O jogador, sua aposta e a desordem mundial
Ao se completarem os cem primeiros
dias do governo de Donald Trump, um importante site de noticias brasileiro
publicou na primeira página, ecoando boa parte da imprensa ocidental, que “em
100 dias Trump provocou o caos e abalou a ordem mundial”.
José Luís Fiori/ Observatório
Internacional do Século XXI
Isso é apenas parcialmente verdadeiro, uma vez que a desmontagem da “ordem internacional” do pós-Guerra Fria começou muito antes que Trump fosse eleito pela primeira vez, em 2016.
O desmonte começou em 1999, quando os
EUA e seus aliados da OTAN desautorizaram as Nações Unidas, e atacaram e
destruíram a Iugoslávia sem sua aprovação. E mais ainda, quando os EUA e a
Grã-Bretanha atacaram o Afeganistão e o Iraque, em 2001 e 2003, contrariando a
posição do Conselho de Segurança da ONU, principal órgão de “governança global”
que eles mesmos haviam criado em 1945.
Esse processo de descrédito e
desestruturação se agravou com o fracasso da “guerra global ao terrorismo”,
declarada pelos EUA em 2001 e travada de forma quase contínua durante 20 anos,
destruindo países e matando milhares de habitantes islâmicos do Oriente Médio,
sem nenhum tipo de autorização da chamada “comunidade internacional”.
Não há dúvida de que o abalo
definitivo da ordem vigente ocorreu quando as tropas rusas invadiram o território
ucraniano, depois de EUA, OTAN e União Europeia rejeitarem um ultimato russo
que exigia a desmilitarização da Ucrânia e a revisão do mapa geopolítico
europeu, que havia sido imposto à Rússia pelas “potências vitoriosas” e a OTAN
a partir de 1991.
Hoje, quando se olha com a
perspectiva do tempo passado, percebe-se melhor que no dia 21 de fevereiro de
2021, se deu a ruptura definitiva dessa ordem euro-americana. Naquele momento
surgiu uma potência -dentro do sistema mundial- que ousou desobedecer e
desafiar, com suas próprias armas, as tropas ucranianas e o poder militar e
financeiro dos EUA, da OTAN e da União Europeia, envolvidos numa verdadeira
“guerra por procuração” contra a Rússia.
Os russos alcançaram uma vitória
militar exponenciada pelo fracasso do ataque econômico masivo desfechado por
essas mesmas potências do G7 e da Aliança do Atlântico Norte. Duas vitórias que
desmoralizaram definitivamente a ideia da superioridade militar e econômica do
“Ocidente” com relação ao “resto do mundo”.
Quase na mesma hora em que o massacre
israelense, absolutamente cruel e insano, da população palestina da Faixa de
Gaza, feito com as armas e o financiamento dos EUA, e com a cumplicidade
silenciosa de seus aliados europeus, liquidou também o que restava da ideia da
“excepcionalidade moral” da “civilização judaico-cristã” que serviu de
fundamento ético da hegemonia cultural do “Ocidente”.
Foi nesse contexto, e após a grande
crise financeira de 2008, que pôs em xeque a utopia da globalização econômica,
que surgiu politicamente a figura de Donald Trump, o “grande jogador”. Sua
vitória em 2016 e reeleição de 2024 são parte dessa mesma crise e desintegração
da “hegemonia ocidental”.
Sua figura é indissociável da sua
crítica veemente do “globalismo liberal” e de sua proposta de reorganização da
política externa americana a partir da força e do interesse nacional dos EUA,
sem maiores pretensões morais ou catequéticas. E não há a menor dúvida de que a
política e a estratégia nacional e internacional de Donald Trump vêm contribuindo
decisivamente para aumentar o caos e a desorden dentro e fora da sociedade
americana.
Mais do que isto, a intenção
declarada de Trump é destruir o que sobrou da “ordem liberal-cosmopolita” ou
“globalista” do pós-91, e apostar num novo tipo sistema de correlação de forças
internacionais baseado apenas no poder e nas negociações mercantis, sem nenhum
tipo de utopia universalista.
Deixando de lado o “histrionismo
volátil” de Trump, para poder entender melhor sua aposta geopolítica no campo
internacional, o que mais se destacou nos primeiros meses do governo Trump foi
exatamente sua crítica inclemente do “globalismo liberal” e o ataque direto
contra seus próprios vizinhos, aliados e vassalos -como no caso do Canadá e do
México, e do Panamá e da Groenlândia- e de forma ainda mais surpreendente e
disruptiva, contra seus aliados europeus da União Europeia e da OTAN.
E ainda, seu ataque contra as
instituições e organismos multilaterais criados depois da II GM para
administrar a hegemonía mundial dos próprios EUA. Culminando com o “tarifaço
universal” de Trump contra todos os países do mundo e, em particular, contra a
China e a própria Europa, visando reorientar o comercio internacional e
redesenhar o mapa produtivo do mundo.
De todas as suas iniciativas, entretanto,
a mais heterodoxa foi sem dúvida a reaproximação e abertura de negociações com
a Rússia, para acabar com a guerra da Ucrânia e trazer a Rússia para dentro dos
circuitos produtivos, mercantis e financeiros do G7, na contramão da
“russofobia” dos europeus. A tal ponto que chegou a reconhecer e denunciar a
responsabilidade de Joe Biden e da OTAN pela própria Guerra da Ucrânia,
antecipando a vitória inevitável da Rússia e defendendo a necessidade da paz
para que os russos não simplesmente não acabem com a Ucrânia. Deixou no ar,
inclusive, a possibilidade de que os EUA abandonem, no médio prazo, seu
compromisso de “defesa mútua” incondicional, com relação aos países da OTAN.
Existe, no entanto, outro aspecto
menos notado mas igualmente importante desses primeiros 100 dias de governo: a
percepção cada vez mais nítida de que Trump não dispõe do poder que imaginou
ter inicialmente, ao se propor a reorganizar o mundo de forma unilateral. Foi o
que aconteceu no ataque económico contra a China, que encontrou uma resposta
inesperada, dura e agressiva. Os chineses não se intimidaram nem se submeteram,
e acabaram impondo aos norte-americanos um recuo e uma negociação em pé de
igualdade, e nos termos exigidos pelo governo chinês.
Algo parecido com o que passou com a
apressada tentativa americana de pacificação da Ucrânia, que entrou em choque
com a resistência do seu próprio vassalo, e muito mais ainda, com a posição
firme da Rússia em defesa de uma renegociação mais ampla do mapa geopolítico da
Europa, que lhe havia sido imposto em 1991, e das próprias bases da nova ordem
internacional que russos e chineses também consideram que deva ser
reconstruída.
E o mesmo deve ser dito sobre a
resistência demonstrada pelo Irã na defesa de seu programa nuclear, a despeito
das reiteradas ameaças apocalípticas de Trump. Para não falar do recuo do
governo Trump frente à corajosa resposta do México, ou mesmo seu fracasso em
impedir que os países do seu “quintal latino-americano” comparecessem em peso
ao 4º Fórum Ministerial China-CELAC, em Pequim, neste mês de maio, uma das mais
importantes inciativas de cooperação multilateral do Sul Global.
Do nosso ponto de vista, a fraqueza
demonstrada pelos EUA de Trump tem contribuído também, e de forma decisiva,
para o desaparecimento quase completo de qualquer tipo de limites, regras,
instituições e árbitros capazes de impedir que a guerra se transforme no meio
mais comum e natural de “solução” de todo e qualquer conflito internacional.
É o que está acontecendo no caso dos
ataques de Israel contra o Líbano, a Síria, e o Iêmen; e no caso dos ataques do
Iêmen contra os navios “inimigos” que atravessam o Mar Vermelho; e ainda dos
ataques massivos dos EUA e da Grã Bretanha contra o Iêmen, da mesma forma que
na disputa fronteiriça entre a Índia e o Paquistão.
Assim mesmo, quando se olha com mais
cuidado para essa “desordem no mundo”, percebe-se que ela se concentra muito
mais nas zonas de “influência ocidental”, ou das potências do Atlântico Norte
que dominaram o mundo nos últimos 200 anos, do que no “lado oriental” do
sistema mundial. Sobretudo porque essa desordem vem sendo produzida pela erosão
do poder militar e da liderança econômica e moral das “potências ocidentais”.
Por isso mesmo, pode-se afirmar que o
fim do caos e da desordem no mundo só ocorrerá com a construção e consolidação
de uma nova ordem internacional. Esse é um processo que passará,
inevitavelmente, pela redefinição das relações entre esses “dois mundos”.
Com certeza, haverá avanços e recuos,
mas essa construção tomará muitas décadas e envolverá ainda muitos conflitos e
guerras, mas já não será mais uma ordem tutelada pelos EUA, nem muito menos
pela Europa. Isto acabou.
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