções eleitorais. Precisamos de um marco regulatório robusto para a Inteligência Artificial no país, e é por isso que acompanhamos de perto a tramitação do PL 2338/2023, que institui o marco legal da IA no Brasil. Nossa atuação se concentra em três pontos considerados centrais para evitar que a tecnologia seja usada como arma de manipulação em massa.

É um desafio que exigirá enorme coesão nacional. Para tanto, é urgente que a discussão comece agora.

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