Lula anuncia fim das bets e define prazo para saque de saldos
Medida provisória bloqueia novos depósitos, determina retirada
voluntária até 5 de outubro e prevê devolução posterior dos valores; sites e
aplicativos serão bloqueados no dia 6
Cezar Xavier/Vermelho
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta sexta-feira (25), em São
Paulo, uma medida provisória (MP) que determina o fim das plataformas de
apostas on-line, as chamadas bets, no Brasil. A partir da publicação da medida,
ficam proibidos novos depósitos nas plataformas.
O governo
estabeleceu 5 de outubro, às 23h59, como prazo para que os apostadores retirem
voluntariamente os saldos que ainda estiverem nas contas. A partir de 6 de
outubro, sites e aplicativos deverão sair do ar.
O
ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a decisão foi tomada diante dos
impactos sobre a renda das famílias, o endividamento e a saúde pública.
“A partir
de hoje não se pode mais colocar dinheiro nos sites de apostas do país”, disse
Durigan durante o evento que anunciou a medida.
Lula: “o
cassino está na cozinha, está na sala”
Em seu
discurso, Lula relatou conversas que manteve com pessoas endividadas pelas
apostas. Entre os casos mencionados, citou um jovem que devia R$ 10 mil, embora
recebesse R$ 4 mil por mês; um pequeno empresário que acumulou uma dívida de R$
2,2 milhões; e uma mulher de 27 anos que, segundo o presidente, acumulou R$ 630
mil em dívidas.
“Eu tomei
a decisão por uma medida dura e drástica necessária”, afirmou. Lula comparou a
situação ao avanço de uma doença grave e disse que a solução, em sua avaliação,
exigia a retirada das bets do mercado.
O
presidente também destacou relatos de pessoas que enfrentaram sofrimento
psicológico e tentativas de suicídio associados às dívidas. “Não é brincadeira.
É uma coisa muito séria”, disse.
Para
Lula, o problema ganhou uma dimensão inédita porque as apostas passaram a estar
permanentemente disponíveis nos celulares. “Esse país trouxe o cassino para
dentro de casa. O cassino tá na cozinha, tá na sala”, afirmou, ao defender a
necessidade de controle sobre a atividade.
- “Não dá para induzir o pobre
a acreditar que vai ficar rico”
Outro
eixo do discurso presidencial foi a crítica à publicidade das bets. Lula citou
como exemplo uma propaganda em que uma mulher não consegue pagar uma compra no supermercado,
aposta e, depois de ganhar, volta para quitar a conta.
Para o
presidente, esse tipo de mensagem cria uma expectativa de que as apostas possam
funcionar como alternativa para resolver dificuldades financeiras.
“Não dá
para induzir as pessoas humildes e mais necessitadas de que vai receber a sua
vida jogando”, afirmou.
Como
funcionará a devolução do dinheiro
O governo
montou um cronograma para os apostadores que não conseguirem retirar seus
recursos diretamente até o prazo final.
Confira
as principais datas:
- 25 de setembro a 5 de
outubro:
apostadores podem retirar voluntariamente os saldos, até 23h59 do dia 5;
- 6 de outubro: sites e aplicativos serão
bloqueados;
- 7 e 8 de outubro: as empresas deverão
consolidar os saldos individualizados por CPF e encaminhar as informações
aos bancos;
- 9 a 14 de outubro: os valores deverão ser
devolvidos aos apostadores por meio do sistema bancário;
- 14 de outubro: segundo o governo, a Caixa
Econômica Federal poderá intermediar a devolução nos casos em que houver
impedimentos.
A
orientação do governo é que quem possui dinheiro nas plataformas faça o resgate
diretamente antes do bloqueio. Para os valores que permanecerem nas contas, o
mecanismo anunciado prevê a identificação dos apostadores pelo CPF e o
encaminhamento das informações às instituições financeiras.
O governo
também informou que mecanismos de garantia e caução exigidos das empresas
poderão ser utilizados para assegurar o cumprimento das obrigações.
Publicidade
e patrocínios também serão encerrados
A MP também
estabelece o fim da publicidade das apostas. Novos contratos de propaganda não
poderão ser firmados após a publicação da medida.
Contratos
já existentes terão prazo até 5 de outubro para serem encerrados. Depois dessa
data, segundo o governo, não deverão permanecer no país anúncios nem
patrocínios legais vinculados às bets.
A decisão
atinge um mercado que, desde 2025, vinha funcionando sob autorização e
fiscalização federal. Segundo o Ministério da Fazenda, desde 1º de janeiro
daquele ano somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas
(SPA) poderiam operar nacionalmente.
Governo
promete reforçar combate ao mercado ilegal
Com a
proibição das plataformas autorizadas, o governo prevê o reforço das ações
contra sites clandestinos.
A
estratégia envolve Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça, Receita
Federal, Polícia Federal, Anatel e Advocacia-Geral da União. Entre as medidas
anunciadas estão o bloqueio de sites e aplicativos irregulares e o rastreamento
das movimentações financeiras relacionadas às apostas ilegais.
O governo
pretende também interromper transferências via Pix e TED destinadas a
operadores clandestinos e utilizar mecanismos de identificação de transações
para bloquear o fluxo financeiro.
A
ofensiva ocorre em um cenário no qual a fiscalização do mercado ilegal já vinha
sendo ampliada. Em 24 de setembro, o Ministério da Justiça informou ter
determinado a remoção de 1.367 páginas e perfis usados para divulgar
plataformas irregulares de apostas — 1.274 páginas no Facebook e 93 perfis no
Instagram.
Da
regulamentação à proibição
A decisão
representa uma mudança significativa na política federal para o setor.
As
apostas de quota fixa foram legalizadas no âmbito esportivo pela Lei
13.756/2018, durante o governo golpista de Michel Temer. Ficou sem qualquer
regulamentação e sem pagar impostos durante o governo de Jair Bolsonaro. Em
2023, a Lei 14.790 ampliou o marco legal e incluiu os jogos on-line que
regulamentou-os tributariamente.
Durante o
governo Lula, o Ministério da Fazenda criou, em 2024, a Secretaria de Prêmios e
Apostas, responsável por regulamentar, autorizar e fiscalizar o mercado. O
governo estabeleceu regras para publicidade, integridade, proteção dos
apostadores e funcionamento das empresas.
A partir
de 2025, apenas operadores autorizados passaram a poder atuar legalmente em
âmbito nacional. O governo também criou mecanismos para impedir que
beneficiários de programas sociais realizassem apostas, diante da percepção de
que beneficiários do Bolsa Família estavam perdendo os recursos destinados em
bets.
A decisão
anunciada agora, portanto, substitui o modelo regulatório por uma política de
proibição.
Saúde
pública entra no centro da justificativa
Durante o
anúncio, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentou dados sobre os
impactos sociais e sanitários associados ao jogo problemático.
Segundo
Padilha, o custo social relacionado aos danos provocados pelas apostas
eletrônicas chega a R$ 38,8 bilhões por ano, incluindo custos associados a
mortes por suicídio, perda de qualidade de vida e tratamento de depressão.
O governo
também destacou a utilização do mecanismo de autoexclusão criado para permitir
que usuários solicitem seu afastamento das plataformas. Dados apresentados
pelos ministros indicam que mais de 1,3 milhão de pessoas já recorreram ao
mecanismo.
A
avaliação oficial é que o problema não se restringe ao comportamento individual
dos apostadores e passou a exigir resposta das políticas públicas de saúde,
assistência e proteção da renda.
Na mesma
cerimônia, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, apresentou o Desenrola 3,
nova modalidade destinada à reestruturação de dívidas de pessoas físicas.
O desenho
anunciado prevê que o governo adquira carteiras de dívidas bancárias
inadimplidas, permitindo descontos que, segundo Moretti, deverão ser de pelo
menos 90%. A proposta pretende alcançar até R$ 150 bilhões em dívidas, com foco
em débitos de cartão de crédito e crédito pessoal.
Medida
ainda depende do Congresso
Embora a
medida provisória tenha efeito imediato após sua publicação, sua vigência não é
definitiva.
Pela
Constituição, uma MP precisa ser apreciada pelo Congresso Nacional dentro do
prazo constitucional. Deputados e senadores poderão aprovar o texto,
modificá-lo ou rejeitá-lo. Se não houver deliberação dentro do prazo, a medida
perde eficácia.
Além da
MP, o governo anunciou o envio de um projeto de lei com regras penais mais
rígidas para quem operar ou promover apostas ilegais.
A partir
de agora, portanto, a proibição anunciada pelo Executivo entra em uma segunda
etapa: a implementação das medidas de bloqueio e devolução dos saldos e, no
Congresso, a discussão sobre a permanência ou alteração do novo marco para as
apostas no país.
A
discussão sobre as bets vinha ocupando espaço crescente no debate político e
econômico. Levantamentos recentes registraram forte apoio popular a restrições
ao setor, ao mesmo tempo em que empresas, clubes esportivos e representantes do
mercado questionam os efeitos econômicos da proibição.
A disputa pelo Senado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0646797896.html

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