A armadilha do
Duplo digital
Por milênios, os humanos olharam muito raramente para seus
rostos. A onipresença dos celulares rompeu uma barreira, escancarou as portas
para Narciso e se converteu numa das grandes fontes de ensimesmamento e
alienação contemporâneos
Catherine Shannon | Tradução: Antonio Martins/Outras
palavras
Tudo é estranho. Trabalhamos em casa. Socializamos online. Nossas vidas privadas estão cada vez mais públicas. As pessoas fingem ser marcas; as marcas fingem ser pessoas. Otimizamos nossos corpos até que eles se rompam. E quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos.
Neste mundo invertido, buscamos compreender o que é real e o que é verdadeiro. Para conhecer a verdade sobre nós mesmos, começamos por um lugar que nos parece natural: o espelho. Desejamos nos ver como os outros nos veem, e a vida moderna nos oferece inúmeras oportunidades para isso.
Constantemente nos deparamos com nossa própria imagem, quer queiramos ou não: em nossos celulares, vídeos com a câmera frontal, selfies, perfis nas redes sociais, chamadas de Meet, espaços públicos, sistemas de reconhecimento facial. Acabamos esquecendo que os espelhos tanto duplicam a realidade quanto a invertem. Nenhum deles mostra exatamente como somos. Tudo é estranho.
O historiador Christopher Lasch escreveu que “para o narcisista, o mundo é um espelho”. Quase 50 anos depois, esse diagnóstico continua preciso, mas não capta totalmente a extensão da crise espiritual que enfrentamos atualmente. Acredito que a sala de espelhos que nos cerca constantemente evoca algo perturbador, sombrio. É uma armadilha afetiva na qual o imaginado suplanta o real: escolhemos uma fantasia de nós mesmos em prejuízo da realidade dos outros. E essa armadilha é atraída e facilitada pela tecnologia.
Para entender o que quero dizer, basta imaginarmos nosso comportamento online na vida real, sem as plataformas que embaralham os limites do que é aceitável.
Imagine-se em uma festa de trabalho — daquelas que você detesta. Um colega se aproxima. Ao lado dele, há um grande espelho, e enquanto você conversa e responde às suas perguntas pessoais invasivas, você não olha para o rosto dele. Em vez disso, olha para si mesma, para o seu próprio reflexo. Você se observa falando e rindo, vê a careta que faz quando ele pergunta se você pretende ter outro filho em breve. Você monitora seu reflexo, corrige a postura, exagera na expressão de “estou ouvindo”. Pessoalmente, isso seria totalmente bizarro. As pessoas provavelmente perguntariam se você precisa se sentar. Mas é exatamente isso que fazemos, o dia todo, nas telas de aplicativos como o Meet.
Ou imagine uma certa influenciadora de beleza mostrando seus produtos favoritos para o verão — mas sem o celular. Por seis minutos seguidos, ela encara o próprio olhar ávido no espelho do banheiro, falando com o reflexo. Ela toca nos produtos, murmurando sobre — sei lá — os benefícios da mucina de caracol. Você chamaria a polícia. Ou pelo menos quem estiver montando o elenco do novo filme do Ari Aster.
Há algo de inquietante em ser ao mesmo tempo orador e espectador, em representar a própria identidade para si mesmo, em vez de simplesmente vivê-la. Quando assumimos os papéis de ator, público e crítico simultaneamente, isso inevitavelmente produa desgaste psicológico.
Historicamente, nós, humanos, tivemos muito pouco acesso à nossa própria imagem, por mais que sempre o desejássemos. Os espelhos de cobre e bronze do antigo Egito, Grécia e Roma — culturas obcecadas pela beleza — eram objetos de luxo produzidos para os ricos. Durante o Renascimento, os retratos a óleo encomendados eram destinados à aristocracia e eram notoriamente pouco confiáveis. Qualquer fã da história dos Tudor já ouviu a história de Ana de Cleves enganando o rei Henrique VIII com um retrato tão impreciso que ele alegou não conseguir consumar o casamento.
Os espelhos não eram objetos domésticos comuns até meados de 1800. Então, vieram as imagens estáticas de nós mesmos, as imagens em movimento de nós mesmos e a onipresente câmera do smartphone que combina as três, além de tornar essas imagens acessíveis em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Em quase toda a história da humanidade, as pessoas não estavam olhando em seus próprios olhos, e certamente não estavam assistindo a si mesmas em loop nos stories do Instagram, tomando taças de espumante em um brunch de despedida de solteira.
Sejamos honestos: eu não deveria saber como fico quando levo o lixo para fora de casa. Mas sei, porque minha câmera de segurança Google Home me alertou recentemente sobre uma “Pessoa Vista – Câmera Traseira”. “Pessoa” é um termo generoso para o que eu vi: uma figura fantasmagórica e abatida, com o cabelo oleoso preso para trás, curvada sobre um saco de lixo como uma velha bruxa.
Somos constantemente filmados: em público, pelo Estado, por empresas privadas tentando nos vender coisas, até mesmo por estranhos. Eu me arrepio só de pensar em todas as fotos minhas que existem nos celulares de desconhecidos. No meu próprio filme de terror pessoal, lá estou eu, comendo um bagel, e algum turista de 17 anos dá um zoom no meu rosto pixelado, tira um print e manda para o grupo da família no WhatsApp — “a cara dessa mulher kkkk” — e eu me torno a piada interna que define aquele feriado em Nova York pelos próximos anos.
É curioso, especialmente considerando o quão pouco nos olhávamos no passado e o quão raros e imperfeitos eram os espelhos durante milhares de anos, que a sabedoria tradicional nos ensine a ter cautela com o ato de nos observarmos. As três religiões com mais seguidores no Ocidente — cristianismo, islamismo e judaísmo — alertam contra os perigos dos espelhos, da vaidade, do orgulho e da preocupação excessiva consigo mesmo.
Durante o shiva, o período de luto judaico de sete dias, os espelhos são cobertos para incentivar a reflexão sobre a relação entre Deus e o homem e para desencorajar a vaidade e o egocentrismo. O Livro de Provérbios ensina que o orgulho é espiritualmente prejudicial: “O orgulho precede a ruína, / A arrogância, o fracasso.”
Muitos cristãos acreditam que o orgulho não é apenas um pecado, mas o pecado original e o pior de todos. É demoníaco, “o estado de espírito completamente anti-Deus”, como escreveu C.S. Lewis em “Cristianismo Puro e Simples”. O orgulho é um afastamento de Deus e uma exaltação de si mesmo. O espelho é um símbolo de orgulho e vaidade, mas também simboliza nosso conhecimento terreno incompleto. Como escreveu o apóstolo Paulo sobre Deus em sua primeira carta aos Coríntios: “Agora vemos como em espelho, de modo obscuro; então veremos face a face”.
A tradição profética islâmica (hadith) desencoraja a representação de seres vivos em contextos religiosos. No entanto, no misticismo islâmico, um espelho embaçado é uma metáfora para a alma humana. Somente quando o ego é aniquilado e a superfície é polida e limpa, o divino se torna visível. O Alcorão também é explícito sobre o orgulho e a vaidade social: “Não desprezeis as pessoas, nem andeis sobre a terra com arrogância”.
A mensagem é clara: a auto-obsessão é espiritualmente perigosa e precisamos manter-nos vigilantes. Nas três religiões, o espelho é uma forma pobre e incompleta de ver. É coberto, escuro e embaçado. Não revela a verdade ou mesmo a nós mesmos como somos. É somente através da contemplação privada, de encontros face a face e de uma transformação espiritual interior que chegamos a conhecer a verdade.
Se ao menos fosse tão fácil. Como Narciso, somos facilmente seduzidos por nossos próprios reflexos, por nossos eus imaginados e idealizados. Diariamente, somos incentivados a essa auto-sedução. Mas seduzir a si mesmo… Francamente, não é assim que a sedução deveria funcionar.
A psicologia convencional, e praticamente todos os aspectos da vida moderna, enfatizam bastante a importância de um ego saudável. É uma ideia reconfortante e harmoniosa, essencial para qualquer personalidade equilibrada. Todos sabemos que precisamos de amor-próprio e autocuidado.
Sim, priorize-se, estabeleça limites, use uma máscara facial hidratante… A mensagem oposta, de que existe amor-próprio ou preocupação excessiva consigo mesmo, não é muito difundida no TikTok. Mas obviamente, tudo tem seus limites.
O que acontece quando os limites são ultrapassados? Coisas ruins, infelizmente. Coisas terríveis. O reflexo de si mesmo raramente é reconfortante por muito tempo. Em diversas culturas, espelhos têm sido usados por adivinhos, feiticeiros e bruxas para adivinhação, vidência e tentativas de vislumbrar além do mundo visível. No folclore e nas práticas ocultistas, o espelho não é meramente reflexivo, mas permeável — um portal onde algo pode aparecer ou alguém pode retornar.
Até mesmo os pós-modernistas têm seus próprios alertas. Em 1967, Michel Foucault descreveu o espelho de forma sombria como uma espécie de limiar, uma mistura entre um mundo de fantasia, uma utopia e algum outro lugar estranho à margem — que ele chamou de “heterotopia”. O espelho é um desses lugares estranhos porque descobrimos nossa presença e nossa ausência ao mesmo tempo. “Eu me vejo ali onde não estou”, escreveu ele, “em um espaço irreal e virtual que se abre por trás da superfície”.
Outras heterotopias, segundo Foucault, incluem a lua de mel, hospitais psiquiátricos, resorts, prisões, o teatro, o cinema, museus, bibliotecas, bordéis e o cemitério. Nesses ambientes, a ordem normal das coisas se desfaz e certas verdades são expostas. Cada um desses lugares poderia servir como uma metáfora apropriada para as telas, monitores e aplicativos de redes sociais que nos refletem incessantemente. Essa tecnologia é um espelho, mas também é um museu, um teatro, uma prisão.
Habitar esse reino espelhado e dual, essa existência duplicada, não parece natural. Nem mesmo parece neutro. Algo está errado, e quando algo está errado, Freud provavelmente já tentou explicá-lo. Ele chamou isso de “o estranho”, um conceito que, por sua própria natureza, resiste a uma definição precisa, embora, se você já viu um filme de David Lynch, você o tenha experimentado em primeira mão.
Complexos de castração e fantasias uterinas à parte, Freud faz um trabalho bastante preciso: o estranho, segundo seu ensaio de 1919 com o mesmo título, “é aquela classe do terrível que remete a algo que nos é conhecido há muito tempo, algo que outrora nos era muito familiar”. É fácil que algo novo ou desconhecido nos assuste, mas a sensação de estranheza depende de já o conhecermos de alguma forma.
O estranho é uma versão sombria do familiar. Ele surge quando a fronteira entre imaginação e realidade começa a se confundir, quando mecanismos ocultos parecem estar em ação sob a superfície e quando algo ganha vida quando não deveria. (Ou vice-versa, no caso de influenciadores, que podem ter aquele olhar morto e penetrante.) É marcado pela repetição, por uma sensação de algo predestinado e inescapável. Freud observou que o estranho é frequentemente e facilmente produzido quando um símbolo começa a assumir toda a força daquilo que representa. É difícil imaginar uma descrição mais precisa da vida online.
Os efeitos psicológicos da observação prolongada de si mesmo são realmente perturbadores. Um estudo de 2010 da Universidade de Urbino, na Itália, descobriu que, quando jovens adultos saudáveis olhavam para seus próprios rostos em um espelho sob baixa luminosidade, os resultados eram imediatos e inquietantes. Os participantes relataram ver grandes deformações em seus próprios rostos, uma pessoa desconhecida e até mesmo seres fantásticos e monstruosos. Alguns viram o rosto de um animal, como um gato, um porco ou um leão. Alguns viram seus pais. Todos experimentaram alguma forma de dissociação. Alguns participantes sentiram que o outro rosto no espelho era o que os observava.
Intimamente ligada aos espelhos e ao estranho está a ideia do duplo, ou doppelgänger, um tema há muito explorado na literatura e no cinema, desde a novela “O Duplo”, de Dostoiévski, até o filme de terror “Nós”, de Jordan Peele. No folclore alemão e do leste europeu, o doppelgänger é um presságio, um usurpador, a sombra do eu e um sinal de que a identidade é instável. O eu é dividido, assombrado, imitado e perseguido por sua própria imagem.
Hoje em dia, tratamos nossa própria imagem — tanto no espelho quanto online — como algo psicologicamente protetor: uma forma de estabilizar nossa identidade, gerenciar nossa reputação e garantir um senso de identidade coerente.
Mas tudo isso sugere a possibilidade oposta: quanto mais tentamos nos estabilizar por meio da repetição, da duplicação, da auto-observação e — vou dizer — da publicação na rede social, mais estranhos e frágeis nos tornamos. Uma preocupação com o eu estável produz instabilidade. Hoje em dia, não abordamos nossos duplos com cautela; nós os convidamos e chegamos ao ponto de os selecionar.
É como uma versão invertida de “O Retrato de Dorian Gray”. No romance de Oscar Wilde, Dorian mantém sua bela imagem pública, enquanto seu retrato revela sua corrupção e feiura interior. Sob a cultura da imagem moderna, tentamos a operação inversa: apresentamos um duplo digital perfeito à custa de nosso eu real, que fica a cargo do desconforto e da tensão entre os dois. Se você posta a foto perfeita, pouco importa que se sinta triste por dentro.
A situação é pior que a vaidade, mais sombria que o narcisismo. Os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso. À medida em que novos aspectos de nossas vidas se apresentam em um reino virtual, e nos identificamos cada vez mais com as fantasias de nossos sósias digitais, começamos a nos desumanizar. Quando fazemos isso, torna-se sem dúvida mais fácil desumanizar os outros.
Uma pequena forma de como isso acontece todos os dias: o desaparecimento generalizado das boas maneiras. Frequentemente encontro alguém caminhando na calçada em minha direção, absorto no celular, até que percebe a presença de outra coisa vindo em sua direção, que neste caso sou eu, um ser humano. Esse jogo de “quem pisca primeiro” insuportável pode ter algo a ver com a forma como fomos condicionados a enxergar uns aos outros: como coisas, não como pessoas. Vemos as outras pessoas como obstáculos para o que queremos, nas calçadas e em outros lugares. Ou como coisas que podemos usar para conseguir o que queremos. Grande parte da tecnologia nos trata como coisas a serem manipuladas, “usuários” a serem usados. Nos acostumamos com isso, internalizamos essa mentalidade e retribuímos o tratamento às pessoas ao nosso redor.
Quando nos olhamos no espelho, buscamos algo. Queremos ser conhecidos, vistos e compreendidos. Mas estamos olhando para o lugar errado. O espelho nos mostra nosso próprio olhar autoexaltante — o olhar do orgulho, do prazer e do ego. Essa fantasia é poderosa, até mesmo hipnotizante, mas pouco confiável. Quando olhamos apenas para nós mesmos, não encontramos nada que nos resista; não há contradições, nem interrupções. Precisamos do olhar honesto: o olhar dos outros e o olhar voltado para os outros. Para nos enxergarmos com clareza, não usamos espelhos. Usamos relacionamentos.
Antes de ter um filho, eu tinha a impressão de ser uma pessoa muito paciente. Achava que conseguiria limpar ovo mexido do chão sem nenhuma frustração, ler “Filhotes de Coruja” pela enésima vez sem me cansar de Sarah, Percy, Bill e sua mãe coruja sem nome. Mas meu lindo filho expôs minhas inadequações com uma clareza alarmante. (Estou trabalhando nisso.) Em nossos relacionamentos amorosos com os outros, somos levados para fora de nós mesmos e para o mundo.
Os espelhos nos incentivam a escolher nossas fantasias em detrimento da realidade alheia. É melhor desviarmos o olhar.
"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html

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