Quando a técnica escreve: da fotografia à IA
A história da arte é também a evolução da técnica. No século XX, a fotografia deslocou o gesto manual para o olhar. Hoje, a estética produzida pela IA reabre cenário semelhante, mas transfere o gesto à linguagem – o que não excluí o debate sobre autoria e consentimento
Hélio Miranda Costa Jr./Outras Palavras
No início do século XX, a arte entrou em crise não por falta de imaginação, mas por excesso de técnica. A fotografia deixou de ser curiosidade científica e passou a ocupar o espaço simbólico antes quase exclusivo da pintura. O desconforto não era apenas uma disputa de estilo. Tocava algo mais sensível: a maneira como a cultura ocidental compreendia singularidade, autoria e criação.
Quando uma imagem pode ser reproduzida indefinidamente, o que acontece com sua autoria? Onde se localiza o gesto artístico quando a máquina participa do processo? Essas perguntas desestabilizavam uma tradição que associava arte à presença irrepetível.
Walter Benjamin captou essa inflexão ao afirmar que “aquilo que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura”. A aura não é misticismo. É o “aqui e agora” da obra, sua presença singular ligada a uma história concreta. A reprodução técnica desloca essa presen&cc edil;a.
Como ele observa, “a técnica reprodutiva desliga o reproduzido do campo da tradição”. O valor de culto cede espaço ao valor de exposição. O que antes exigia recolhimento passa a circular.
A reação foi intensa. Muitos viram na fotografia uma ameaça à profundidade da arte. A máquina parecia incapaz de intenção. O temor era que a técnica empobrecesse o sensível. Benjamin, porém, desloca o foco. Ele lembra que, ao longo da história, quando o modo de vida coletivo se transforma, também se transforma a percepção. A técnica não apenas produz novas imagens. Ela reorganiza o modo de ver.
Com a fotografia, “a mão foi aliviada das mais importantes obrigações artísticas”. O gesto manual não desaparece, mas muda de função. A máquina registra. O fotógrafo escolhe. O enquadramento, o instante, a insistência passam a definir o resultado. A autoria já não coincide totalmente com a execu&c cedil;ão material.
Esse deslocamento não é abstrato. Durante anos, desenhar exigia de mim uma concentração quase física. O traço dependia da pressão da mão, da repetição paciente, da tentativa e erro. Quando passei a fotografar com mais frequência, percebi que o esforço não diminuía; apenas mudava de lugar. Uma fo tografia não nasce do clique automático. Ela exige deslocamento no espaço, espera pela luz adequada, insistência. Muitas vezes são necessárias dez ou vinte tentativas até que uma imagem corresponda ao que estava apenas intuído.
A câmera registra, mas o gesto é meu. A escolha do ângulo, o momento do disparo, a decisão de insistir pertencem ao humano. O dispositivo não elimina o autor. Ele reorganiza sua atuação.
Décadas depois, a estética produzida por sistemas de inteligência artificial reabre cenário semelhante. Quando uma imagem surge a partir de uma descrição textual, as perguntas retornam: isso é arte? Há intenção? Existe autor?< /span>
É impreciso afirmar que a IA cria sem referente. Se na fotografia o referente estava diante da lente, aqui ele se desloca para o horizonte da linguagem. A imagem nasce da ativação de possibilidades descritas por palavras. Ainda assim, há intenção humana. Alguém formula. Alguém direciona. Alguém escolhe.
A experiência revela isso com nitidez. Ao descrever uma cena em um prompt, raramente a primeira imagem corresponde ao que se imaginava. Ajusta-se a linguagem, modifica-se o estilo, retira-se um elemento, acrescenta-se outro. Às vezes surge um detalhe inesperado que melhora o resultado. Não foi exatamente pedido, mas é acolhido. A imagem final emerge desse vaiv&eac ute;m.
O processo já não é linear. Humano orienta. Máquina sintetiza. Humano seleciona. Humano itera. A criação torna-se distribuída. Uma coagência.
Se a fotografia deslocou a mão para o olho, a inteligência artificial desloca o gesto para a linguagem. O artista não desaparece. Ele reformula sua posição. A questão ética não reside na ausência do humano, mas na redistribuição da autoria e da responsabilidade nesse novo arranjo técnico.< /span>
Essa perspectiva ajuda também a relativizar parte do debate contemporâneo. É legítimo discutir os bancos de dados que treinam os modelos e as assimetrias envolvidas nesse processo. Mas a fotografia nunca foi completamente neutra. Ao registrar uma multidão atravessando uma avenida, cada rosto captado participa da imagem sem consentimento formal. A cidade int eira torna-se matéria visual. O que está em jogo não é pureza, mas negociação constante entre intenção, técnica e mundo.
Nesse ponto, o conceito de shanzhai, discutido por Byung-Chul Han, oferece outro deslocamento. No pensamento chinês, a criação não se funda em um início absoluto. Não há obsessão pela origem únic a. A obra é processo contínuo. Copiar não é trair; é participar da transformação. Os selos nas pinturas não fecham a obra, mas a mantêm aberta ao diálogo.
A tradição ocidental, ao contrário, consolidou a ideia de criação como ruptura inaugural. A assinatura sela. Afirma uma identidade fixa. Essa concepção está ligada à noção de verdade como permanência.
Quando modelos algorítmicos operam por recombinação em vastos conjuntos de dados, eles expõem algo que sempre esteve na base da criação: variação dentro de um campo compartilhado. O que inquieta talvez não seja a cópia, mas a erosão do mito da origem pura.
Isso não dissolve a ética. Ao contrário, torna-a mais complexa. Quem responde pelas exclusões que estruturam os bancos de dados? Quem responde pelos vieses incorporados ao modelo? A neutralidade estatística não elimina responsabilidade.
A história da fotografia mostra que a técnica não destrói automaticamente a arte. Ela a obriga a se reinventar. A pintura encontrou novos caminhos. O cinema consolidou sua própria linguagem. A estética algorítmica pode representar outro momento dessa transformação.
Talvez a repetição histórica não esteja na técnica, mas na inquietação que ela provoca. Sempre que a arte se aproxima da máquina, surge o temor de perder algo essencial. E, no entanto, é nesse encontro que novas formas emergem.
Se a fotografia ensinou que singularidade pode conviver com reprodução, a inteligência artificial nos convida a repensar originalidade como processo contínuo. Não se trata de proteger uma essência imutável, mas de habitar o fluxo sem abdicar da responsabilidade que acompanha cada gesto, mesmo quando esse gesto passa pela linguagem e pelo c&aacu te;lculo.
A técnica não escreve sozinha. Mas quando escreve conosco, obriga-nos a revisar o que entendemos por criação, autoria e ética. A história não se repete mecanicamente. Ela ecoa. E nesses ecos talvez possamos reconhecer que a ética sempre habitou as evoluções estéticas, não como freio externo, mas como consci& ecirc;ncia interna do modo como criamos e transformamos o mundo.
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Comandos e desmandos da inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/ia-condicao-humana.html

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