17 agosto 2026

Thiago Modenesi opina

Milei, a extrema direita e a erosão da democracia nas Américas
A tecnologia política da extrema direita não admite mediação; é um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia
Tiago Modenesi/Vermelho    

A participação de Javier Milei na convenção nacional do Partido Liberal (PL) em São Paulo, no dia 25 de julho, não foi um mero gesto de solidariedade ideológica entre pares. Foi a materialização de um projeto continental da extrema direita: o desmonte sistemático das relações institucionais entre os países das Américas como estratégia para enfraquecer a democracia, substituindo o diálogo diplomático pela provocação, o respeito mútuo pelo insulto e a cooperação regional pela interferência eleitoral descarada.

Milei subiu ao palco do Pacaembu ao som de rock e, durante quase 30 minutos, ofereceu um show de degradação do debate político. Chamou o presidente Lula de “ladrão”, “presidiário”, “lixo socialista” e “totalitário”. Referiu-se ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”. Acusou Lula de tentar fraudar as eleições argentinas de 2023 e de conduzir o Brasil a uma crise de dívidas.

Não se tratam de críticas políticas. Trata-se de um método: a aniquilação do outro como sujeito político legítimo. A extrema direita de Milei não reconhece adversários, reconhece todos como inimigos a serem destruídos. É uma tecnologia política que não admite mediação, um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia.

A reação do Itamaraty foi imediata: convocou o embaixador argentino e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou Milei como palhaço. O presidente Lula, com a ironia que lhe é característica, respondeu ao ser perguntado sobre os ataques: “Quem é esse cara?”. Mas, a crise não é apenas diplomática. É estrutural.

Milei não age sozinho. Ele é a ponta de lança de uma ofensiva coordenada da extrema direita que já governa sete dos 12 países da América do Sul. Da Colômbia de Abelardo de la Espriella ao Chile de José Antonio Kast; da Bolívia de Rodrigo Paz ao Peru de Keiko Fujimori, o que se vê é a ascensão de um bloco político que não apenas compartilha uma agenda econômica ultraliberal, mas também uma mesma concepção autoritária do poder.

Essa direita não é liberal no sentido clássico. É uma direita que ataca direitos das minorias, que tem uma relação mais precária com a democracia, que professa um alinhamento automático com os Estados Unidos e que vê nas instituições (tribunais, parlamentos, organismos multilaterais) não garantias da democracia, mas obstáculos a serem removidos.

O próprio Milei já anunciou o desmonte total do Estado argentino com 90 reformas estruturais. Seu governo é uma experiência política radicalizada de reconfiguração do Estado e da economia, na qual a suposta emergência econômica é instrumentalizada para justificar um estado de exceção permanente que favorece a reconfiguração do Estado em prol do capital financeiro.

Aqui está o núcleo da questão: a diminuição da institucionalidade é a diminuição da democracia. As relações institucionais entre países, o respeito à soberania alheia, a não interferência em assuntos internos, o diálogo diplomático como norma, não são formalidades vazias. São os andaimes da convivência democrática entre nações.

Quando um chefe de Estado viaja a outro país para interferir abertamente em seu processo eleitoral, chamando o presidente em exercício de “ladrão” e “presidiário”, o que está em jogo não é apenas o protocolo. É o princípio da autodeterminação dos povos.

Mas a interferência de Milei não é um desvio. É a regra da nova extrema direita continental. Ela se insere em um movimento mais amplo que busca se posicionar como um contrapeso à chamada ordem liberal internacional e aos valores progressistas que sustentaram o sistema internacional do pós-guerra.

Desmontar as instituições internacionais, desde a diplomacia bilateral até os fóruns multilaterais, é desmontar a democracia, porque é desmontar os mecanismos pelos quais os povos e seus representantes dialogam, negociam, resolvem conflitos e constroem futuros comuns.

Milei encerrou seu discurso com um grito: “Viva la liberdade, carajo!”. É a mais cruel das ironias. Porque o que sua postura e a de seus aliados continentais promovem não é liberdade, mas a liberdade do mais forte, a liberdade do capital financeiro de subjugar Estados, a liberdade do discurso de ódio de destruir a política, a liberdade do autoritarismo de solapar a democracia em nome de uma suposta emergência permanente.

A extrema direita que avança nas Américas não quer menos Estado. Quer um Estado diferente: um Estado que não proteja, que não regule, que não redistribua, que não dialogue. Um Estado que se curve ao mercado e à geopolítica dos EUA, que desmonte direitos e que transforme a política em espetáculo.

O episódio da convenção do PL não é apenas mais um escândalo diplomático. É um sintoma e um presságio. Sintoma de que a extrema direita continental descobriu que pode avançar não apenas pelas urnas, mas pelo desmonte das regras do jogo, dentro e entre os países. Presságio de que, se esse projeto não for enfrentado, a democracia nas Américas será cada vez mais um invólucro vazio, uma formalidade sem substância.

A resposta a Milei não pode ser apenas o “quem é esse cara?” de Lula, por mais precisa que tenha sido a ironia. A resposta deve ser o fortalecimento das instituições democráticas, nacionais e internacionais. A defesa da diplomacia como prática civilizatória. A rejeição de qualquer tentativa de transformar a política em guerra e o adversário em inimigo.

Porque, no fim das contas, a democracia não é um estado de natureza. É uma construção institucional, frágil, contingente, sempre ameaçada. E quando as instituições caem, o que sobra não é liberdade. É o deserto.

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