"O custo de um pequeno gesto" - uma crônica sobre a indiferença https://tinyurl.com/27mvmzdw
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
30 julho 2023
Minha opinião/crônica
Palavra de Alice
Alice, minha neta, 10 anos completados hoje, ao assistir Barbie:
— Teve uma hora que não foi feminista.
— Por que?
— Porque parecia que as mulheres eram melhores que os homens. Feminismo é igualdade.
A vida a cores e em branco e preto https://bit.ly/3Ye45TD
Leitura comentada: "100 anos da Revolução Russa"
29 julho 2023
Projeto estratégico
Notas sobre a ferrovia TransnordestinaFernando Teixeira*/Diário de Pernambuco
É indiscutível a relevância do papel das ferrovias na história das nações. Que o digam a escala e a velocidade do progresso norte-americano no transcurso dos séculos XIX e XX, notadamente a partir de 1830, quando os EEUU adotaram o transporte ferroviário como peça-chave de seu crescimento socioeconômico.
Em terras brasileiras, a presença dos trilhos e das locomotivas também inicia-se no século XIX, com a instalação, em 1854, dos 14 Km da estrada de ferro Mauá (Porto de Mauá – Fragoso), no Rio de Janeiro, um acontecimento, à época, que traduzia o prenúncio de uma trajetória exitosa do setor ferroviário, mercê de esperados reflexos positivos sobre a vida nacional.
De 1854 a 1960, ainda que em marcha nem sempre pacífica, é verdade que o Brasil alcançou o respeitável patamar de reunir cerca de 38 mil Km de trilhos implantados. Infortunadamente, um período logo sucedido por agudo declínio, no arrasto quer da escassez de investimentos, quer da deficiente gestão das redes ferroviárias, quer da desmedida ênfase atribuída ao segmento rodoviário nos anos de 1960 em diante.
Nas últimas seis décadas, aliás, a atrofia sofrida pela estrutura ferroviária, vis-à-vis ao aumento quantitativo das rodovias, exterioriza não só o improducente antagonismo criado entre dois particulares sistemas, mas, no geral, o descompromisso com a racionalidade, com a busca do equilíbrio e da relação complementar e inteligente entre os modais de transporte conhecidos, fatores esses altamente necessários em um país de dimensões continentais e de geografia tão diversificada como é a do Brasil. E todos sabemos, o Nordeste foi atingido em cheio por esse infausto movimento de atrofia, marcado, sobretudo, pelo veloz sucateamento de suas estradas de ferro e respectivos maquinários.
São aspectos de um problema que nos dias atuais reclama soluções urgentes, tal qual como suscita a lide com o caso específico da Transnordestina, projeto em que se vê possibilidades concretas de integração territorial, de fomento de fluxos comerciais, de elevação da competitividade de bens e serviços; ou por outra, um empreendimento que, uma vez bem conduzido, se constituirá em fato portador de futuro para o Nordeste, moldado a corrigir, em matéria de infraestrutura de transporte, muitas das distorções nacionais herdadas pela região.
Não cabe, portanto, encarar a Ferrovia Transnordestina de outro ângulo senão na conta de autêntica política de desenvolvimento regional, desta forma a requerer atenção e tratamento diferenciados, a mais do empenho absoluto de todas as instituições envolvidas com o projeto. E foi essa inspiração, há de se supor, a causa primeira que influenciou decisivamente a formalização do contrato de concessão datado de dezembro de 1997, cujo escopo era, deflagrar ações de recuperação, operação e manutenção da antiga malha da Rede Ferroviária Federal do Nordeste S/A. A rigor, a partir da concessão, almejavam-se intervenções capitaneadas pela iniciativa privada, munidas da capacidade tanto de ampliar e fortalecer elos econômicos entre cidades-polo, capitais e portos dos estados nordestinos, quanto de consolidar a interligação dos mesmos com a Região Sudeste, atravessando Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, conectando-os, afinal, à Região Sul.
O espírito original do projeto continua aceso, a despeito das dificuldades havidas nos anos que se seguiram a 1997, a começar pelo abandono da antiga malha da Rede Ferroviária Federal do Nordeste – S/A. Entre demais percalços, incluem-se: a proposta da Transnordestina Logística S/A – TLSA, em 2013, visando ao seccionamento da rede estabelecida no contrato de concessão; em 2017, a recomendação do Tribunal de Contas da União – TCU em defesa do bloqueio da aplicação de recursos públicos no empreendimento; em 2019, por medida da Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT, o pedido de caducidade do próprio contrato de concessão; recentemente, em dezembro de 2022, o controverso Primeiro aditivo firmado entre a ANTT e TLSA, restringindo as obras à malha Eliseu Martins (PI) – Salgueiro (PE) – Porto de Pecém (CE).
O aditivo pactuado em 2022 encerra uma escolha injustificável, porque sacrifica de modo cabal a ideia da integração entre estados nordestinos ao descartar o ramal Salgueiro – Porto de Suape, em Pernambuco. Registre-se, a propósito, que é precisamente este o ramal que detém melhores características no sentido de viabilizar a desejada conexão do Nordeste com os portos das regiões Sudeste e Sul, sobretudo em função das vantagens locacionais de Suape. Em resumo, ele serve aos dois grandes objetivos que sempre nortearam o projeto, isto é, a realização da coesão econômico – territorial interna e também a do intento da conexão regional com outras malhas e portos de influentes unidades federativas do país, como já ficou ventilado.
Se a hora é de afirmação da vontade política, fonte da determinação da sociedade de fazer da Transnordestina um investimento gerador de amplos e robustos aspectos socioeconômicos, outro rumo não existe a não ser o de retomar as bases e tratativas que desaguaram na concessão celebrada em 1997, reexaminando o processo, no seu todo ou em parte, se indispensável for. Nessa ordem de decisão, voltando as atenções para o Primeiro aditivo de dezembro de 2022, reintroduzir e priorizar o ramal Salgueiro – Suape no desenho da malha que, ao fim e ao cabo, poderá, inclusive, ser objeto de novo contrato de concessão ou autorização. Esse ramal, porquanto variável de peso em favor da redução do “Custo Nordeste”, é clausula incontornável para atender a outros tantos e elevados interesses do desenvolvimento regional.
No debate sobre a ferrovia que ora recomeça, que vença o bom senso; que prevaleça a solução ótima para o país e para o Nordeste. Nada mais, nada menos!
*Engenheiro, Presidente do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias de Pernambuco - FIEPE, Membro do Conselho Temático de Infraestrutura da Confederação Nacional da Indústria - CNI e Presidente Regional do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada e Infraestrutura - SINICON/PE.
No meu Twitter
O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) flagrou movimentações financeiras "atípicas" e "incompatíveis com o patrimônio" nas contas bancárias do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Bolsonaro. Bronca pesada.
O caleidoscópico tempo presente https://bit.ly/3Ye45TD
Mídia sem escrúpulos
A volta do jornalismo de esgoto e a guerra dos índices
Eles não temem a manipulação da estatísticas: temem o que as estatísticas podem mostrar.
Luis Nassif/Jornal GGN
Foi uma reestreia em grande nível da pior fase do jornalismo brasileiro: o jornalismo de esgoto, através do qual a mídia difundia as acusações mais inverossímeis visando estimular o estouro da boiada, o gado que atuava de maneira irracional nas grandes ondas de linchamento.
Lembrou as acusações de Cuba enviando dólares ao PT através de garrafas de rum, as FARCs invadindo o Brasil, a ABIN espionando o Supremo, Ministros recebendo propinas nas garagens do Palácio, e factóides em geral.
Criaram um crime impossível e atribuíram a um “inimigo”, usando o recurso do “SE”, que suporta tudo. “Se minha avó fosse roda, eu seria bicicleta”, por exemplo.
O crime impossível: a manipulação dos dados do IBGE.
Como explicou Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE e intelectualmente muito mais honesto que Edmar Bacha, outro ex-presidente, é impossível qualquer manipulação de dados no IBGE, devido à estrutura profissional dos funcionários do órgão.
A última manipulação ocorreu no período Delfim Netto, na primeira metade dos anos 70 – com plena aprovação do sistema Globo, que comanda o atual linchamento. Como reação, surgiram inúmeros outros índices, o do DIEESE (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas), o da FGV (Fundação Getúlio Vargas), da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), da Universidade de São Paulo. Além deles, todas as grandes instituições financeiras montaram seus próprios levantamentos de preços.
Depois de criar o crime impossível, criaram o suspeito do “SE”: se o futuro presidente do IBGE, Márcio Pochmann, manipular as estatísticas, ocorrerá o mesmo que ocorreu com o IBGE argentino. E “se” Pochmann não manipular as estatísticas? Aí perde-se o gancho.
O que poderia ser uma crítica técnica ao pensamento de Pochmann, tornou-se um caso de linchamento público desmoralizante para o jornalismo da Globo. Após a primeira suspeita lançada, seguiu-se um festival de ataques de jornalistas analfabetos econômicos, zurrando como sábios contra os estudos de Pochmann, sem a menor noção sobre o papel do IBGE ou sobre temas tratados por Pochmann e sobre a própria biografia de Pochmann, “acusando-o” de ter posições ideológicas. E Roberto Campos Neto? Esse tem posição técnica.
Cronista esportivo, coube a Milly Lacombe, da UOL, enxergar o rei nú: em um país em que a economia é dominada pela ideologia do mercado, as acusações a todos que não concordam com isso é serem “ideológicos”.
Em suma, um movimento que em nada ficou devendo aos movimentos do gado bolsonarista, as mesmas suposições sem base factual, o mesmo terraplanismo, a mesma intenção de fazer o gado pensar com o fígado.
Depois de um dia de ataques bárbaros, capitaneados por Miriam Leitão, restou uma única crítica válida: o anúncio do Secretário de Comunicação Paulo Pimenta, antecipando-se à Ministra do Planejamento Simone Tebet, uma grosseria, sem dúvida. E a soberba lição de civilidade de Tebet, quando cercada pelo gado setorista e indagada sobre o que achava das acusações sobre o crime impossível de Pochmann:
- Já fui julgada muitas vezes na minha vida e não vou julgar ninguém sem conhecer os fatos.
A briga dos índices
Por trás dessa baixaria completa, está o receio da grande guerra pelos índices.
O ponto central da ideologia mercadista é vender o peixe de que todas as medidas beneficiando o mercado são “técnicas”, e não políticas.
A consolidação dessa ideologia se deu através do monopólio dos indicadores e pela exclusão de qualquer análise sistêmica sobre medidas econômicas.
Vende-se a ideia de que gastos públicos aumentam a inflação prejudicando os mais pobres. E se começarem a ser desenvolvidos trabalhos mostrando os efeitos das taxas de juros sobre o emprego e sobre a situação dos mais pobres?
Em pleno período de ataques aos aumentos do salário mínimo, o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) divulgou um estudo, com base no IBGE, mostrando que em mais de 50% das famílias, com um aposentado ou pensionista, eles eram o arrimo econômico. Ou seja, o aumento do salário mínimo beneficiou a saúde, pelo fato de ajudar a alimentar a família; a educação, permitindo às crianças entrar mais tarde no mercado de trabalho; a segurança, tornando as crianças menos suscetíveis às investidas do crime organizado.
E se o IBGE utilizasse seus levantamentos para analisar, por exemplo, as externalidades positivas dos investimentos públicos ou dos gastos sociais? Por exemplo: o dinheiro gasto em uma estrada reduziu em xis porcento as perdas com transporte e com carga, permitindo um ganho adicional de ypisilone para a economia brasileira.
Ou a visão sistêmica sobre os financiamentos do BNDES? Hoje em dia, o mercado meramente compara os custos de financiamento do BNDES com a taxa Selic – e diz que a diferença é déficit público. E se forem incluídos nas contas as empresas criadas, os fornecedores, os empregos e o pagamento de impostos desse novo universo produtivo? Aí se poderia saber que, além de gerar empregos e investimentos produtivos, os financiamentos do BNDES ajudam na arrecadação fiscal. E seriam desmascaradas as análises rasas que sustentam muitos dos estereótipos econômicos que alimentam a mídia.
Em suma, há uma grande batalha ideológica em torno dos índices. O medo desse pessoal não é com a manipulação de índices, mas como a elaboração de novos índices, bem embasados academicamente, podendo comprometer a sua própria manipulação de conceitos. Eles não temem a manipulação da estatísticas: temem o que as estatísticas podem mostrar.
O significado da nota da Fitch Ratings sobre a economia brasileira https://tinyurl.com/224pe2ha

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