10 janeiro 2026

Trump e diretistas servis

Fantoches latino-americanos descobrem tradução do lema ‘America First’
Expoentes da extrema direita no continente são só instrumentos de poder para Trump
Jamil Chade/Liberta  

Ao entender que teria de derrubar Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump enfrentou uma pergunta tão desafiadora quanto organizar a queda do presidente da Venezuela: quem ficaria em seu lugar?

Por anos, a oposição venezuelana de direita tinha a certeza absoluta de que seria escolhida, quase por natureza, para ser a aliada da Casa Branca para implementar a estratégia de Washington no país, entregar suas reservas e mudar o mapa político na região. Maria Corina Machado chegou a dedicar seu Prêmio Nobel da Paz para o mandatário do Salão Oval.

Seu nome era celebrado por Eduardo Bolsonaro e outros expoentes do movimento ultraconservador do continente. Javier Milei fez questão de viajar até Olso para prestar homenagem à líder da oposição ao receber a honraria da instituição que concede o prêmio.

Mas, num documento secreto e revelado pelo Wall Street Journal, a CIA chegou a uma outra conclusão: Trump não deveria apostar na oposição venezuelana para conduzir a Venezuela pós-Maduro. E, sim, em nomes de dentro do próprio chavismo. Foi assim que Delcy Rodriguez ganhou uma chance de se provar.

A lógica não passava por ideologia. Sob pressão, seriam os chavistas que teriam as melhores condições de atender aos interesses dos EUA, sem desestabilizar o país nem criar uma guerra civil.

Teatro de sombras

A decepção para a direita ultraconservadora não poderia ter sido maior.

Corina Machado, depois da queda de Maduro, admitiu que a última vez que havia falado com Trump havia sido em outubro do ano passado. Na coletiva de imprensa, horas depois da invasão, o presidente dos EUA descartou, sem cerimônia, a participação de Corina para liderar o novo governo. “Ela não tem apoio popular”, justificou.

Ela não é a primeira a ser traída por Trump. Aposta inicial do republicano, Juan Guaidó chegou a ser recebido com honras de governo.

Mas o plano fracassou e Trump descobriu que, para atingir seus objetivos, ele não precisava necessariamente de democracia. Apenas de chantagem, armas e um acordo. E é isso que ele parece ter optado como caminho em 2026. Guaidó ganhou um prêmio de consolação: hoje trabalha em Miami num centro de pesquisas criado por um ex-funcionário do governo Trump.

De sua sala em Brasília, Jair Bolsonaro também descobriu que foi abandonado pela Casa Branca, apesar de todo o esforço de seu filho Eduardo, de um lobby descomunal por parte do neto de um ditador brasileiro e de uma gigante bandeira americana aberta para marcar o Dia da Independência do Brasil.

O ex-presidente foi usado pelos EUA para justificar a imposição de tarifas contra o Brasil. Mas, quando ficou evidenciado para Trump que a estratégia não havia funcionado e estava afetando os interesses das empresas americanas, o republicano se aproximou de Lula, teceu elogios ao petista, retirou sanções e tarifas ao país. 

O rapto de Maduro oferece lições em múltiplas dimensões para o mundo, para a América Latina e para a diplomacia. Mas ele também escancara outra realidade: a de que o conceito de traição não existe para Trump. Ele não tem amigos ou aliados, nem mesmo entre os ultraconservadores. Tem apenas interesses. Portanto, quem se sente traído pelo americano é por ter imaginado que havia uma aliança com o republicano.

Em certos momentos, os líderes da extrema direita pelo continente podem ser acolhidos por ele. Mas apenas quando puderem servir a um algum interesse da Casa Branca. São buchas de canhão, marionetes de um teatro de sombras, fantoches de uma operação de manipulação das massas.

Podem colocar o boné vermelho ou passar a vergonha de fazer um discurso em inglês num palanque em seu próprio país, na esperança de que Trump lhes escute. Mas a realidade é que são vistos apenas como instrumentos de poder para os EUA.

A história, certamente, ainda pode mudar. Nossos roteiristas são excelentes e Trump ainda pode considerar que seria útil recorrer a um desses políticos.

Por enquanto, porém, fica a lição: o lema “America First” não exige interpretação de texto nem análise profunda. É o que está escrito: América Primeiro. E ponto.

Ilustração: Charge de Cláudio/Folha de S. Paulo

2026, o Brasil diante de uma encruzilhada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/editorial-do-vermelho_27.html 

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